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O Tito foi embora e eu fiquei mudo

Juca Kfouri

21/02/2020 15h52

POR ROBERTO SALIM, no Ultrajano

"Um cara doce e querido que foi presenteado pelos deuses com uma voz e uma interpretação invejáveis. Tanto quanto as imagens que se via durante a exibição dos programas, cada frase por ele dita era pronunciada com a devida nuance e cuidadosas entonações. De tal modo que a imaginação do espectador-ouvinte completasse com incontrolada emoção toda a cena que se descortinava na tela"

Durante 20 anos eu tive a voz mais bonita da televisão brasileira. Quem sabe da TV sul-americana ou mundial?

Não que eu tivesse nascido um Jamelão ou um Orlando Silva, mas na ESPN Brasil minha voz se transformou, virei um bamba das narrações, quando comecei a fazer o programa Histórias do Esporte, ao lado do meu parceiro Ronaldo Kotscho.

Logo de cara pintou a dúvida: quem iria gravar o off, o texto dos documentários? O programa tinha uma hora de duração, às vezes mais. E eu, Kotscho e José Trajano, nosso comandante, sabíamos que a minha voz servia quando muito para ser o "crooner" do conjunto musical "Rubão do Cavaco e seus meninos".

Quando muito!

E aí surgiu a ideia santa, milagrosa, abençoada: quem vai gravar o off é o Luiz Alberto Volpe.

O Volpinho.

O Tito. Tito Volpe.

Um cara doce e querido que foi presenteado pelos deuses com uma voz e uma interpretação invejáveis. Tanto quanto as imagens que se via durante a exibição dos programas, cada frase por ele dita era pronunciada com a devida nuance e cuidadosas entonações. De tal modo que a imaginação do espectador-ouvinte completasse com incontrolada emoção toda a cena que se descortinava na tela. Eram pequenas pérolas sonoras, transmitidas na medida certa. Inesquecível.

Natural de Sertãozinho, Volpe trazia a mansidão dos interioranos.

A sabedoria e a simplicidade daquela vida serena.

E a incompreensão do que a cidade grande oferecia e tirava de sua gente.

Eu gostava do Tito não porque ele fosse a minha voz.

Mas porque ele era gente da mais alta qualidade.

Ele me apresentou ao melhor amigo que eu tive: o Inhão, parceiro durante 17 anos. Meu cachorro foi presente do Volpe.

Volpe também tinha muitos defeitos e fraquezas.

Como todos nós.

Era um cara irônico, mas sem crueldade. E como sabia ler! Como interpretava! Como fazia do meu texto uma melodia!

Os amigos mais chegados me ligaram quando o Tito ficou em silêncio no começo desta semana.

Dudu me enviou o maravilhoso texto que escreveu para o Volpinho.

O meu irmão Ari Borges lembrou a frase que o Tito repetia sempre que ia começar a gravação de um off:

"Testando para teste… Testando para teste…"

Thiago Blum lembrou outra frase, sempre falada antes das gravações do programa 30 Minutos, apresentado pelo Volpe: "Sem calanguejo não dá". Ele brincava e dizia "calanguejo" com "a letra ele" mesmo, referindo-se a um gole de aguardente necessário para calibrar a voz e os sentidos em minutos que antecediam o momento mágico da gravação do nosso programa querido.

Beto Duarte, que editou o nosso programa durante anos, ligou assustado de Roma: "O que aconteceu com o Tito?". Beto, como eu, tinha adoração pelo trabalho do Volpe e era nosso sonho que ele se recuperasse e pusesse sua voz sobre o documentário que estamos fazendo há dois anos sobre Santos Dumont.

Décio Viotto, o primeiro editor de texto do Histórias do Esporte, também quis saber como tinha acontecido. E em sua linguagem direta, lascou: "Que merda, Salim, o Volpe".

E quantas vezes eu e o Kotscho viajando por este Brasil durante 15 anos não falamos da excelência do trabalho do Volpe. Como nosso programa perderia qualidade se eu ou ele puséssemos nossas vozes no off…

"Seria um desastre", sentenciava o Kotscho, mais conhecido por Alemão.

Lembramos as brigas que eu tinha com o Volpe, porque nunca fui adepto de escrever o texto em computador. E então o Volpe tinha que ter atenção redobrada na leitura em cima das letras miúdas da minha velha Olivetti-Lettera 22.

Eram em média 44 páginas, e o Volpe me implorava para passar o texto no computador numa letra maior, mas essa era a minha vingança contra ele, por ter uma voz tão poderosa e eu não.

São muitas histórias que vivemos juntos desde os tempos dos programas de esportes na TV Cultura. Casos que passam pela Olimpíada de Sydney, em que ele dormia numa cama improvisada em nossa redação no centro de imprensa, pois o programa entrava no ar às 18h de Brasília, exatamente seis da matina na cidade australiana.

"Acorda, Tito, que tem off pra gravar."

"Acorda, Tito, que tem o programa para apresentar."

"Acorda, Tito, vamos dormir no apartamento."

"Acorda, Tito, que nós vamos perder o avião para o Brasil" – esta última frase já pulando em cima da mala dele, que não fechava.

São muitas histórias.

E muitos amigos envolvidos.

O Senninha, câmera da ESPN na época, me escreveu quando soube que o Tito tinha partido: "Meus sentimentos, Salim".

Sim, eu tenho um pouquinho do Tito.

E confesso que não tive coragem de ir visitá-lo.

Não sou covarde e não abandono os amigos, mas senti receio.

Medo de que sua… minha… incrível voz tremesse no quarto do hospital.

Sobre o Autor

Juca Kfouri é formado em Ciências Sociais pela USP. Diretor das revistas Placar (de 1979 a 1995) e da Playboy (1991 a 1994). Comentarista esportivo do SBT (de 1984 a 1987) e da Rede Globo (de 1988 a 1994). Participou do programa Cartão Verde, da Rede Cultura, entre 1995 e 2000 e apresentou o Bola na Rede, na RedeTV, entre 2000 e 2002. Voltou ao Cartão Verde em 2003, onde ficou até 2005. Apresentou o programa de entrevistas na rede CNT, Juca Kfouri ao vivo, entre 1996 e 1999 e foi colaborador da ESPN-Brasil entre 2005 e 2019. Colunista de futebol de “O Globo” entre 1989 e 1991 e apresentador, de 2000 até 2010, do programa CBN EC, na rede CBN de rádio. Foi colunista da Folha de S.Paulo entre 1995 e 1999, quando foi para o diário Lance!, onde ficou até voltar, em 2005, para a Folha, onde permanece com sua coluna três vezes por semana. Apresenta, também, o programa Entre Vistas, na TVT, desde janeiro de 2018.

Colunas na Folha: https://blogdojuca.uol.com.br/lista-colunas-na-folha/

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