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Ah, esses uruguaios (Náutico 4, Botafogo 1)

Juca Kfouri

19/02/2020 15h16

Por ROBERTO VIEIRA*

Pacaembu, 1966.

O centroavante Bita do Náutico marca 4 gols nas redes do Santos de Pelé.

Gilmar observa incrédulo.

Ah, aqueles uruguaios dos meus tempos de menino.

Traiçoeiros. Habilidosos. Celestes.

A gente fazia um gol e eles não desistiam. Vinham aos milhares. Das planícies, dos pampas, da Província Cisplatina.

Scarones, Ceas, Castros, Gighias.

Quando os pirralhos apaixonados por futebol não queriam dormir a mãe logo murmurava em seus ouvidos:

"Olha que eu mando chamar o Obdulio!"

Ontem quando coloquei meus pés nas ruas em volta do Estádio dos Aflitos eu me vi em plena Villa Del Cerro.

Na Avenida Rosa e Silva milhares de camisas vermelhas e brancas.

Mas os homens usam chapéu e as mulheres sombrinhas.

Quando olhei para trás já não via o Estádio dos Aflitos.

Sob meu olhar incrédulo se erguia o Centenário de Montevidéu.

Bita é negociado em 1967 com o futebol uruguaio.

Vai jogar no Nacional de Montevidéu.

Ah, esses uruguaios, sempre nos passando a perna.

Quarenta e um anos depois dos 4 gols nas redes do inesquecível Gilmar, Silvio Tasso Lasalvia, o Bita, ressuscita com a camisa 25 do Clube Náutico Capibaribe.

Em um baile digno do Teatro Solís, o antigo ídolo alvirrubro agora atende pelo nome de Acosta.

Acosta que veio do Peñarol, o inimigo ancestral do Nacional.

Um troca-troca com 4 décadas de atraso.

E com a mesma frieza Acosta faz 4 gols nas redes do time da Estrela Solitária.

Sei que amanhã os estatísticos, os digitais, os realistas irão provar que foi tudo uma ilusão.

Com gráficos, palavras e números, principalmente números, tentarão seduzir os apaixonados torcedores para a dimensão terrena, onde habitam os dias e as noites.

Onde habita o óbvio. Onde reina o chão.

Porém meus olhos apaixonados guardaram marejados a sombra do velho Centenário erguendo-se em pleno Recife. E meus olhos insistem em enxergar Bita se movendo pelas linhas que dividem o campo de futebol e a realidade fria e imediata.

Porque a vida, o amor e o futebol possuem uma coisa em comum: O sonho!

Ah, esses uruguaios do meu tempo. Traiçoeiros. Habilidosos. Pedros Rochas.

Celestes.

*Meu primeiro texto no Blog do Juca.

Hoje tem Náutico x Botafogo pela Copa do Brasil, nos Aflitos.

Sobre o Autor

Juca Kfouri é formado em Ciências Sociais pela USP. Diretor das revistas Placar (de 1979 a 1995) e da Playboy (1991 a 1994). Comentarista esportivo do SBT (de 1984 a 1987) e da Rede Globo (de 1988 a 1994). Participou do programa Cartão Verde, da Rede Cultura, entre 1995 e 2000 e apresentou o Bola na Rede, na RedeTV, entre 2000 e 2002. Voltou ao Cartão Verde em 2003, onde ficou até 2005. Apresentou o programa de entrevistas na rede CNT, Juca Kfouri ao vivo, entre 1996 e 1999 e foi colaborador da ESPN-Brasil entre 2005 e 2019. Colunista de futebol de “O Globo” entre 1989 e 1991 e apresentador, de 2000 até 2010, do programa CBN EC, na rede CBN de rádio. Foi colunista da Folha de S.Paulo entre 1995 e 1999, quando foi para o diário Lance!, onde ficou até voltar, em 2005, para a Folha, onde permanece com sua coluna três vezes por semana. Apresenta, também, o programa Entre Vistas, na TVT, desde janeiro de 2018.

Colunas na Folha: https://blogdojuca.uol.com.br/lista-colunas-na-folha/

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