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O dia em que vi Pelé chorar

Juca Kfouri

28/03/2020 15h22

Em homenagem a Zoca, falecido no último dia 26, aos 77 anos.

Que Pelé é chorão, todo mundo sabe e não é de hoje.

Uma de suas primeiras fotos, uma de suas fotos mais famosas, é exatamente aquela na qual ele aparece chorando feito criança no ombro do goleiro Gilmar, logo depois da final contra a Suécia, na Copa do Mundo de 1958.

Aliás, ele era uma criança mesmo, nem tinha completado dezoito anos.

Nestes dias, ele voltou a chorar, ao se lembrar do pai e ídolo Dondinho, ao se recordar não só de ter visto o velho em prantos depois que a seleção brasileira perdeu para o Uruguai na Copa de 50, mas também de sua promessa, cumprida oito anos depois, de ganhar uma Copa para consolá-lo.

Chorou na frente de todo mundo, em Curitiba, ao participar de de uma das sessões públicas da CPI do Futebol.

Pois eu também já fiz o Rei chorar. Em 1993, fui ao interior do Equador, Cuenca, para entrevistá-lo para a revista Playboy.

Ele estava comentando a Copa América para a Rede Globo e aceitou me receber lá, naquela que seria a primeira entrevista repetida pela revista em dezoito anos de vida, não por acaso com ele, que sempre justifica quebrar qualquer regra.

Sim, porque existia uma regra: quem fosse entrevistado por Playboy jamais voltaria a sê-lo, algo que a edição brasileira resolveu desobedecer ao atingir a maioridade, entre outras coisas porque a entrevista dada por Pelé, treze anos antes, tinha sido decepcionante, fraca mesmo.

E lá fui eu. Estávamos ainda no aquecimento quando lhe perguntei se fazia tempo que não chorava.

Imediatamente, ele respondeu que não, que fazia dois dias.

"Por quê?", eu quis saber.

" Porque eu liguei para casa, para saber de todos, e minha mãe me disse que o Zoca, meu irmão, estava chateado. Nós tínhamos discutido dias antes. E minha mãe me pediu para eu ligar para ele para fazer as pazes e começou a chorar ao telefone, me dizendo que eu agüentava tanta gente, que não estava certo eu brigar com meu irmão, e eu também me emocionei e comecei a chorar ao telefone e…"

Bem, ele começou a chorar ali na minha frente. E dizia: "Que merda, que merda, mas eu sou assim mesmo, me desculpe".

E eu, que então não tinha a menor intimidade com ele, só respondia: "Tudo bem, numa boa, pode chorar, porque quem chora não tem enfarte…"

Cronometrei. Ele chorou durante quase dois minutos. Quando terminou, era como se fosse um queijo derretido. Era enfiar a faca e tirar. E deu para tirar tanto que, naquele dia, ele denunciou corrupção na CBF e fez diversas revelações.

Por causa da entrevista, foi processado por Ricardo Teixeira e tirado do sorteio da Copa de 94 por João Havelange, presidente da Fifa.

Começava ali, na palavra do Rei, um clima que redundaria, sete anos depois, na instalação das CPIs da CBF e do Futebol. Mas essa é outra história, que fica para outra vez.

*Extraído do livro "Meninos, eu vi", de Juca Kfouri, editoras DBA/Lance!)

Sobre o Autor

Juca Kfouri é formado em Ciências Sociais pela USP. Diretor das revistas Placar (de 1979 a 1995) e da Playboy (1991 a 1994). Comentarista esportivo do SBT (de 1984 a 1987) e da Rede Globo (de 1988 a 1994). Participou do programa Cartão Verde, da Rede Cultura, entre 1995 e 2000 e apresentou o Bola na Rede, na RedeTV, entre 2000 e 2002. Voltou ao Cartão Verde em 2003, onde ficou até 2005. Apresentou o programa de entrevistas na rede CNT, Juca Kfouri ao vivo, entre 1996 e 1999 e foi colaborador da ESPN-Brasil entre 2005 e 2019. Colunista de futebol de “O Globo” entre 1989 e 1991 e apresentador, de 2000 até 2010, do programa CBN EC, na rede CBN de rádio. Foi colunista da Folha de S.Paulo entre 1995 e 1999, quando foi para o diário Lance!, onde ficou até voltar, em 2005, para a Folha, onde permanece com sua coluna três vezes por semana. Apresenta, também, o programa Entre Vistas, na TVT, desde janeiro de 2018.

Colunas na Folha: https://blogdojuca.uol.com.br/lista-colunas-na-folha/

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