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Lição de casa

Juca Kfouri

15/10/2019 19h00

POR LUIZ GUILHERME PIVA

Para o Luiz Tatit.

Resolveram inverter, só pra festejar: no intervalo, a meninada ficou em volta, de pé, nas escadas, nas janelas das salas de aula, e os professores foram jogar na quadra de areia.

Todos: o de português, a de matemática, a supervisora, o coordenador, o de estudos sociais, a de moral e cívica, a de inglês, os de educação física (um em cada gol, pra não desequilibrar), a de ciências, o de redação, e até a diretora.

Alguns já eram de idade, outros com certo sobrepeso, muitos de óculos, total inabilidade de vários, poucos com certo pendor – mas se divertiam. Mais ainda a meninada: riam, gritavam, batiam palmas, incentivavam, zoavam os erros.

Era calor. Era sol. Era areia.

Era a bola sem controle.

E nada de gol.

Até que a professora de moral e cívica tocou sem querer de canela perto de seu goleiro, mas ele, distraído, bebia água fora das traves.

Entrou. Gol contra.

A vibração entre os alunos foi imensa.

Mas ela não gostou. Partiu pra cima do goleiro. Já de idade, gordinha, contra o jovem professor de ginástica. Começou a lhe dar tapas, ele se esquivava, protegia o rosto, achava que era brincadeira.

Mas não. Ela começou a xingar nomes que calaram todo o colégio.

Nomes horríveis.

Professores e alunos se olhando.

Os palavrões carimbavam as paredes, as portas, as janelas, as pilastras, reverberavam no calor, no sol, na areia.

Ela mordia os lábios de raiva.

Ele se encolhia.

Foi preciso a diretora puxá-la, acalmá-la, dar-lhe água.

Ela respirou um pouco e disse: "Vamos pro jogo!".

Mas o goleiro não topou. Começou um discurso sobre a falta de esportividade e a necessidade de fair play.

Ela se encheu, foi pra cima dele de novo e deu-lhe um sopapo que ele não conseguiu evitar.

E, batendo na roupa, reafirmou: "Vamos pro jogo!".

Só que ninguém mais quis jogar.

Nem a meninada, assistir.

Foram todos pra cantina, pro lanche especial do Dia do Professor.

Menos ela, que se sentou sozinha na escada, repetindo baixinho todos os palavrões.

Acabou o sol, o calor, a poeira baixou.

A bola, lá no fundo da quadra, bem no cantinho, parecia um ponto final.

Como este:.

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Luiz Guilherme Piva publicou, pela Editora Iluminuras, "Eram todos camisa dez" e "A vida pela bola" – este último é semifinalista do Prêmio Jabuti 2019

Sobre o Autor

Juca Kfouri é formado em Ciências Sociais pela USP. Diretor das revistas Placar (de 1979 a 1995) e da Playboy (1991 a 1994). Comentarista esportivo do SBT (de 1984 a 1987) e da Rede Globo (de 1988 a 1994). Participou do programa Cartão Verde, da Rede Cultura, entre 1995 e 2000 e apresentou o Bola na Rede, na RedeTV, entre 2000 e 2002. Voltou ao Cartão Verde em 2003, onde ficou até 2005. Apresentou o programa de entrevistas na rede CNT, Juca Kfouri ao vivo, entre 1996 e 1999 e foi colaborador da ESPN-Brasil entre 2005 e 2019. Colunista de futebol de “O Globo” entre 1989 e 1991 e apresentador, de 2000 até 2010, do programa CBN EC, na rede CBN de rádio. Foi colunista da Folha de S.Paulo entre 1995 e 1999, quando foi para o diário Lance!, onde ficou até voltar, em 2005, para a Folha, onde permanece com sua coluna três vezes por semana. Apresenta, também, o programa Entre Vistas, na TVT, desde janeiro de 2018.

Colunas na Folha: https://blogdojuca.uol.com.br/lista-colunas-na-folha/

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