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Blog do Juca Kfouri

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Juca Kfouri

18/09/2019 14h30

Por MARCO SIRANGELO

Os estádios representam um componente essencial ao ambiente do futebol. Além de receberem as partidas, esses locais também estão frequentemente associados com as diferentes identidades e ao senso de comunidade que são carregados pelos clubes e seus torcedores. A partir do aumento da atividade econômica relacionada ao esporte, fenômeno que iniciou fortemente a partir dos anos de 1990, os estádios, que antigamente priorizavam apenas a execução de jogos de futebol, tornaram-se importantes ferramentas comerciais com amplo impacto na estrutura financeira dos clubes.

Desta maneira, motivados principalmente pela possibilidade de aumento em suas receitas, diversos clubes de futebol ao redor do mundo decidiram por reformar, expandir ou construir novos estádios. Recentemente, apenas na Europa, Real Madrid, Chelsea, Roma e Barcelona anunciaram planos de modificação de seus atuais campos, enquanto outros clubes, como Atlético de Madrid, Tottenham e Juventus, já implantaram esta estratégia. No Brasil, após o período estimulado pela Copa do Mundo de 2014, projetos de novos campos estão nos planos de diversos clubes, tais como Flamengo, Santos, Atlético Mineiro e Ponte Preta.

Ruínas do antigo Olímpico Monumental (Edu Andrade/Folhapress)

A grande inspiração para a viabilidade desse modelo de negócio envolvendo clubes e construtoras vem dos Estados Unidos. Após recuperar-se da grave crise que atingiu o setor pós 2008, a indústria da construção civil norte americana está atualmente em ótima situação. Como consequência, diversas franquias esportivas aproveitaram para erguerem suas novas arenas. Somente nos últimos 10 anos, 5 mega-estádios para times da NFL foram construídos, enquanto a menos badalada, mas em franca ascensão, MLS recebeu nada menos do que 9 novos campos exclusivos para o soccer, em geral com capacidade média em torno de 20 mil espectadores.

Diretora do grupo que leva seu nome, Erleen Hatfield foi a engenheira responsável pelo Mercedes-Benz Stadium, casa do último Super Bowl e com custo estimado em US$ 2 bilhões. Em seu painel durante a conferência de futebol realizada em fevereiro deste ano pela escola de administração da Universidade de Yale, Hartfield detalhou questões estruturais do novo estádio, como por exemplo o impressionante teto que abre em menos de 8 minutos e os desafios para encaixar o maior telão do mundo.

Ao mostrar seu portfólio, porém, a também professora da escola de arquitetura de Yale incluiu a Arena das Dunas, impressionante estádio construído para os jogos da Copa de 2014 em Natal, como exemplo de uma instalação provisória, uma vez que o projeto previa sua demolição pouco tempo após a realização do mundial de futebol. Para sua surpresa, o local ainda está de pé, recebendo jogos da Série D e eventos como o Parque Patati Patatá Circo Show e o Arraiá dos CDF´s, e sem que esta informação sobre sua demolição fosse bem difundida no Brasil.

Porém, os aspectos comerciais que envolvem o atual estádio mais moderno do mundo chamam bastante atenção. Um ano antes de sua inauguração, realizada em setembro de 2017 com a partida entre o Atlanta Falcons, dono da casa, e o Green Bay Packers, acordos de patrocínio no total de US$ 900 milhões já haviam sido firmados, incluindo a venda do nome para a montadora alemã. Além disso, uma série de medidas foram pensadas de forma a melhorar a experiência do torcedor. A principal delas foi a drástica redução nos preços cobrados por alimentos adquiridos dentro do estádio.

Diferentemente do que observamos na maioria dos eventos esportivos, comprar uma cerveja no Mercedes-Benz Stadium custa US$ 5,00, metade do preço do que é cobrado no tradicional Fenway Park, reduto do Boston Red Sox, por exemplo. Já o hot-dog e o refrigerante saem por US$ 2,00 cada, quatro vezes menos do que existe no Metlife Stadium, em Nova York. Como resultado, de acordo com Hatfield, de 2017 para cá, houve um aumento de 10% no público que chega assim que os portões abrem, além de um aumento de 16% no gasto médio por torcedor em relação ao período do antigo Georgia Dome, que deu lugar ao novo estádio.

"O coração de Atlanta" (Michael Robinson)

Diferentes fontes de receitas relacionadas com os estádios evoluíram através dos anos, partindo do faturamento obtido somente pela venda de bilhetes de jogos, até importantes quantias absorvidas através da venda de camarotes, concessões alimentícias e acordos de patrocínio, como os naming rights. O ponto crucial nesta estratégia de construção ou reconstrução de um estádio não está apenas na possibilidade de atrair um número maior de espectadores por partida (muitas vezes um local mais moderno não possui mais cadeiras disponíveis), mas em absorver de maneira efetiva o poder aquisitivo dos fãs por meio de modernas instalações e melhores experiências de compra.

Ou seja, adotando uma política de preços mais baixos, o Mercedes-Benz Stadium consegue manter os torcedores por mais tempo em suas dependências, além de obter um gasto médio por pessoa mais alto. É uma lógica contrária ao que nos acostumamos a ver nos novos estádios, afinal, quanto mais moderno o espaço, mais consumidores estão dispostos a pagar mais caro — é o valor percebido. É boa notícia, portanto, saber que um estádio bilionário como esse tenha sido concebido com foco em agradar cada vez mais seus visitantes, e não somente em (quase) extorqui-los.

É certo que há uma conta alta a ser paga pelos clubes que desejam contar com um estádio mais moderno, mas também é necessário levar em consideração que seus consumidores possuem uma relação de afeto e pertencimento com o local. De modo a resolver essa difícil equação, é fundamental entender que há muito mais coisas em um campo de futebol além dos frios blocos de concreto que o cercam.

Sobre o Autor

Juca Kfouri é formado em Ciências Sociais pela USP. Diretor das revistas Placar (de 1979 a 1995) e da Playboy (1991 a 1994). Comentarista esportivo do SBT (de 1984 a 1987) e da Rede Globo (de 1988 a 1994). Participou do programa Cartão Verde, da Rede Cultura, entre 1995 e 2000 e apresentou o Bola na Rede, na RedeTV, entre 2000 e 2002. Voltou ao Cartão Verde em 2003, onde ficou até 2005. Apresentou o programa de entrevistas na rede CNT, Juca Kfouri ao vivo, entre 1996 e 1999 e foi colaborador da ESPN-Brasil entre 2005 e 2019. Colunista de futebol de “O Globo” entre 1989 e 1991 e apresentador, de 2000 até 2010, do programa CBN EC, na rede CBN de rádio. Foi colunista da Folha de S.Paulo entre 1995 e 1999, quando foi para o diário Lance!, onde ficou até voltar, em 2005, para a Folha, onde permanece com sua coluna três vezes por semana. Apresenta, também, o programa Entre Vistas, na TVT, desde janeiro de 2018.

Colunas na Folha: https://blogdojuca.uol.com.br/lista-colunas-na-folha/

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