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O beque central

Juca Kfouri

09/12/2019 20h00

POR LUIZ GUILHERME PIVA

Um time ele completava. O do Palmeiras.

Dos demais sempre faltavam alguns.

Foi de repente – em frente à TV, ou lendo jornal, ou dirigindo, não sabe bem. Mas começaram a vir à memória os jogadores dos times de futebol de botão que ele tivera quando garoto.

Vinham à mente os retratos e os nomes – na época os botões eram assim, porque os times pouco alteravam suas escalações.

Assustou-se por lembrar-se de alguns de que já se esquecera totalmente. E frustrou-se por esquecer-se dos outros.

Leão; Eurico, Luis Pereira, Alfredo e Zeca; Dudu e Ademir da Guia; Edu, Leivinha, César e Nei. Completa. Mas não era vantagem – essa escalação é quase um "Parabéns pra você", todo mundo sabe.

Mas na do Vasco gaguejava. Andrada; Fidélis, Miguel, Renê e Alfinete; e depois, nada. Zanata? Alcir? Roberto já estava?

A do Fluminense vinha melhor: Félix; Oliveira, Assis, Silveira e Marco Antônio; Denilson e Didi; Cafuringa e quem mais? Sumiram o centroavante, o ponta de lança e o ponta-esquerda.

No Corinthians, várias falhas: Ado; Zé Maria, Ditão, Luiz Carlos; Tião e Rivelino; Vaguinho. Tinha o Mirandinha? Ou o Samarone?

E o do Flamengo? Renato; Moreira, Reyes e Vanderlei (sim, o Luxemburgo!); Liminha e Zé Mário; Rogério, Caio, Doval e Paulo Cézar. Caramba! Alegrou-se. Só faltava o beque central!

Tentou, esforçou-se, mas não conseguia recordar o zagueiro ausente.

Recusou-se a ir ao Google.

Tinha que lembrar.

Mas desistiu.

Esses são os times que ficaram na memória, pensou. Ou que reapareceram, vai saber lá por quê. É o que vale, sem retoques.

Até porque, quando estava debruçado sobre o Estrelão, décadas atrás, não conseguia imaginar nada de como seriam esses times tantos anos depois.

Nem poderia inventá-los ou consultar algum oráculo.

Tinha apenas a certeza de que ele estaria, de titular, em qualquer um deles e na Seleção, fazendo jogadas sensacionais e os gols dos títulos.

Confortou-se com a ideia de que errava muito menos ao se lembrar do passado do que quando, criança, imaginava o futuro.

Conformado, resolveu parar de pensar naquilo.

Havia questões presentes mais importantes e urgentes: trabalho, família, compromissos… Chiquinho! Era esse o zagueiro! Chiquinho!

Pulou, bateu palmas, gritou, repetiu: Chiquinho! Chiquinho!

Agora, sim, estava realizado.

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Luiz Guilherme Piva publicou "Eram todos camisa dez" e "A vida pela bola" – ambos pela Editora Iluminuras

Sobre o Autor

Juca Kfouri é formado em Ciências Sociais pela USP. Diretor das revistas Placar (de 1979 a 1995) e da Playboy (1991 a 1994). Comentarista esportivo do SBT (de 1984 a 1987) e da Rede Globo (de 1988 a 1994). Participou do programa Cartão Verde, da Rede Cultura, entre 1995 e 2000 e apresentou o Bola na Rede, na RedeTV, entre 2000 e 2002. Voltou ao Cartão Verde em 2003, onde ficou até 2005. Apresentou o programa de entrevistas na rede CNT, Juca Kfouri ao vivo, entre 1996 e 1999 e foi colaborador da ESPN-Brasil entre 2005 e 2019. Colunista de futebol de “O Globo” entre 1989 e 1991 e apresentador, de 2000 até 2010, do programa CBN EC, na rede CBN de rádio. Foi colunista da Folha de S.Paulo entre 1995 e 1999, quando foi para o diário Lance!, onde ficou até voltar, em 2005, para a Folha, onde permanece com sua coluna três vezes por semana. Apresenta, também, o programa Entre Vistas, na TVT, desde janeiro de 2018.

Colunas na Folha: https://blogdojuca.uol.com.br/lista-colunas-na-folha/

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