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As lições aprendidas pelos Bolsonaro

Juca Kfouri

21/02/2020 18h06

A primeira lição que os Bolsonaro aprenderam no manejo das redes sociais e da comunicação é que não importa o tamanho da bomba, ela pode ser neutralizada ou mesmo jogada a seu favor.

Por VILMA AGUIAR*, no GGN

Em maio de 2017, vazou o áudio de um diálogo entre Michel Temer e Joesley Batista em que se revelava a promiscuidade escandalosa entre o público e o privado. Joesley Batista, dono da JBS, empresa bilionária do setor de alimentos, frequentava o Palácio do Planalto em altas horas e fora da agenda para tratar de seus interesses e das propinas pagas a outros políticos, como o ex-presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, já preso. Ficou famosa a frase do presidente, "tem de manter isso aí, viu?".

O mundo veio abaixo. Um colunista do Globo chegou a afirmar que Temer renunciaria, e o grupo Globo começou uma campanha por sua renúncia. Houve muito baralho. Mas todos conhecemos o desfecho dessa história. Temer teve o sangue frio de deixar a poeira assentar e terminou seu mandato tranquilamente.

Cito este entre dezenas de outros exemplos recentes de como, no mundo contemporâneo das da internet e das redes sociais, nada permanece por mais de algumas horas ou dias na pauta. E quando sai da pauta, desaparece. Glenn Greenwald, que colocou em xeque o esquema global de vigilância americano com o caso Snowden, mal conseguiu arranhar a reputação de Sérgio Moro. Longe dos olhos, longe do coração, diz o dito popular. Ou como diria Marx, tudo que é sólido desmancha no ar.

A primeira lição que os Bolsonaro aprenderam no manejo das redes sociais e da comunicação é que não importa o tamanho da bomba, ela pode ser neutralizada ou mesmo jogada a seu favor. Desenvolveram intuitivamente, ou não, um método para isso.

Uma tática deste método é aparentar um recuo. Como quando Eduardo Bolsonaro defendeu a adoção de um novo AI5 para conter manifestações populares e depois se disse mal interpretado. A tática de se dizer mal interpretado e fazer cara de indignado por isso, é usada reiteradamente. Outra tática é atribuir a responsabilidade a terceiros. Como quando Bolsonaro disse que sabia o que tinha havido com o pai de Felipe Santa Cruz, presidente da OAB, desaparecido durante o regime militar, para afirmar, em seguida, que a organização de que ele fazia parte seria a responsável por sua morte. A mesma manobra foi usada quando atribuiu a ONGs o início das queimadas que seu governo incentivou ou quando eximiu-se da responsabilidade de ofender Brigitte Macron.

A principal tática desse método contudo é o bombardeio. Desde o início deste governo, não há semana em que um membro dele não lança um torpedo sobre nós. Pode ser a Damares com sua pauta ultraconservadora e suas bizarrices, pode ser Weintraub com suas grosserias e tentativas patéticas de mimetizar Bolsonaro, pode ser o próprio atacando as mulheres, a imprensa e os jornalistas ou, ainda, Guedes com suas frases sobre os funcionários públicos parasitas ou sobre o absurdo de domésticas irem a Disney. A fábrica de grosserias, preconceitos, insultos e afins é a unidade mais produtiva do governo.

O fato é que os Bolsonaro descobriram que não há absurdo grande o bastante para freá-los. Pelo contrário, o hiperbólico, a mentira, a calunia e até o escatológico os ajuda. Esse método não apenas mantém sua alcateia de seguidores sedentos de sangue sempre alerta, como também mantém o restante dos informados em indignação permanente, incapazes de mobilizamos esforços e energias para nos contrapor. Estamos tão estarrecidos com o que é dito que não conseguimos opor nada ao que é feito. Ao nos obrigar a responder aos seus comandos, eles se mantêm maestros. Sequestraram nossa atenção, nossa agenda, nossa possibilidade de construir alternativas.

Claro que não é apenas isso. Claro que o abaixo da zoeira o governo governa para alguns e por isso existe o apoio institucional das Forças Armadas, o apoio do mercado e da mídia, o apoio das elites. Mas o governo faz a parte dele com uma competência exemplar. Destruiu o mercado formal de trabalho e a previdência social (ambos com a colaboração ativa do Congresso, diga-se de passagem) e está caminhando a passos largos na destruição do SUS e do que restou da educação pública e da cultura.

Como se opor a isso? Essa é a pergunta que todos fazemos. A única resposta que me ocorre é construir um puxadinho no departamento da indignação e criar o de projetos, de articulação, de estratégias. Melhorar o de comunicação, que só tem falado com os convertidos. Precisamos, antes de tudo e urgentemente, construir uma oposição digna deste nome. Se não, vamos continuar a dançar essa música psicodélica que nos mantém em transe.

*Vilma Aguiar é socióloga, Doutora em Ciências Sociais (UNICAMP), Mestre em Filosofia (USP). Atualmente é professora de pós-graduação, presidente da Escola da Política e desenvolve uma pesquisa sobre o impacto do feminismo na vida privada de mulheres. Escreve sobre política e feminismo.

Sobre o Autor

Juca Kfouri é formado em Ciências Sociais pela USP. Diretor das revistas Placar (de 1979 a 1995) e da Playboy (1991 a 1994). Comentarista esportivo do SBT (de 1984 a 1987) e da Rede Globo (de 1988 a 1994). Participou do programa Cartão Verde, da Rede Cultura, entre 1995 e 2000 e apresentou o Bola na Rede, na RedeTV, entre 2000 e 2002. Voltou ao Cartão Verde em 2003, onde ficou até 2005. Apresentou o programa de entrevistas na rede CNT, Juca Kfouri ao vivo, entre 1996 e 1999 e foi colaborador da ESPN-Brasil entre 2005 e 2019. Colunista de futebol de “O Globo” entre 1989 e 1991 e apresentador, de 2000 até 2010, do programa CBN EC, na rede CBN de rádio. Foi colunista da Folha de S.Paulo entre 1995 e 1999, quando foi para o diário Lance!, onde ficou até voltar, em 2005, para a Folha, onde permanece com sua coluna três vezes por semana. Apresenta, também, o programa Entre Vistas, na TVT, desde janeiro de 2018.

Colunas na Folha: https://blogdojuca.uol.com.br/lista-colunas-na-folha/

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