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O espetáculo não pode parar?

Juca Kfouri

24/08/2019 17h26

POR ROBERTO JARDIM*

O WO do Figueirense ante o Cuiabá, pela 17ª rodada da Série B do Brasileirão, foi o assunto esportivo da semana. A greve dos jogadores, que se negaram a entra em campo no último dia 21, levando o time à derrota por 3 a 0, levanta pelo menos duas questões importantes. A primeira, claro, é a trabalhista. Afinal, todo trabalhador tem o direito de receber pelo fruto do seu suor. Devido à crise administrativa e financeira do Alvinegro – clube que tem a empresa Elephant como gestora do futebol –, os atletas não têm recebido salários e direitos de imagem – alguns há sete meses.

Arte: Daniel Kondo

Desde o começo do ano, o elenco vinha adiando gradualmente a radicalização do protesto, negociando e aguardando alguma resposta da diretoria-executiva. O que jamais veio. Em um gesto quase inédito no futebol brasileiro – pelo menos nas principais divisões –, eles não se reapresentaram no Orlando Scarpelli após a partida a derrota por 1 a 0 para a Ponte Preta, no dia 16. Não treinaram no clube desde então.

Eles queriam que, pelo menos, um mês atrasado fosse depositado. No que não foram atendidos. No domingo, os 31 jogadores notificaram a Elephant extrajudicialmente, exigindo o pagamento das dívidas. Ameaçaram não viajar, mas foram ao Mato Grosso. Cogitaram não sair do hotel, mas chegaram ao vestiário da Arena Pantanal, onde deram o ultimato. Sem sinalização da empresa ou do próprio clube, se recusaram a entrar em campo.

As consequências diretas foram o apoio de parte da torcida, que recepcionou o grupo na volta a Florianópolis, e uma multa aplicada pela CBF ao Furacão. Certamente, outras virão. Imediatas ou não. Uma delas é o rebaixamento do clube para a Série C, previsto no regulamento. Ainda há a ameaça de dispensa geral dos atletas ou demissão coletiva, antecipando a possível punição por parte clube. Vale saber, ainda, que a situação dos boleiros se estende aos demais funcionários do Figueira, que também não recebem há meses.

Além dessa questão, entra um ponto básico para praticantes do futebol – talvez de qualquer esporte: o amor pela bola. É quase como uma regra básica, primeiro se entra em campo, depois se reclama. Coloquei se "entra em campo" porque vale lembrar a sábia frase do volante Vampeta durante sua apagada passagem pelo Flamengo entre 2001 e 2002: "eles fingem que me pagam e eu finjo que jogo".

Essa regra não escrita é tão seguida que são raras as vezes que algum jogador, quem dirá um plantel inteiro, se recusa a entrar em campo durante uma competição oficial por questões financeiras. Não só pelo amor ao ludopédio em si, mas também pelos torcedores. Afinal, os boleiros entram em campo também para se apresentar a um público interessado pelo espetáculo que será apresentado. O gesto, justíssimo, dos atletas do Figueirense é quase que uma negação ao futebol. Pelo menos na história recente.

Apesar de poucos, casos de WO não são raros na história do futebol. Muito menos protestos ou greves de jogadores. Sejam eles por uma questão política ou econômica.

Sigla do termo inglês walk over, algo como vitória fácil, – também há registros de whitout oponente, ou sem oponente –, o WO tem alguns casos históricos. Entre eles até um duplo, quando nem Chapecoense nem Atlético-MG entraram em campo após o desastre aéreo envolvendo o grupo do clube catarinense, em novembro de 2016.

Mas os dois mais importantes envolvem seleções e ocorreram por motivos políticos. Marcado para ocorrer em 5 de junho de 1938, a partida entre Áustria e Suécia, pelas oitavas de final do primeiro Mundial da França, terminou com os suecos classificados. A equipe austríaca, apelidada de Wunderteam (Time Maravilha), não entrou em campo porque o País havia sido anexado pela Alemanha Nazista três meses antes.

Já em 1973, durante as Eliminatórias para a Copa de 1974, disputada na Alemanha, outro caso foi registrado durante a repescagem. Terceiro colocado na América do Sul, o Chile enfrentaria a então União Soviética, representante da Europa. Em clima de Guerra Fria, o país andino passou por um traumático golpe de estado às vésperas do começo da disputa.

Com as Forças Armadas, comandadas pelo general Augusto Pinochet, no poder desde 11 de setembro daquele ano, La Roja viajou a Moscou para enfrentar a URSS no dia 26, apenas 15 dias após a derrubada e da morte do presidente socialista Salvador Allende. A partida terminou empatada em 0 a 0. Na volta, dia 21 de novembro, os soviéticos se recusaram a jogar no Estádio Nacional, que serviu de prisão e sala de tortura, além de palco de inúmeras mortes de opositores ao regime recém-instalado.

Foi armada uma verdadeira farsa. Mesmo com os russos sequer viajando a Santiago, os jogadores chilenos tiveram que entrar em campo. Quem lembra é o atacante Carlos Caszely, conhecido por se recusar a apertar a mão de Pinochet: "A Fifa determinou que o time entrasse em campo e marcasse um gol. Caso contrário, não teríamos a vaga garantida. Foi patético. Nem numa pelada de rua se faz isso".

