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Dear Kobe

Juca Kfouri

27/01/2020 18h57

Por PAULO EGREJA*

Querido Kobe,

Quando eu tinha vinte e poucos anos, fui com meus amigos para uma festa, comemorar o fim do semestre da faculdade. Eu estava, então, completamente apaixonado por uma menina da minha turma, e naquela noite, graças a imensa rede de amigos determinados a me ajudar, descobri não só que ela também estava a fim de mim, como planejava ficar comigo. Ao invés de pular de felicidade, no entanto, entrei em pânico. Durante toda minha vida, sofri (e sofro) com uma ansiedade clínica que as vezes se torna paralisante. Meu coração acelerou, me senti claustrofóbico ali dentro, a sensação de que algo muito ruim estava para acontecer me atingiu com força, e, como tantas outras vezes, fugi. Deixei a balada e voltei para casa. Voltar para um lugar seguro faz com que os sintomas desapareçam quase imediatamente; o corpo se acalma, sua mente volta para o lugar. Mas aí vem a segunda fase do tormento: a sensação de derrota, de como você é fraco. Por muitos anos me senti incapaz de lidar com certas situações. As coisas mais simples muitas vezes eram complicadas para mim, e não sei quantos momentos especiais da minha vida eu perdi graças aos medos imaginários da minha cabeça. Cheguei em casa me sentindo o ser humano mais patético da face da terra, abri uma Coca-Cola e me sentei na frente da televisão. Você estava jogando, e foi neste momento que percebi porque te admiro tanto. Você era tudo que jamais consegui ser: confiante, sem medo, seguro de si, imparável. Ganhando ou perdendo, você era o dono da quadra, senhor do próprio destino. E decidi começar o texto com esta história porque, em uma de suas frases mais famosas, você disse que o mais importante é inspirar as pessoas a vencerem naquilo que desejam fazer; você me inspirou. Depois de respirar fundo umas dez vezes, peguei outro táxi e voltei para festa. E o beijo que aconteceu naquela noite abriu um dos períodos mais especiais da minha vida. Hoje, quase dez anos depois, muita terapia e alguns ansiolíticos, eu me sinto cada vez mais dono do meu destino, e você sempre foi uma inspiração sobre a postura com a qual eu queria lidar com a minha vida, mesmo sem eu jamais ter pisado numa quadra de basquete. Muito obrigado por isso.

Querido Kobe, sentirei demais a sua falta. Você era a história que eu queria contar para meu filho. Daqui a dez ou vinte anos, assistindo televisão com ele, você apareceria na beira da quadra, e eu poderia dizer "filho, este cara foi especial". E eu me preocupo porque sem você aqui, sem você vivo, não sei se conseguirei convencer uma criança de que você foi real; sua história é tão fantástica que às vezes é quase ficção. 61 pontos no Garden, 12 cestas de três no mesmo jogo, 81 contra o Toronto, um lance livre com o ligamento rompido, 1 MVP (e outros 2 roubados de você), 5 títulos, 2 medalhas olímpicas e a maior despedida da história dos esportes, com 60 pontos contra o Utah. Tudo isso sem contar as várias e várias noites de cestas espetaculares. Como André Kfouri (ESPN Brasil) disse: você foi o Michael Jordan de quem não pôde ver Michael Jordan. E você também foi o melhor Kobe Bryant que poderíamos querer.

Não sou religioso, mas minha família é; dizem que quando Deus leva alguém, é porque quer sua companhia. Espero que você e sua filha O ensinem a fazer umas cestas e, principalmente, que você empreste um pouco da "Mamba Mentality" que Ele tão desesperadamente precisa para resolver de vez os problemas do mundo. E espero também que haja alguma força neste universo capaz de dar força a sua família neste momento tão absurdo.

Gritar "Kobe for the win" a cada arremesso de uma bolinha de papel no cesto de lixo não será a mesma coisa a partir de agora. Nem ver seus replays ou usar você no videogame. Você partiu sem mais nada para provar, mas com muito ainda por fazer. E depois de tantos sacrifícios, merecia toda uma vida para aproveitar sua família, seu dinheiro e tudo que conquistou. Você venceu em tudo que fez; quando se meteu com cinema, levou um Oscar. Tenho certeza que o segundo Ato da sua vida seria um sucesso, independente dos caminhos que você escolhesse.

Querido Kobe, este texto é apenas mais uma entre as milhões de mensagens dos seus milhões de fãs, mas foi o jeito que encontrei para dizer adeus. E por isso é tão difícil terminá-lo. A mudez que atingiu o mundo desde o momento da trágica notícia parece não querer passar, como se as próprias palavras tentassem evitar o momento da despedida, pois essa é a verdade: se despedir de você aos 41 anos de idade é um absurdo. Você foi, é, e sempre será Kobe Bryant, The Black Mamba, e se a partir de agora a trágica realidade nos obriga a escrever sobre você no tempo passado, em cada quadra, em cada jogo e na mente de cada fã, você será sempre presente. Querido Kobe, você é imortal. Descanse em paz.

*Paulo Egreja é escritor. E mantém um belo blog.

Sobre o Autor

Juca Kfouri é formado em Ciências Sociais pela USP. Diretor das revistas Placar (de 1979 a 1995) e da Playboy (1991 a 1994). Comentarista esportivo do SBT (de 1984 a 1987) e da Rede Globo (de 1988 a 1994). Participou do programa Cartão Verde, da Rede Cultura, entre 1995 e 2000 e apresentou o Bola na Rede, na RedeTV, entre 2000 e 2002. Voltou ao Cartão Verde em 2003, onde ficou até 2005. Apresentou o programa de entrevistas na rede CNT, Juca Kfouri ao vivo, entre 1996 e 1999 e foi colaborador da ESPN-Brasil entre 2005 e 2019. Colunista de futebol de “O Globo” entre 1989 e 1991 e apresentador, de 2000 até 2010, do programa CBN EC, na rede CBN de rádio. Foi colunista da Folha de S.Paulo entre 1995 e 1999, quando foi para o diário Lance!, onde ficou até voltar, em 2005, para a Folha, onde permanece com sua coluna três vezes por semana. Apresenta, também, o programa Entre Vistas, na TVT, desde janeiro de 2018.

Colunas na Folha: https://blogdojuca.uol.com.br/lista-colunas-na-folha/

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