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Os oitos

Juca Kfouri

21/02/2020 20h07

POR LUIZ GUILHERME PIVA

Só ele, entre os moleques, tinha bicicleta. Velha, uma Philips preta, "de mulher", que um freguês deixara na loja do tio – talvez em pagamento de algo. Para ele foi o ideal para aprender a andar ainda bem pequeno.

Rodava nas ruas de terra, nas trilhas dos sítios, no meio do capim, sob os olhos das outras crianças. Quando ela tinha o descanso, parava-a imponente feito um potro onde tivesse que ir. Depois passou a deitá-la com carinho, como se a pusesse pra cochilar.

No bagageiro, presa na alça, uma bola de couro. Meio murcha, mas que ele não largava. Era seu instrumento para garantir presença nas peladas, já que os meninos, maiores do que ele, só tinham umas leves, de plástico, que o vento carregava ou que furavam em qualquer arbusto.

Mas nem precisaria. A pelada era o único momento em que todos conseguiam andar na bicicleta – que ele não emprestava nem por um segundo pra ninguém.

Sempre o escalavam, não o tiravam nem quando entrava o time de fora – logo alguém lhe cedia a vaga. Mas não pela bola, nem por ele ser um craque – não era.

É que o campinho era numa baixada aonde só se chegava por um barranco pedregoso. Ele tinha que deixar a bicicleta lá em cima (dormindo sob o virol de capim) e descer com cuidado, junto com os demais.

Era a hora. Os meninos se revezavam no alpinismo, chegavam ao topo e acordavam a bicicleta já montando-a e pedalando enquanto o jogo seguia lá embaixo.

No final da pelada, escurinho, ele a encontrava repousada, serena, no acolchoado em que a deixara.

Prendia a bola no bagageiro, dava tchau e, diminuindo, sumia na noite.

Os outros iam a pé, olhando no chão as marcas dos pneus em círculos e oitos infinitos que eles tinham feito nos seus passeios ocultos.

Não sei se ele algum dia descobriu a trama. Mas a bicicleta, depois de um bom tempo, já idosa e fraca, acabou – ele talvez até a tenha velado e sepultado.

E não houve mais pelada. Ele insistiu, chamou os amigos, incentivou. Sem sucesso: eles não iam. Desistiram.

Mesmo gostando muito de jogar, não era por isso que eles marcavam o futebol.

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Luiz Guilherme Piva publicou "Eram todos camisa dez" e "A vida pela bola" – ambos pela Editora Iluminuras

Sobre o Autor

Juca Kfouri é formado em Ciências Sociais pela USP. Diretor das revistas Placar (de 1979 a 1995) e da Playboy (1991 a 1994). Comentarista esportivo do SBT (de 1984 a 1987) e da Rede Globo (de 1988 a 1994). Participou do programa Cartão Verde, da Rede Cultura, entre 1995 e 2000 e apresentou o Bola na Rede, na RedeTV, entre 2000 e 2002. Voltou ao Cartão Verde em 2003, onde ficou até 2005. Apresentou o programa de entrevistas na rede CNT, Juca Kfouri ao vivo, entre 1996 e 1999 e foi colaborador da ESPN-Brasil entre 2005 e 2019. Colunista de futebol de “O Globo” entre 1989 e 1991 e apresentador, de 2000 até 2010, do programa CBN EC, na rede CBN de rádio. Foi colunista da Folha de S.Paulo entre 1995 e 1999, quando foi para o diário Lance!, onde ficou até voltar, em 2005, para a Folha, onde permanece com sua coluna três vezes por semana. Apresenta, também, o programa Entre Vistas, na TVT, desde janeiro de 2018.

Colunas na Folha: https://blogdojuca.uol.com.br/lista-colunas-na-folha/

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