Os jogadores obedeceram ao roteiro. Mesmo com apenas 11 em campo, após o apito inicial do árbitro, alguns boleiros trocaram passes até a goleira que seria defendida pelo adversário e chutaram para a rede diante de alguns milhares de torcedores. A armação era tamanha, que no dia seguinte, o Santos de Pelé e Carlos Alberto Torres já estava no mesmo Estádio Nacional para um amistoso contra La Roja.

Sobre greves, nunca é demais lembrar a primeira e maior greve do futebol mundial. Ela se iniciou em outubro de 1948, após a criação da Mutual Uruguaya de Futbolistas Profissionales, o sindicato dos jogadores, pelo volante Obdulio "El Negro Jefe" Varela. A entidade nasceu por inspiração do FAA – Sindicato de Futbolistas Argentinos e Agremiados, surgido quatro anos antes.

A paralisação da Mutual uniu as então duas divisões profissionais uruguaias – hoje são três – em uma luta por melhores condições de trabalho, incluindo salários mais altos. O campeonato de 1948 não teve vencedor. A paralisação se estendeu ao outro lado do Rio da Prata, onde os jogadores argentinos também cruzaram as pernas, defendendo questões parecidas e levando a melhor seleção sul-americana dos anos 40 a uma crise que a tiraria do Mundial no Brasil – mas isso é outra história, que um dia pretendo contar.

Parados e sem receber, para se sustentar, os boleiros charruas trabalhavam onde dava e recorriam à Mutual: "Vendíamos bônus e organizávamos jogos de apresentação. Com isso, conseguimos alguns pesos para construir a casa dos jogadores e dar algum sustento durante a parada. Mas levamos a greve até 1949 sem conseguir benefício algum para a categoria", lembrou Obdulio ao jornalista Antonio Pippo no livro Obdulio Desde el Alma, de 1993.

Apesar de muitos afirmarem que a greve terminou com vitória dos boleiros, Obdulio era crítico quanto aos resultados obtidos: "No fim, venceram-nos, prometendo mil coisas que não foram cumpridas".

Vale lembrar que menos de um ano após o fim da greve, o Uruguai conquistaria o bi mundial em cima do Brasil, dentro do Maracanã lotado. O líder da virada foi Obdulio Varela.

A união dos jogadores foi repetida recentemente na terra de Artigas. Criado por jogadores de todas as divisões, com apoio dos que atuam no Exterior, o movimento Más Unidos que Nuncaconseguiu algumas vitórias, como mais verbas para direitos de imagens aos jogadores dos cuadros chicos – no Uruguai, apenas Nacional e Peñarol são considerados grandes e pagam os salários em dia.

No Brasil, em 2013, 75 jogadores das séries A e B criaram o Bom Senso Futebol Clube, que tentou negociar com os cartolas algumas mudanças na relação entre clubes e boleiros. O movimento acabou sem grandes conquistas e teve alguns de seus líderes "exportados" para o futebol chinês numa espécie de "cala boca". Os que voltaram, como Paulo André, atualmente no Athletico-PR, nunca mais falaram em nada relacionado às lutas do BSFC.

Como vemos, apesar do show, ou o jogo, ter que continuar, nem sempre é possível manter a bola rolando. Claro que uma paralisação assim é rara e chama a atenção exatamente por isso. Um fato como esses, porém, serve para mostrar que o futebol, assim como qualquer outra atividade humana, não está afastado das questões mundanas, como o salário a receber e as contas a pagar. Mesmo que isso resulte em uma possível negação ao amor pela bola.

*Roberto Jardim é jornalista com passagens pelas redações de Zero Hora, Rádio Gaúcha e Diário Gaúcho. Atualmente trabalha como analista de mídia e repórter freelancer. Desde 2015 toca um projeto independente com reportagens, artigos e perfis que juntam o jogo de bola e seus personagens nas mais variadas ligações: política, história, economia, cultura etc. Esse trabalho já rendeu dois livros: Além das Quatro Linhas e Democracia Fútbol Club e Outras Histórias. Você pode encontrar mais detalhes em medium.com/@robertojardim

Originalmente publicado em https://amajazz.com.br

Sobre o Autor

Juca Kfouri é formado em Ciências Sociais pela USP. Diretor das revistas Placar (de 1979 a 1995) e da Playboy (1991 a 1994). Comentarista esportivo do SBT (de 1984 a 1987) e da Rede Globo (de 1988 a 1994). Participou do programa Cartão Verde, da Rede Cultura, entre 1995 e 2000 e apresentou o Bola na Rede, na RedeTV, entre 2000 e 2002. Voltou ao Cartão Verde em 2003, onde ficou até 2005. Apresentou o programa de entrevistas na rede CNT, Juca Kfouri ao vivo, entre 1996 e 1999 e foi colaborador da ESPN-Brasil entre 2005 e 2019. Colunista de futebol de “O Globo” entre 1989 e 1991 e apresentador, de 2000 até 2010, do programa CBN EC, na rede CBN de rádio. Foi colunista da Folha de S.Paulo entre 1995 e 1999, quando foi para o diário Lance!, onde ficou até voltar, em 2005, para a Folha, onde permanece com sua coluna três vezes por semana. Apresenta, também, o programa Entre Vistas, na TVT, desde janeiro de 2018.

Colunas na Folha: https://blogdojuca.uol.com.br/lista-colunas-na-folha/

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