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Djalma, o goleiro do Náutico que estava com Jefferson

Juca Kfouri

09/09/2019 14h00

DJALMA CHRISTIANO GOMES, O GOLEIRO E HERÓI ALVIRRUBRO CUJAS CINZAS ESTÃO ENTERRADAS NO GOL ONDE FORAM BATIDOS OS PÊNALTIS… e não venham me dizer que ontem ele não estava do lado de JEFFERSON

Por ROBERTO VIEIRA

O menino Djalma era um gigante. Djalma que nasceu na Capunga no dia 20 de dezembro de 1918. Mãos imensas onde desapareciam as bolas chutadas nas brincadeiras de infância. Mãos imensas que enfrentavam de peito aberto os sonhos de gols dos amigos no Colégio Carneiro Leão. Djalma agarrava tanto que o Fluminense da Capunga não perdeu tempo. E lá se foi Djalma defender o arco do tricolor suburbano.

Dividindo o tempo entreos estudos e a bola, Djalma veste as cores do América atuando algumas vezes pelo campeão do centenário. Mas a paixão de Djalma possuía outras cores. Em fins de 1937, Djalma realiza seu sonho de jogar pelo Clube Náutico Capibaribe, sendo campeão estadual pelo segundo quadro Timbu. Como o destino bate bola com só craques, foi apresença de Djalma que viria a garantir o segundo campeonato alvirrubro em 1939, ano do mais disputado de todos os certames da nossa história.

O Náutico tinha a geração Carvalheira no comando do ataque. Bermudes e Celso jogavam uma barbaridade. Edson e Célio garantiam equilíbrio defensivo. Mas tudo isso não era suficiente naquele ano terrível de 1939. O América tinha um esquadrão poderoso nos pés de Moacir. O Sport trazia o jovem azougue Ademir Menezes. O Santa Cruz era territóriodo infernal ataque com Jango e Tará, Sidinho e Siduca.

Como parar estas feras? Como deter a sanha goleadora de tantos artilheiros implacáveis?

A história registra a goleada do Santa Cruz sobre o América por 7×5. América que derrotara o Náutico por 3×1 dias antes. Com o Sport fora da disputa por pontos corridos, os tricolores jogavam a última partida diante do Náutico precisando apenas de um empate para faturar o segundo turno e provocar uma melhor-de-três. Já o Náutico, vencedor do primeiro turno, dependia de uma vitória pra botar a mão na taça.

O extraordinário Vicente, goleirão do Santa era só confiança. Tará dizia que desta vez o título era dele. Mas aquele Clássico das Emoções tinha destino marcado com as mãos imensas daquele menino chamado Djalma. O Náutico marcou com um potente chute de Ary. O Santa Cruz não acreditando na desvantagem no marcador, avançou com todas as forças para cima do alvirrubro. Tará, Ita, jango, Siduca chutaram milhares de vezes em gol. O menino Djalma voava, espalmava, defendia até pensamentos da cobra coral. O tempo parecia não ter fim no relógio da Lafayette.

Porém, o campo da Jaqueira lembra com saudade que as redes de Djalma permaneceram invictas naquela tarde. A bola se recusou a trair um dos maiores arqueiros da nossa história. Com a tranquilidade dos grandes da sua posição, o apito final do árbitro Palmeira encontrou nosso herói calmo debaixo das traves, observando Tará de joelhos diante do inevitável.

O futebol de Djalma ainda viveu muitas glórias. Ele foi escalado pelo técnico Pimenta como titular da seleção pernambucana que naquele ano chegou às semifinais do Brasileiro de Seleções. Djalma agarrou tanto que foi cobiçado pelo Fluminense e Botafogo do Rio.

No entanto, o coração de Djalma tinha dono e dona. Em 1941, o célebre arqueiro contrai matrimônio. O futebol é deixado de lado pela vida de homem casado e com responsabilidades de gente grande. Djalma se aposenta jovem do Náutico, mas carrega o amor pelo clube em seu coração por toda a vida.

Um a um, assiste seus velhos companheiros se despedindo dos campos dessa vida. Apenas ele, Djalma Christiano Cordeiro, permanece defendendo o arco da história alvirrubra. Passam os anos, os espingardinhas, os hexas, os jorges, os baianos, os bizus e kukis. Passam os bondes, as enchentes e até o antigo estádio dos Aflitos ameaça fechar.

Acontece que o tempo sempre marca seu gol. O menino Djalma acaba de se despedir da imensa grande área onde brilhou intensamente como filho, jogador, pai e avô. Djalma foi se encontrar, em agosto de 2012, aos 93 anos, com o esquadrão alvirrubro de 1939, além de com todos os adversários que aplaudiram seu talento e espírito desportivo.

Como momento mais comovente desta linda história, Djalma fez um pedido final. Seu último desejo foi ter suas cinzas espalhadas pelo velho estádio dos Aflitos.

Estádio que depois desse pedido, torna-se imortal.

Tive o prazer de entrevistar Mestre Djalma no seu depoimento para o livro 'Reis do Futebol em Pernambuco – Técnicos'. Fui apresentado a ele pelo Mestre Carlos Celso Cordeiro. Estas linhas foram escritas com um misto de respeito e saudade. Mestre Djalma reunia em seu espírito, todas as qualidades que se esperam de um grande atleta e de um grande homem. O seu pedido final, simboliza um amor e paixão pelo Clube Náutico Capibaribe que deveria ser compartilhado em toda sua grandeza por cada alvirrubro.

Pois o Náutico foi seu primeiro e definitivo amor…

Roberto Vieira e Djalma

Sobre o Autor

Juca Kfouri é formado em Ciências Sociais pela USP. Diretor das revistas Placar (de 1979 a 1995) e da Playboy (1991 a 1994). Comentarista esportivo do SBT (de 1984 a 1987) e da Rede Globo (de 1988 a 1994). Participou do programa Cartão Verde, da Rede Cultura, entre 1995 e 2000 e apresentou o Bola na Rede, na RedeTV, entre 2000 e 2002. Voltou ao Cartão Verde em 2003, onde ficou até 2005. Apresentou o programa de entrevistas na rede CNT, Juca Kfouri ao vivo, entre 1996 e 1999 e foi colaborador da ESPN-Brasil entre 2005 e 2019. Colunista de futebol de “O Globo” entre 1989 e 1991 e apresentador, de 2000 até 2010, do programa CBN EC, na rede CBN de rádio. Foi colunista da Folha de S.Paulo entre 1995 e 1999, quando foi para o diário Lance!, onde ficou até voltar, em 2005, para a Folha, onde permanece com sua coluna três vezes por semana. Apresenta, também, o programa Entre Vistas, na TVT, desde janeiro de 2018.

Colunas na Folha: https://blogdojuca.uol.com.br/lista-colunas-na-folha/

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