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Blog do Juca Kfouri

Problemas de expressão

Juca Kfouri

02/03/2020 19h14

Por RAFA KLEIN

Nunca se produziu tanto texto na história da humanidade.

Ok, a maior parte desses textos possuem 140 caracteres, o que não chegaria a ser considerado 'texto' no resto do sistema solar, mas é o que tem pra hoje.

No futebol não é diferente. Opinião virou commodity e todas essas palavras despejadas nas redes acabaram por provocar um desequilíbrio na nossa balança gramatical.

Até por isso, por estarmos produzindo tanto conteúdo, precisamos ser mais rígidos com as palavras e seus significados.

Por exemplo, "professor". Não dá mais pra usar essa palavra como sinônimo de técnico de futebol, sob a pena de desvalorizar ainda mais a profissão. Até porque, nunca se teve notícia de um professor de verdade ter sido recebido ao som de "burro", "burro", "burro".

"Salário" só pode ser usado se for realmente pago. Nos casos em que profissionais não recebem, deveríamos usar "salafrário", que expõe tanto a falta do pagamento, como a incompetência de quem deveria pagar.

A palavra "craque" também vem sofrendo um certo desgaste ao longo dos anos. Hoje em dia, qualquer jogador razoável é chamado de "craque", sem a menor cerimônia. Vamos combinar: Craque é Pelé. Craque é Zidane. Craque é Maradona. Abaixo desse nível pode receber a classificação que quiser: "ótimo", "excelente", "ôto patamar". Mas "craque", deixemos só pros fora-de-série.

E não é só.

"Matador" já deveria ter sido excluída do vocabulário, por razões óbvias. "Calendário" que não respeita datas pode ser tudo, menos "calendário". "Seleção" deveria ser uma escolha entre os melhores, o que não acontece há muito tempo, Fágner e Taison que o digam.

Precisamos ser muito cuidadosos com as palavras que estamos usando. Porque nessa progressão geométrica de posts, textos e conteúdos, corremos o risco de banalizar as expressões e transforma-las em algo inexplicável.

Aliás, "inexplicável" só deveria ser usado no caso dos Estaduais.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

Juca Kfouri é formado em Ciências Sociais pela USP. Diretor das revistas Placar (de 1979 a 1995) e da Playboy (1991 a 1994). Comentarista esportivo do SBT (de 1984 a 1987) e da Rede Globo (de 1988 a 1994). Participou do programa Cartão Verde, da Rede Cultura, entre 1995 e 2000 e apresentou o Bola na Rede, na RedeTV, entre 2000 e 2002. Voltou ao Cartão Verde em 2003, onde ficou até 2005. Apresentou o programa de entrevistas na rede CNT, Juca Kfouri ao vivo, entre 1996 e 1999 e foi colaborador da ESPN-Brasil entre 2005 e 2019. Colunista de futebol de “O Globo” entre 1989 e 1991 e apresentador, de 2000 até 2010, do programa CBN EC, na rede CBN de rádio. Foi colunista da Folha de S.Paulo entre 1995 e 1999, quando foi para o diário Lance!, onde ficou até voltar, em 2005, para a Folha, onde permanece com sua coluna três vezes por semana. Apresenta, também, o programa Entre Vistas, na TVT, desde janeiro de 2018.

Colunas na Folha: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/jucakfouri/