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Revelado o segredo do baile rubro-negro sobre o Liverpool

Juca Kfouri

04/12/2019 13h31

Por MARCELO DUNLOP

Esta nem o Dudu Monsanto, Ruy Castro e outros célebres biógrafos rubro-negros contaram. Como a história caiu no meu colo, numa gentileza do amigo JP Careca, conto eu, na esperança de que seja passada adiante até que chegue a um escritor sério.

É a história de como um singelo torcedor de arquibancada, como você e eu, foi crucial na vitória esmagadora do Flamengo sobre a poderosa esquadra do Liverpool, em dezembro de 81. É a história de Duilio.

Duilio Freitas Guimarães descobriu-se desde cedo um flamengo tarado, de chegar ao Maracanã antes do meio-dia para não perder o espetáculo da abertura daqueles sagrados portões, e ser dos primeiros a subir a rampa. Isso em 1977, quando começou a ir sozinho aos estádios e aos treinos na Gávea, aos 12 anos.

Sua primeira viagem ao exterior, adivinhem, foi para Santiago, em busca da épica conquista da Libertadores (sim, aquela primeira, não essa de agora). Aos 16 anos, o intrépido rubro-negro foi logo notado ali no aeroporto, sozinho, e imediatamente adotado como mascote pelos demais torcedores. Durante o voo, um casal especial de pronto se afeiçoou pelo rapazola: o rubro-negro doente Carlos Eduardo Dolabella e a atriz Pepita Rodrigues, que prometeram até apresentá-lo ao Zico, seu ídolo eterno.

Foi uma viagem mágica, em que Duilio viajava no ônibus dos jogadores, mas o resultado adverso, logo na segunda partida com o Cobreloa, transformou sonho em dramalhão; e tome lágrimas de esguicho e pensamentos atarantados na cabeça do garoto. Foi quando Dolabella e Pepita lhe fizeram uma proposta…

O casal global, que jamais podia prever que a final teria agora um terceiro jogo no Uruguai, precisava retornar ao Brasil, por compromissos teatrais. Mas ainda precisavam de alguém para levar uma faixa e pendurar no estádio Centenário em Montevidéu para eles. Despesas pagas. Duilio toparia?

Para melhorar, Dolabella, que não virou nome da suculenta farofa à toa, pediu ao presidente do clube, Dunshee de Abranches, para ficar de olho e ajudar o garoto no que fosse preciso. Irrecusável.

Após voar com a delegação flamenga, diretamente do Chile para o Uruguai, o solitário viajante começou a sentir o poder dessa irmandade chamada Flamengo, que já o cronista Mario Filho exaltava.

No aeroporto uruguaio embarcou no táxi com outro rubro-negro perdido. Sem ideia de onde se hospedar, acabou caindo no hotel Presidente, na aba da equipe do saudoso Canal 100 – bem próximo do Victoria Plaza, onde estava o time. E ainda trocava os dólares do Dola com o auxílio de Paulinho de Andrade, filho do Castor do Bangu. Isso sem falar nos jornalistas, jogadores, dirigentes que encontrava. Já estava junto e misturado com a mulambada de variados matizes.

Foi então que, um dia no salão do Plaza, Duilio testemunhou o papo delicioso entre o repórter Raul Quadros, o centroavante Nunes (de quem ficou amigo) e a comissão técnica. "E aí Carpegiani, já começou a imaginar o esquema tático no caso de jogarem com o Liverpool?", assuntou Quadros. O técnico do mítico time de 1981 respondeu com um muxoxo: "Não, estou tentando algumas fitas dos jogos, mas não consegui nada, nem com a Globo, nem Bandeirantes, nem TVE… Difícil."

Mas não contavam com Duilio. Acontece que naqueles dias zanzando pelo hotel, o brasileiro fez amizade com outro menino louco por futebol, um pequeno uruguaio chamado Gabriel, filho de um diplomata recém-chegado da Europa e que estava seco para conhecer Zico & cia. Duilio o ajudara a conversar e pegar autógrafos dos craques flamengos, e ficaram amigos.

Como retribuição, Gabriel convidou o amigo brasileiro para almoçar em sua casa – o que deve ter sido um alívio, pois Duilio estava numa dieta restrita a filets con papas fritas, traçados no restaurante ali perto, num escambo curioso: em troca de comida, o brasileiro emprestou ao restaurante seu Manto Sagrado, que ficava pendurado ali a atrair clientes rubro-negros.

"Pois naquela tarde em sua casa, após me apresentar seus pais", recorda Duilio, "o Gabriel se lembrou de uma coisa que queria me mostrar." E puxou uma pilha de fitas de vídeo: "São os últimos jogos do Liverpool na Taça dos Campeões da Europa, talvez interesse… Estávamos morando na Inglaterra, você sabe. Gravei até a final em Paris, Liverpool 1 a 0 no Real Madrid."

Como dois goonies insanos, de posse do maior tesouro que poderiam guardar na mochila, os jovens combinaram o plano que poderia alterar a história do clube. E assim, na manhã seguinte, esperaram Carpegiani no hall do Victoria Plaza. Quando o professor saiu do elevador, os dois o abordaram num salto.

"Comandante, esse aqui é o Gabriel e ele tem um presente para você".

O uruguaio, que havia editado tudo numa fita só, entregou o tijolão VHS, sem nada escrito, na mão do treinador, que tinha tomado um susto. Carpa ficou olhando da fita para os moleques sem entender patavinas (expressão da época). Ao indagar e descobrir o que tinha nas mãos, Carpa não acreditou e saiu correndo para o quarto, para conferir as imagens.

Na hora do jogo Flamengo x Cobreloa, Duilio não esqueceu sua missão, e pendurou no alambrado a faixa sobre a peça teatral de Dolabella: "Viva sem medo suas fantasias sexuais. Em cartaz no…"

A faixa ele não tem mais, claro. Mas guarda com carinho a foto ao lado da Taça Libertadores da América, registrada em 1981 naquele hotel uruguaio, em retribuição aos serviços prestados, e a viagem de volta, quando Carpegiani chamou-o para que sentasse ao seu lado, e vieram conversando do Uruguai ao Rio.

"Hoje guardo essa história como minha grande herança rubro-negra para meus filhos – Arthur, Edu e Julia", diz a fera de 54 anos, que obviamente encarou a viagem para Lima. Mas era apenas mais uma final de Libertadores para ele.

Sobre o Autor

Juca Kfouri é formado em Ciências Sociais pela USP. Diretor das revistas Placar (de 1979 a 1995) e da Playboy (1991 a 1994). Comentarista esportivo do SBT (de 1984 a 1987) e da Rede Globo (de 1988 a 1994). Participou do programa Cartão Verde, da Rede Cultura, entre 1995 e 2000 e apresentou o Bola na Rede, na RedeTV, entre 2000 e 2002. Voltou ao Cartão Verde em 2003, onde ficou até 2005. Apresentou o programa de entrevistas na rede CNT, Juca Kfouri ao vivo, entre 1996 e 1999 e foi colaborador da ESPN-Brasil entre 2005 e 2019. Colunista de futebol de “O Globo” entre 1989 e 1991 e apresentador, de 2000 até 2010, do programa CBN EC, na rede CBN de rádio. Foi colunista da Folha de S.Paulo entre 1995 e 1999, quando foi para o diário Lance!, onde ficou até voltar, em 2005, para a Folha, onde permanece com sua coluna três vezes por semana. Apresenta, também, o programa Entre Vistas, na TVT, desde janeiro de 2018.

Colunas na Folha: https://blogdojuca.uol.com.br/lista-colunas-na-folha/

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