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Fabuloso destino de um moleque

Juca Kfouri

20/01/2020 12h40

Por LUCCA BOPP*

Ainda que não tenha chegado a um acordo com a Inter de Limeira, Luis Fabiano luta para voltar a jogar futebol aos trinta e nove anos. Quer encerrar a carreira em campo, não por imposição do próprio corpo. Nada mais luisfabianístico: a teimosia, o empenho e a paixão. Três ingredientes que o acompanharam na maiúscula carreira que construiu e o transformaram no último de sua espécie. Sim, porque não há o menor sinal de um próximo Fabuloso a caminho. Pelo menos, por ora, nenhum centroavante se assemelha a ele. Ou melhor, nenhum jogador. E não é pelo faro de artilheiro, porque Gabigol tem intimidade parecida com o fundo da rede. Nem pela média de gol impressionante, porque Neymar tem números até superiores nesse quesito.

É que Luis Fabiano é um jogador extraordinariamente humano. Capaz de reproduzir, dentro de campo, as mesmas emoções que a gente vive no cotidiano. A dividida com o zagueiro é a fechada no trânsito, o impedimento é o pão que cai com a manteiga virada pra baixo, a discussão com o juiz é a ligação para a operadora de telefone, a comemoração do gol é o amor correspondido, e o xingamento ao bandeirinha é… o xingamento ao bandeirinha. Claro que os outros jogadores fazem essas coisas, mas nenhum escancara os sentimentos de maneira tão genuína. E, ao ser assim, Luis Fabiano revela ao mundo que mantém intacta dentro de si a inocência dos Moleques Que Jogam Bola. A conservação das primeiras impressões, com os encantamentos e imensidões que a acompanham: o olhar maravilhado para tudo que é simples. O picolé da padaria como objeto de desejo e o primeiro beijo como o maior acontecimento da humanidade.

O problema é que, ao transformar o corriqueiro em superlativo, a ingenuidade define como catástrofe o que é apenas uma frustração. E um moleque não é obrigado a saber disso, mesmo aos trinta e nove anos: não é permitido amadurecer no futebol e ainda bem. Veja como marmanjos e marmanjas voltam no tempo a cada jogada linda ou frango do goleiro. Então, se nós do lado de cá do alambrado agimos como crianças, por quê os jogadores deveriam primar pela racionalidade?

Ao rejeitar a aposentadoria que se avizinha — e olha que as lesões têm sido implacáveis nos últimos anos — Luis Fabiano é o moleque que sai de casa no frio sem casaco, mesmo com a mãe pedindo pra se agasalhar; ou que não espera as duas horas de digestão depois do almoço para bater uma bola com os amigos na rua. A desobediência é a prima incompreendida da resiliência e, quando vem embalada por um ideal, passa a ser quase obrigatória. Um bonito paradoxo.

Luis Fabiano não apenas deseja voltar a jogar. Ele precisa. E isso se dá também pela puerilidade que sempre lhe acompanhou: da mesma forma que os adolescentes precisam ir para Porto Seguro na formatura para se sentirem parte da turma, Fabuloso coloca o joelho em risco, mais uma vez, porque pertence ao campo e à grande área. Nasceu e cresceu e venceu ali. Não é justo que o fim desse convívio seja decretado longe da marca do pênalti. E se acostumar com as injustiças do mundo, como vimos, não pode ser incumbência dos meninos que sonham, ainda que já tenham realizado tanto.

E Luis Fabiano realizou: jogou muito bem uma Copa do Mundo, é ídolo tanto no São Paulo quanto no Sevilha e fincou seu nome no Morumbi, como terceiro maior artilheiro da história do clube. Seu maior feito, porém, ainda está por vir: o moleque que já brigou tanto e até ajudou na briga, agora luta contra o relógio.

Mas se, até hoje, o tempo não o alcançou, desconfio que não será dessa vez: os amigos ainda esperam Luis para bater uma bola.

*Lucca Bopp é publicitário.

Sobre o Autor

Juca Kfouri é formado em Ciências Sociais pela USP. Diretor das revistas Placar (de 1979 a 1995) e da Playboy (1991 a 1994). Comentarista esportivo do SBT (de 1984 a 1987) e da Rede Globo (de 1988 a 1994). Participou do programa Cartão Verde, da Rede Cultura, entre 1995 e 2000 e apresentou o Bola na Rede, na RedeTV, entre 2000 e 2002. Voltou ao Cartão Verde em 2003, onde ficou até 2005. Apresentou o programa de entrevistas na rede CNT, Juca Kfouri ao vivo, entre 1996 e 1999 e foi colaborador da ESPN-Brasil entre 2005 e 2019. Colunista de futebol de “O Globo” entre 1989 e 1991 e apresentador, de 2000 até 2010, do programa CBN EC, na rede CBN de rádio. Foi colunista da Folha de S.Paulo entre 1995 e 1999, quando foi para o diário Lance!, onde ficou até voltar, em 2005, para a Folha, onde permanece com sua coluna três vezes por semana. Apresenta, também, o programa Entre Vistas, na TVT, desde janeiro de 2018.

Colunas na Folha: https://blogdojuca.uol.com.br/lista-colunas-na-folha/

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