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Jogar bem está virando moda

Juca Kfouri

19/09/2019 13h51

Por FRED SOARES*

O futebol brasileiro foi, durante décadas, sinônimo de arte, criatividade, ousadia e encanto. Paradoxalmente, ao mesmo tempo, o torcedor sempre se mostrou adepto da política de resultados. Sempre foi corriqueiro, num périplo pelos botecos em cada segunda-feira pós rodada, ouvir uma frase que sempre machucou pelo menos os meus ouvidos: "prefiro ganhar mesmo jogando feio".

Curiosamente, porém, este 2019 nos indica que este panorama apresenta indícios de uma saudável mudança. Fenômenos como o Flamengo de Jorge Jesus, o Santos de Sampaoli e o Grêmio de Renato Gaúcho começam a fazer os adeptos do futebol refletirem se faz realmente sentido a frase do treinador português no seu dia de apresentação no clube carioca: "ganhar só não chega".

O espetáculo proporcionado por estas equipes ajudam nesse processo de reavaliação do sentido do jogo, mas não é só isso. A enxurrada de grandes equipes nas TVs por assinatura que exibem a maioria dos campeonatos internacionais e análises mais apuradas nas redes sociais (em contrapartida ao que se vê em muitos programas de TV) podem ser consideradas catalizadores desse processo de mudança de consciência e, por que não dizer, de paradigma.

Numa analogia bem exagerada, é como se aquele casal que há anos se satisfaz com o sexo "papai-mamãe" passe a se deslumbrar ao conhecer as maravilhosas possibilidades das fantasias eróticas, que permitem sair da mesmice que leva a uma irritante rotina.

Querem um exemplo que evidencia isso? A contratação de Mano Menezes pelo Palmeiras. Seria muita ingenuidade achar que a inicial rejeição do torcedor alviverde foi motivada pelo simples fato de o treinador ter trabalhado no rival Corinthians.

Com todo potencial financeiro da equipe e, ao mesmo tempo, percebendo outros times apresentando um futebol em alto nível, esse foi o recado à diretoria de que o palmeirense exige um alto nível de desempenho. Ou seja, o sexo trivial foi o suficiente para conquistar títulos domésticos, mas, para vôos mais altos, há de se apimentar a relação.

Algo parecido acontece com o torcedor corintiano. As taças obtidas por conta de um futebol pragmático trouxeram a sensação de dever cumprido, mas faltou o encantamento. Aliás, falta. Os milhões de loucos já percebem a ausência de um algo a mais nas vitórias sem viço desta temporada.

Em Porto Alegre, há quem já torça o nariz para Odair Hellmann. Assim como o colega gremista, ele põe o Campeonato Brasileiro em segundo plano. Mas incomoda profundamente o torcedor colorado a forma pragmática e pouco audaciosa da equipe em partidas fora de casa, postura contrária ao de seu rival portoalegrense.

No mercado da bola, o fenômeno já causa reações. Treinadores, que há duas décadas ou mais promovem uma verdadeira dança das cadeiras nos clubes brasileiros, ligaram o sinal de alerta para a possível conseqüência do sucesso de Jesus e de Sampaoli. Eles sabem que o bom trabalho dos gringos pode levar à abertura dos portos a novos "professores" de outros cantos do mundo, o que representaria uma bala certeira no coração daquilo que eles tanto defendem: uma interessante, para eles, reserva de mercado.

Muitos podem não notar ainda. Mas é bem possível que neste 2019 sejamos personagens de um momento de mudança, até mesmo histórico, do futebol brasileiro. O momento em que uma nova consciência das arquibancadas pode levar à retomada de raízes que criou a mística do nosso esporte predileto.

*Fred Soares é jornalista.

Sobre o Autor

Juca Kfouri é formado em Ciências Sociais pela USP. Diretor das revistas Placar (de 1979 a 1995) e da Playboy (1991 a 1994). Comentarista esportivo do SBT (de 1984 a 1987) e da Rede Globo (de 1988 a 1994). Participou do programa Cartão Verde, da Rede Cultura, entre 1995 e 2000 e apresentou o Bola na Rede, na RedeTV, entre 2000 e 2002. Voltou ao Cartão Verde em 2003, onde ficou até 2005. Apresentou o programa de entrevistas na rede CNT, Juca Kfouri ao vivo, entre 1996 e 1999 e foi colaborador da ESPN-Brasil entre 2005 e 2019. Colunista de futebol de “O Globo” entre 1989 e 1991 e apresentador, de 2000 até 2010, do programa CBN EC, na rede CBN de rádio. Foi colunista da Folha de S.Paulo entre 1995 e 1999, quando foi para o diário Lance!, onde ficou até voltar, em 2005, para a Folha, onde permanece com sua coluna três vezes por semana. Apresenta, também, o programa Entre Vistas, na TVT, desde janeiro de 2018.

Colunas na Folha: https://blogdojuca.uol.com.br/lista-colunas-na-folha/

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