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Um Flamengo para chamar de seu

Juca Kfouri

10/09/2019 01h44

Por FRED SOARES*

Afora o caos político sofrido na pele por cada um dos cidadãos cariocas – independentemente da condição social -, o Rio de Janeiro ainda oferece histórias e situações dignas do tradicional DNA bem-humorado da cidade.

Historiadores, sociólogos e intelectuais afins estão diante de um case daqueles de encher os olhos e que, portanto, merecia uma apurada observação sob a perspectiva do registro para a posteridade.

Explico: enorme parcela do lado rubro-negro da Guanabara demonstra estar diante da maior perspectiva de êxtase pela qual jamais passou. 

Jovens torcedores na casa dos 25, 30 anos (ou menos) cresceram ouvindo de seus pais e avós todas as histórias envolvendo o esquadrão liderado por Zico.

É bem capaz de que muitos dos que vivenciaram aquela Era até tenham exagerado nos relatos com o legítimo objetivo de criar na mente de seus herdeiros a mística que está absolutamente associada à história do clube.

O resultado de tudo isso foi que, apesar de algumas conquistas nacionais e uma internacional em todo este período, essa geração mais nova nunca esteve plenamente satisfeita.

Faltava-lhe um time que pudesse chamar de seu.

Uma equipe que, além da conquista, proporcionasse o encanto que servisse de catalisador para a manifestação plena do jeito rubro-negro de ser.

A primeira parte deste filme – que pode se transformar num épico – está em pleno andamento.

Tudo graças a, quem diria, um português.

Alguém que naturalmente pela sua nacionalidade teria uma relação com um dos rivais do Flamengo foi o indutor de uma forma de jogar que, sem dúvida, não se vê desde 1987, ano da última conquista nacional de Zico com a sua segunda pele.

Jorge Jesus, para muitos, é um revolucionário.

Mas, a rigor, faz o que se espera de qualquer  treinador minimamente competente: fazer valer ao máximo o talento individual dos atletas a partir de um plano de jogo coletivo bem articulado e competitivo.

Houve quem desdenhasse da chegada do português.

Desde torcedores, profissionais do futebol e até mesmo jornalistas.

Estes últimos, inclusive, com um agravante:  assumiram a condição de porta-vozes de um movimento de reserva de mercado que visa a manter incólumes treinadores que se entregaram à zona de conforto e que, por tabela, arrastam o futebol brasileiro no mesmo caminho.

Depois de um começo um tanto turbulento (algo natural dentro de um processo de reinício de trabalho), o Flamengo de Jorge Jesus deu liga.

Ultrapassou etapas na Copa Libertadores, obteve resultados que levaram o Flamengo à ponta da Série A, mas tudo isso sob o signo de uma arte que parecia esquecida no fundo de alguma gaveta: a arte de bem jogar o futebol.

Algo tão intrínseco ao futebol brasileiro que chega a surpreender a reação de alguns que aponta  tal performance como algo que represente uma novidade.

A conseqüência disso é um sentimento a que há algumas décadas o Rio de Janeiro não assistia.

Nos últimos dois meses, cresceu absurdamente o número de camisas do Flamengo passeando pelas ruas da cidade (não foi à toa que uma carga solicitada de 200 mil exemplares foi rapidamente esgotada, a ponto de o clube solicitar uma nova leva de 400 mil uniformes).  

Lotar o Maracanã virou uma rotina que nem no tempo de Zico era corriqueira, ainda mais num estádio onde cabiam 200 mil torcedores.

Até no mundo virtual,  o boom se manifesta.

O rubro-negro lidera o número de menções no Twitter, deixando para trás potências europeias como Manchester United, Barcelona, Real Madrid e Juventus.

São elementos mais do que suficientes para justificar este ambiente de euforia; no entanto, falamos de esporte, um mundo em que tudo pode acontecer. Até o triunfo máximo.

Cabe ao clube manter o equilíbrio, o chamado gelo no sangue; e ao torcedor manter acesa essa luz que pode acabar por proporcionar o mais iluminado ano rubro-negro depois de 1981, o que vai permitir o surgimento de uma nova geração de filhos e netos flamenguistas.

*Fred Soares é jornalista.

Sobre o Autor

Juca Kfouri é formado em Ciências Sociais pela USP. Diretor das revistas Placar (de 1979 a 1995) e da Playboy (1991 a 1994). Comentarista esportivo do SBT (de 1984 a 1987) e da Rede Globo (de 1988 a 1994). Participou do programa Cartão Verde, da Rede Cultura, entre 1995 e 2000 e apresentou o Bola na Rede, na RedeTV, entre 2000 e 2002. Voltou ao Cartão Verde em 2003, onde ficou até 2005. Apresentou o programa de entrevistas na rede CNT, Juca Kfouri ao vivo, entre 1996 e 1999 e foi colaborador da ESPN-Brasil entre 2005 e 2019. Colunista de futebol de “O Globo” entre 1989 e 1991 e apresentador, de 2000 até 2010, do programa CBN EC, na rede CBN de rádio. Foi colunista da Folha de S.Paulo entre 1995 e 1999, quando foi para o diário Lance!, onde ficou até voltar, em 2005, para a Folha, onde permanece com sua coluna três vezes por semana. Apresenta, também, o programa Entre Vistas, na TVT, desde janeiro de 2018.

Colunas na Folha: https://blogdojuca.uol.com.br/lista-colunas-na-folha/

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