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Blog do Juca Kfouri

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Ajuste fiscal

Juca Kfouri

10/09/2019 19h00

POR LUIZ GUILHERME PIVA

Para o Caio

O time não tinha muita coisa; um campo com muro baixo em volta, guarita e bilheteria. Barracos no fundo como vestiário.

Os jogadores ganhavam uns trocados por partida.

Dava pra levar sem muitos gastos. Alguns lojistas se cotizavam e ajudavam o empresário dono do time e do campo.

Mas houve imprevistos: caiu o muro, causa trabalhista de três ex-jogadores, praga na grama, barracos destruídos pela chuva – o orçamento para arrumar tudo ficou alto.

E a liga regional ia começar.

Foram ao banco. Avalizaram. Prazo curto de vencimento. Contavam com os ingressos do torneio para saldar uma parte e depois refinanciar – o gerente era amigo, não haveria problema.

Mas não.

A bilheteria fraca não deu nem pro cheiro. O vencimento da promissória estava perto e começaram os telefonemas do gerente.

Prometeram.

Nada.

Venceu. Veio a cobrança.

Nada.

Com os juros, a dívida subia e os telefonemas se multiplicavam.

A ameaça era sobre todos eles, avalistas.

Pra piorar, o time só perdia. Estava em último lugar. Várias goleadas.

Marcaram a reunião. Tensa, fumaça de cigarro, lâmpada fraca pendurada, mosquitos, suores.

Perdiam a calma, gritavam, não havia o que fazer. Temiam pelos parcos ativos pessoais.

Só um deles mantinha a calma. Sentado no canto, rodava o chaveiro de alça de couro em torno do dedo pra frente e pra trás.

No auge da barulheira ele bateu a mão na mesa:

– Pessoal, tenho a solução!

O silêncio enrugou o ar.

Levantou-se.

– Vamos dispensar o Biriba!

Não sei direito o que houve depois. Dizem que todos o empurraram e quiseram bater nele. Ele garante que não, que saiu tranquilo, mas bravo com a ignorância dos demais por rejeitarem sua proposta.

O fato é que todos acabaram pegando dinheiro dos próprios bolsos e pagando em parcelas o empréstimo.

Ele sempre diz:

– Burrice, pessoal. Não precisava de nada disso.

Quando os outros retrucam "Mas o Biriba é o terceiro goleiro, ganha só 30 reais por jogo, e só quando joga!", ele dá de ombros.

– Ajuste é ajuste: tem que fazer, doa em quem doer!

Não adianta argumentar.

O Biriba, por sua vez, segue lá, firme, esperando a oportunidade de, depois de tantos anos, um dia, enfim, entrar em campo.

Teve um dia até que surgiu a chance, com o sumiço do titular e a contusão do reserva. Mas o dono, com medo, o convenceu a dar a vez ao Gigão: "Pois é, Biriba, faz tempo que você não joga, pode ser ruim pra você."

Ele concordou e ainda ficou em pé na lateral, incentivando.

O Gigão era o cabeça de área.

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Luiz Guilherme Piva publicou "Eram todos camisa dez" e "A vida pela bola" – ambos pela Editora Iluminuras

 

 

 

 

Sobre o Autor

Juca Kfouri é formado em Ciências Sociais pela USP. Diretor das revistas Placar (de 1979 a 1995) e da Playboy (1991 a 1994). Comentarista esportivo do SBT (de 1984 a 1987) e da Rede Globo (de 1988 a 1994). Participou do programa Cartão Verde, da Rede Cultura, entre 1995 e 2000 e apresentou o Bola na Rede, na RedeTV, entre 2000 e 2002. Voltou ao Cartão Verde em 2003, onde ficou até 2005. Apresentou o programa de entrevistas na rede CNT, Juca Kfouri ao vivo, entre 1996 e 1999 e foi colaborador da ESPN-Brasil entre 2005 e 2019. Colunista de futebol de “O Globo” entre 1989 e 1991 e apresentador, de 2000 até 2010, do programa CBN EC, na rede CBN de rádio. Foi colunista da Folha de S.Paulo entre 1995 e 1999, quando foi para o diário Lance!, onde ficou até voltar, em 2005, para a Folha, onde permanece com sua coluna três vezes por semana. Apresenta, também, o programa Entre Vistas, na TVT, desde janeiro de 2018.

Colunas na Folha: https://blogdojuca.uol.com.br/lista-colunas-na-folha/

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