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Não podemos baixar a cabeça!

Juca Kfouri

11/11/2019 12h25

Por ROBERTO JARDIM*

Aqueles que querem que futebol e política não se misturem, jamais se importaram quando politicagem e futebol andaram juntos.

São os mesmos que se agora se calam diante de fatos como os que têm ocorrido na Europa, e não só lá.

Mais ainda, entre eles estão os que dizem "estranhar" e se "espantar" com essa crescente onda de intolerância que surge dentro e nos arredores dos estádios.

Como o fato mais recente, envolvendo o atacante Taison durante uma partida do Campeonato Ucraniano.

Ao ouvir ofensas racistas vindas da arquibancada onde estava a torcida adversária, o guri do bairro Navegantes, de Pelotas, reagiu. Acabou expulso, como se ele fosse o agressor, não a vítima.

Na nossa visão, meio míope talvez, existe uma grande diferença entre fazer política (isso nós fazemos todos os dias, em todas as relações) e fazer politicagem (usar alguma questão com fins eleitoreiros ou, como dizem no popular, politiqueiros).

A luta contra o racismo, homofobia, misoginia e outros preconceitos, e contra as injustiças etc. são atos politicamente legítimos.

Usar o racismo e outros preconceitos como forma de se aproveitar da insatisfação das pessoas é pura politicagem.

Pior ainda, é de uma rasteirice sem fim por abusar do preconceito e da desinformação com fins específicos, e nada republicanos. E é isso que vem acontecendo mundo afora.

A crescente onde de intolerância nos estádios tem um forte conteúdo politiqueiro nesse sentido.

São movimentos, acima de tudo, nacionalistas, de extrema e ultradireita, fascistas e neonazistas que têm tomado de assalto arquibancadas e arredores, mostrando suas caras e dizendo a quem está ali ou vendo pela TV: "nós não temos medo de mostrar como pensamos".

O velho discurso de um inimigo em comum voltou. Assim como a utilização do medo e da intimidação para ganhar cada vez mais espaço.

Esse inimigo em comum já foi o povo judeu. Assim como já teve outras etnias como alvo. Hoje são os negros, os refugiados e os estrangeiros em geral.

Se conseguirem avançar, tomando poder, assumindo governos a partir de eleições democráticas, usarão essa legitimidade para aumentar a perseguição a quem não tem a mesma cor, a quem não nasceu no mesmo país, a quem não pensa igual, a quem não tem a mesma religião e por aí vai.

E depois disso, o que mais farão? Certamente seguirão passos do passado, usando uma guerra aqui, outra ali, para justificar o injustificável.

Até porque, o que prometem não será entregue. A insatisfação dos insatisfeitos não diminuirá num passo de mágica. Não dessa forma.

Estamos vendo, enfim, a intolerância ganhando cada vez mais espaço. Não podemos aceitar calados esse avanço.

A sociedade precisa reagir.

Afinal, como escreveu o Taison, nas suas redes sociais, na sociedade em que vivemos, não basta não sermos racistas (eu acrescentaria não sermos machistas, homofóbicos, misóginos, fascistas etc.), precisamos ser antirracistas (antimachistas, anti-homofíbicos, antimisóginos, antifascistas etc.).

Sendo assim, reações como a do guri de Pelotas, ou como as da torcida do Celtic e do francês Olivier Ntcham, ao marcar um gol na Lazio — clube intimamente ligado ao fascismo italiano — não se intimidando com os ultras são cada vez mais necessárias.

Não podemos baixar a cabeça. Isso é tudo que eles querem!

*Roberto Jardim é jornalista, dublê de escritor e pai da Antônia. Tudo isso ao mesmo tempo, não necessariamente nessa ordem.

Sobre o Autor

Juca Kfouri é formado em Ciências Sociais pela USP. Diretor das revistas Placar (de 1979 a 1995) e da Playboy (1991 a 1994). Comentarista esportivo do SBT (de 1984 a 1987) e da Rede Globo (de 1988 a 1994). Participou do programa Cartão Verde, da Rede Cultura, entre 1995 e 2000 e apresentou o Bola na Rede, na RedeTV, entre 2000 e 2002. Voltou ao Cartão Verde em 2003, onde ficou até 2005. Apresentou o programa de entrevistas na rede CNT, Juca Kfouri ao vivo, entre 1996 e 1999 e foi colaborador da ESPN-Brasil entre 2005 e 2019. Colunista de futebol de “O Globo” entre 1989 e 1991 e apresentador, de 2000 até 2010, do programa CBN EC, na rede CBN de rádio. Foi colunista da Folha de S.Paulo entre 1995 e 1999, quando foi para o diário Lance!, onde ficou até voltar, em 2005, para a Folha, onde permanece com sua coluna três vezes por semana. Apresenta, também, o programa Entre Vistas, na TVT, desde janeiro de 2018.

Colunas na Folha: https://blogdojuca.uol.com.br/lista-colunas-na-folha/

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