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Aquele lá

Juca Kfouri

04/10/2019 18h02

POR LUIZ GUILHERME PIVA

– É esse! É esse!

Ninguém o conhecia. Aparecera de repente.

Fracote, esganiçado, toda hora puxava o grito. E não era só contra o jogador adversário que tivesse feito uma falta feia. Bastava ele cismar com um e pronto, perseguia o coitado (sempre do time visitante) o jogo todo.

Campo pequeno, só um alambradozinho separando torcedores e jogadores, ele incomodava.

Chegava a juntar o arame com as duas mãos e abria a goela, vermelho, o cabelo desgrenhado, berrando:

– É esse! É eeesse!! É eeeeeeeesse!!!!!

Baixinho, às vezes subia com os dois pés nos buracos de baixo, segurando nos buracos de cima, e esbofeteava com os gritos o sol e o calor.

Chegava a tossir, as veias tensas, tremia a voz, mas não parava.

O jogador alvo dos berros, obviamente, não conseguia jogar.

No intervalo, parecia outro. Passava o pente no cabelo, batia as calças largas, ia devagar até o vendedor de laranja, conversava mansamente, fumava com a mão no bolso e olhando um ponto no céu quando soltava a fumaça com as pálpebras semicerradas.

Voltava e, se o jogador perseguido não tivesse sido trocado por outro, mantinha a histeria.

Para sossego geral, o técnico, mais cedo ou mais tarde, acabava colocando o reserva.

Isso foi uns três jogos.

Perderam a paciência com ele. Os guardas vieram puxá-lo. Arrancaram-no com dificuldade do alambrado, chegaram a dar uns cutucões com o cassetete, puseram-no na rua.

E o proibiram de voltar.

Mas aí a torcida tinha pegado gosto.

Todo jogo, às dezenas, fazia o mesmo espetáculo, e ainda batia o tarol e o bumbo junto com os gritos.

A maioria dos jogadores escolhidos para a pilhéria pedia pra sair.

Só que, em lugar de sossegar, como fazia o criador do espetáculo, a torcida pegava outro pra Cristo.

Com mais uns três domingos, não teve mais jogo nem campeonato; nenhum time visitante queria vir.

Hoje, solitário, ele anda vagaroso nas ruas do bairro escondido onde mora, mãos nos bolsos, observado por alguns que ainda se lembram da história.

Quando vê que o estão apontando, tira o cigarro, olha pro céu, aperta os olhos e solta a fumaça devagar, filosófico.

Às vezes, até faz umas argolinhas.

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Luiz Guilherme Piva publicou "Eram todos camisa dez" e "A vida pela bola" – ambos pela Editora Iluminuras, este último selecionado como semifinalista do Prêmio Jabuti.

Sobre o Autor

Juca Kfouri é formado em Ciências Sociais pela USP. Diretor das revistas Placar (de 1979 a 1995) e da Playboy (1991 a 1994). Comentarista esportivo do SBT (de 1984 a 1987) e da Rede Globo (de 1988 a 1994). Participou do programa Cartão Verde, da Rede Cultura, entre 1995 e 2000 e apresentou o Bola na Rede, na RedeTV, entre 2000 e 2002. Voltou ao Cartão Verde em 2003, onde ficou até 2005. Apresentou o programa de entrevistas na rede CNT, Juca Kfouri ao vivo, entre 1996 e 1999 e foi colaborador da ESPN-Brasil entre 2005 e 2019. Colunista de futebol de “O Globo” entre 1989 e 1991 e apresentador, de 2000 até 2010, do programa CBN EC, na rede CBN de rádio. Foi colunista da Folha de S.Paulo entre 1995 e 1999, quando foi para o diário Lance!, onde ficou até voltar, em 2005, para a Folha, onde permanece com sua coluna três vezes por semana. Apresenta, também, o programa Entre Vistas, na TVT, desde janeiro de 2018.

Colunas na Folha: https://blogdojuca.uol.com.br/lista-colunas-na-folha/

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