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Yashin, 90

Juca Kfouri

21/10/2019 15h04

Por ROBERTO VIEIRA*

A Copa de 1962 foi sombria. Na volta para casa, as janelas do apartamento estão quebradas, destruídas pelas pedras dos torcedores. Como na guerra, como nos dias de criança. Yashin olhou para os cacos de vidro no chão e pensou em desistir. Ainda mais quando nos primeiros jogos após a Copa, a multidão vaiou o goleiro todas as vezes que ele ousou fazer uma defesa. O futebol já não era uma alegria para Yashin, como nos dias em que o pequeno leão enxergava a dor nos lábios de Ana.

Havia apenas uma sopa quente de nada para jantar após o trabalho na fábrica de armamentos. Daí essa dor insana e eterna no estômago. A dor da fome de criança. Tudo muito parecido também com a depressão na adolescência. Quando as defesas no hóquei e no futebol já não traziam nenhuma alegria. Quando Yashin pensou em desistir de tudo e de todos.

Valentina abraça o marido. Yashin defende cinco pênaltis em sequencia no campeonato soviético. As vaias se transformando em silencio. O som da coleção de jazz que ele insiste em aumentar nas viagens ao exterior e no contrabando voltando a preencher o apartamento. Bem baixinho pra KGB não reclamar.

O telegrama chega na noite. Fernando Riera, técnico do Chile e responsável pela convocação da seleção da FIFA que enfrentará a Inglaterra em Wembley deseja Yashin na equipe.

O algoz sabe que Yashin não tem culpa pela derrota na cidade da eterna primavera.

Noites sem dormir. Yashin vira e se revira na cama insone com as defesas que não consegue fazer. Wembley é uma Rússia imensa e invernal. O que pode acontecer se falhar novamente contra os ingleses? Sibéria?

Yashin beija Valentina e viaja para Londres. O uniforme azul escuro que muitos julgam negro fica em casa. O Aranha Negra jogará com as cores inusitadas da década de 60. Camisa amarela, calção marrom, joelheiras claras e meias azuis e brancas. Um metro e noventa de simpatia ao lado de Djalma Santos, Masopust, Dennis Law, Kopa, Eusébio e Di Stefano.

A zaga é tcheca com exceção do imortal Djalma Santos. Mas essa defesa vira time de criança diante do ataque inglês disposto a provar que a Inglaterra ainda sabe jogar bola.

E tudo poderia ter se transformado em desastre com um minuto de jogo, segundo palavras do próprio Yashin na volta pra casa, conversando com Valentina. O cruzamento rasteiro encontra o grande Greaves na pequena área e ele chuta forte, indefensável. Mas Yashin defende com o peito e calma que desarmam o estádio.

As bolas chegam e Yashin vai defendendo impiedoso, Outra bomba de Greaves aos quinze, Smith cabeceia cara a cara com o gol, depois chuta de dentro da área, nova chance de Greaves, e nada de gol. Por cima, Yashin reina soberano. Por baixo, inexpugnável. O arqueiro Banks do outro lado do campo também faz belas defesas, mas os olhos não se cansam de observar que do lado da FIFA habita um ser de outro planeta.

Intervalo. 0x0. Riera faz a troca. Yashin sai para a entrada do goleiro Soskic, da antiga Iugoslávia. A troca é fatal. Soskic treme ao substituir o ser de outro planeta. Quase entrega o ouro na primeira bola, leva dois gols, o último largando a pelota aos pés de Greaves no fim do jogo.

Festa em Londres. Yashin pega o longo vôo para casa. É recebido com festa, aplausos, flores. O Dínamo é campeão novamente. Yashin leva apenas cinco gols em vinte e sete jogos. As imagens do Ocidente se misturam em sua mente. Mente que aprende como é frágil a mão que veste a luva e impede o gol. Mãos calejadas de fábrica, morte, chutes e dor.

No final de 1963, Yashin recebe o Ballon d'Or. Pela primeira, e única vez, um goleiro é escolhido como o melhor jogador do mundo.

Yashin recebe o prêmio com os olhos singelos do menino que dividia a pobreza de sua casa com os pais operários e um sem número de parentes. O menino que foi levado em fuga para o Volga diante da chegada dos nazistas. O goleiro que entrou para o exército para superar a depressão.

Em todos esses momentos, sob vaias, aplausos, incompreensão, delírios, Yashin continuou o mesmo cavalheiro de gestos simples, educados e desportivos. O jogador que fazia milagres e no momento seguinte ajudava um atleta machucado, caído a seus pés. O pai que brincava de Sputnik com as filhas. O homem abraçado a perna que já não existia, fumando intermináveis cigarros na estepe do pensamento. Ana presente em cada prato decente de comida vida afora.

Yashin que inventou o que aprendemos a chamar de goleiro, indo muito além de Grosics, Planicka e Zamora.

Sempre com a grandeza e a simplicidade dos que são imensos, muito maiores que a própria história.

Muito maiores que as pedras jogadas naquele verão de 62.

*Lev Yashin completaria 90 anos amanhã.

Sobre o Autor

Juca Kfouri é formado em Ciências Sociais pela USP. Diretor das revistas Placar (de 1979 a 1995) e da Playboy (1991 a 1994). Comentarista esportivo do SBT (de 1984 a 1987) e da Rede Globo (de 1988 a 1994). Participou do programa Cartão Verde, da Rede Cultura, entre 1995 e 2000 e apresentou o Bola na Rede, na RedeTV, entre 2000 e 2002. Voltou ao Cartão Verde em 2003, onde ficou até 2005. Apresentou o programa de entrevistas na rede CNT, Juca Kfouri ao vivo, entre 1996 e 1999 e foi colaborador da ESPN-Brasil entre 2005 e 2019. Colunista de futebol de “O Globo” entre 1989 e 1991 e apresentador, de 2000 até 2010, do programa CBN EC, na rede CBN de rádio. Foi colunista da Folha de S.Paulo entre 1995 e 1999, quando foi para o diário Lance!, onde ficou até voltar, em 2005, para a Folha, onde permanece com sua coluna três vezes por semana. Apresenta, também, o programa Entre Vistas, na TVT, desde janeiro de 2018.

Colunas na Folha: https://blogdojuca.uol.com.br/lista-colunas-na-folha/

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