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Poço sem fundo

Juca Kfouri

23/08/2019 17h40

POR LUIZ GUILHERME PIVA

Tinha um poço já abandonado ali perto, mas a boca sempre ficava tampada com madeirite velho.

Nesse dia, porém, a bola passou por cima do bambu da trave, bateu na parede do barraco e, manhosa como no golfe, rolou sobre o capim, sobre a terra, sobre as pedrinhas, até o buraco – e ele estava destampado.

A turma veio correndo procurá-la, mexeu nos arbustos, nos tijolos, atrás dos latões, até constatar a boca escura arregalada no chão.

Não dava pra ver nada lá dentro. Enfiaram uma vara de bambu bem comprida pra tentar achar o fundo e nada. Jogaram uma pedra aguardando o som da batida e ouviram um gongado chocho, distante.

Refizeram a geometria do chute, o ângulo da rebatida da parede do barraco, a trilhazinha no chão e não tiveram dúvida: era naquela caçapa mesmo.

O menor falou: "Vou descer lá!". Os demais se surpreenderam, ensaiaram desencorajá-lo, mas ninguém mais se ofereceu.

"Vou descendo com as costas numa parede e os pés na outra. Tranquilo."

E foi, devagar, as mãos, palmo a palmo, ao lado das costas, marcando a descida junto com os passos curtos diante dos olhos – enquanto conseguia vê-los.

Porque depois sumiu tudo. Nem ele se via nem o pessoal lá em cima, circundando o poço, o enxergava.

"E aí?" – perguntavam.

O eco subia primeiro

"Estou indo." – a resposta, segundos depois.

Mas nunca que acabava o poço.

As palmas e as solas já doíam.

Até as perguntas trazerem só o eco.

Ele também tentou se fazer ouvir, mas não conseguiu.

Tinha já planejado subir da mesma forma: a bola no colo, sentado no ar, mãos e pés escalando até a saída.

Mas já cansava. Hesitou entre seguir ou voltar.

"Desço e descanso, é melhor."

Respirou.

Lembrou-se do livro da Alice lido na escola.

Temeu chegar a um lugar tão estranho quanto o dela.

Mas ali era diferente: só a gosma gelada das paredes, o nada em cima e embaixo, tudo lento, vazio, sem sentido – e então sentiu a bola. Sentou-se em cima dela. Aprumou-se, o chão úmido, grudento. Abraçou-a, mas quase não a via.

Olhou para cima. Escuro. Gritou. Só sua própria voz – fina e agora trêmula – ricocheteando em zigue-zague até desaparecer.

Decidiu: "Vou subir".

Na mesma posição da descida, bola aninhada no colo, túnel acima.

Cansado, fraco, mas ia. Parava às vezes, encostava a cabeça na parede ou debruçava-se sobre a bola, e retomava.

Mas não chegava. Nunca.

Lá em cima os outros tinham medo de desistir e ir embora.

Pensaram em chamar os adultos das roças ali perto. Não viam ninguém. Um foi correndo até a estradinha pra tentar parar alguma charrete ou carro.

Gritavam às vezes.

Só o eco.

Já era noite.

Enfiaram de novo o bambu pra tentar tocá-lo, sem sucesso.

Jogaram pedrinhas e ouviram o mesmo barulho da primeira.

Sentaram-se ao redor das beiradas. Calados e desesperados.

O calor e o medo os derretiam.

Somente seus olhos e os mosquitos beliscavam a noite.

Nenhuma luz.

Só a lua.

Cheia, redonda, branca, o avesso da boca do poço, pendurada sozinha e imensa no meio do céu negro.

Até que um deles viu e apontou.

Era ele, miúdo, sentado no céu, com a lua cheia em seu colo.

Ele a abraçava, afagava, encostava nela a cabeça como num travesseiro – e parecia sorrir.

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Luiz Guilherme Piva publicou "Eram todos camisa dez" e "A vida pela bola" – ambos pela Editora Iluminuras

Sobre o Autor

Juca Kfouri é formado em Ciências Sociais pela USP. Diretor das revistas Placar (de 1979 a 1995) e da Playboy (1991 a 1994). Comentarista esportivo do SBT (de 1984 a 1987) e da Rede Globo (de 1988 a 1994). Participou do programa Cartão Verde, da Rede Cultura, entre 1995 e 2000 e apresentou o Bola na Rede, na RedeTV, entre 2000 e 2002. Voltou ao Cartão Verde em 2003, onde ficou até 2005. Apresentou o programa de entrevistas na rede CNT, Juca Kfouri ao vivo, entre 1996 e 1999 e foi colaborador da ESPN-Brasil entre 2005 e 2019. Colunista de futebol de “O Globo” entre 1989 e 1991 e apresentador, de 2000 até 2010, do programa CBN EC, na rede CBN de rádio. Foi colunista da Folha de S.Paulo entre 1995 e 1999, quando foi para o diário Lance!, onde ficou até voltar, em 2005, para a Folha, onde permanece com sua coluna três vezes por semana. Apresenta, também, o programa Entre Vistas, na TVT, desde janeiro de 2018.

Colunas na Folha: https://blogdojuca.uol.com.br/lista-colunas-na-folha/

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