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Cássio é o melhor do Brasil; o resto é frango

Juca Kfouri

17/09/2019 17h00

Por ROBERTO SALIM*

"Se não tomasse gols como o que sofreu contra o Fluminense, com certeza Cássio não teria ganhado a Libertadores de 2012 – alguém aí se lembra da defesa contra o Vasco da Gama?"

Diante da repercussão do frango engolido pelo corintiano Cássio diante do Fluminense, resolvi entrevistar um dos maiores goleiros que conheci. Afinal, foi um chute despretensioso do Ganso, no meio do gol, sem muita força. O que levaria o goalkeeper alvinegro a tamanha falha?

Pensei muito antes de fazer a pesquisa.

Mas no fim disquei o número no telefone e falei comigo mesmo.

Ah, vocês não sabem?

Pois sim, eu fui um grande goleiro: embora tenha nascido no bairro das Perdizes, meu apelido era Pompeia (bairro vizinho na capital paulista). Mas o meu nome de futebolista não tinha nada a ver com o nome dos bairros, e sim com a semelhança de meu jogo com do goleiro do time do América do Rio de Janeiro.

Como Pompeia, eu também era voador.

Talvez um pouco menos do que ele, que saía em anúncios de aviação na capa da Revista do Esporte: "Voa Constellation" ‒ dizia o anúncio das companhias aéreas, com a foto do elástico Pompeia passando com seus braços o travessão do Maracanã.

Posto isso, devo dizer que na metade da década de 60 passei a ser conhecido como Aranha Negra, porque meu uniforme era semelhante ao do inigualável Lev Yashin, o maior guarda redes do planeta.

Tudo isso para dizer a mim mesmo, na entrevista, que:

"Minha gente, só os grandes goleiros comem frango!"

E Cássio, como maior goleiro do país, pode comer frango à hora que quiser.

Se fosse um goleiro comum, o corintiano teria sofrido o gol de Ganso e todos falariam numa falha dele. Perdeu o foco. Pensou em já sair jogando. Estava distraído.

Mas como é o maior goleiro deste país, ao lado do Vanderley, do Santos, e do Ivan, da Ponte Preta, o frango tomou essa proporção de frangaço, peru ou até mesmo um ganso.

Do alto de minha posição de Pompeia ou Aranha, quero dizer que em um amistoso no Pacaembu contra o Palmeiras, o próprio Yashin (se não estou enganado, em 1966) tomou um peruzaço. Foi apanhar a bola rasteira em pé num chute de Dudu, e ela entrou: foi ao fundo da rede cacarejando.

Naquele tempo, ninguém chamou o goleiro soviético de mão de alface.

O Pompeia também andou tomando seus frangos no Rio.

Assim como o maior de todos tinha seus momentos galináceos.

Sim, jovens das traves do meu Brasil, o grande Gylmar dos Santos Neves também foi chamado de frangueiro e levou uma traulitada defendendo o Corinthians: 7 a 3 para a Portuguesa. Depois, campeão do mundo em 1958, foi para o Santos e consolidou a carreira de um dos maiores guarda redes que o nosso país já viu.

Gylmar fazia diferença.

Frangava?

Frangava, mas fazia o impossível.

Esses são os goleiros que ficam na imaginação do torcedor e na história do esporte.

Vejam as imagens do jogo Brasil x Espanha da Copa do Mundo do Chile, de 1962. O Brasil perdia de 1 a 0, ele caído no chão após um cruzamento, o atacante espanhol chutou, Gylmar milagrosamente levantou os braços (como numa oração) e espalmou a bola para escanteio.

Milagre!

Como Marcão também fazia milagres, como Rogério Ceni fazia defesas fenomenais, como Vanderley, do Santos, faz defesas inacreditáveis e esse menino da Ponte Preta, Ivan, é capaz de intervenções espantosas.

Esses podem comer frango – sem exagero, comam com moderação –, porque a refeição galinácea faz parte da dieta futebolística.

Se não tomasse gols como o que sofreu contra o Fluminense, com certeza Cássio não teria ganhado a Libertadores de 2012 – alguém aí se lembra da defesa contra o Vasco da Gama?

"Frango é carimbo de competência no currículo de um goleiro fora de série", eu acrescentei essa frase na entrevista concedida a mim mesmo.

E para encerrar, perguntei se me lembrava de ter tomado algum frango.

E então, mineiramente, respondi:

"Você quer que eu responda como Pompeia ou como Aranha Negra?"

*Roberto Salim é um dos melhores jornalistas do Brasil. O resto é foca. Escreve para o ultrajano.com.br

Sobre o Autor

Juca Kfouri é formado em Ciências Sociais pela USP. Diretor das revistas Placar (de 1979 a 1995) e da Playboy (1991 a 1994). Comentarista esportivo do SBT (de 1984 a 1987) e da Rede Globo (de 1988 a 1994). Participou do programa Cartão Verde, da Rede Cultura, entre 1995 e 2000 e apresentou o Bola na Rede, na RedeTV, entre 2000 e 2002. Voltou ao Cartão Verde em 2003, onde ficou até 2005. Apresentou o programa de entrevistas na rede CNT, Juca Kfouri ao vivo, entre 1996 e 1999 e foi colaborador da ESPN-Brasil entre 2005 e 2019. Colunista de futebol de “O Globo” entre 1989 e 1991 e apresentador, de 2000 até 2010, do programa CBN EC, na rede CBN de rádio. Foi colunista da Folha de S.Paulo entre 1995 e 1999, quando foi para o diário Lance!, onde ficou até voltar, em 2005, para a Folha, onde permanece com sua coluna três vezes por semana. Apresenta, também, o programa Entre Vistas, na TVT, desde janeiro de 2018.

Colunas na Folha: https://blogdojuca.uol.com.br/lista-colunas-na-folha/

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