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Blog do Juca Kfouri

Daniel Alves e a hora do recreio

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Juca Kfouri

03/08/2019 23h32

POR LUCCA BOPP*

Entre os são-paulinos e são-paulinas, arrisco dizer, há um sentimento igualmente velado e verdadeiro: poucas tarefas são tão complicadas quanto passar o amor pelo São Paulo para as novas gerações. O que gera uma aflição permanente, porque ainda não inventaram nada mais doloroso do que ver um filho seu se apaixonar pelo time rival.

Meu primo tem sete anos e veste a camisa tricolor dia sim, dia sim, em mais um desses relacionamentos reféns da aparência: Derek ama o São Paulo mesmo sem saber por quê. Ama e só – como deveria ser pra sempre.

Mas o que tem de lindo nesse amor inconsciente, tem também de frágil. Afinal, se há um amor não correspondido nos últimos anos é o do são-paulino pelo São Paulo. Não só: os amigos do colégio, sejam eles santistas, corintianos e palmeirenses, ou ponte pretanos, tallerinos e penapolensistas, mostram por A + B que não faz sentido gostar do São Paulo.

E o pior é que, se considerarmos os últimos anos, eles têm razão. A coleção de vexames e decisões equivocadas não só distanciaram o São Paulo de si mesmo, como também machucaram violentamente o sentimento de ser são-paulino. Um amor invencível, claro, representado por uma torcida que está sempre ao lado, mas que sofreu golpes duros na sua autoestima. Vamos ao Morumbi porque não haveria como ser diferente, embora sejamos sessenta mil combalidos, aos trancos e barrancos emocionalmente. E, obviamente, agarrados a um passado recente absolutamente vitorioso.

Mas os novos e novas tricolores simplesmente não conhecem essa última parte. Resta a nós, os Adultos, mostrar a eles e elas, em vídeos desbotados do Youtube, quem foi Rogerio Ceni, os pênaltis defendidos pelo Valdir Peres, o gol no último minuto do Careca, a história de Telê Santana, o tamanho do Raí, os três dedos do Aloísio, a batida no braço do Muricy.

Ensinar o hino sem o improviso do Toninho Cerezo dizendo que as glórias vêm do presente – é feio mentir para uma criança.

Levar ao Morumbi na esperança de que a atmosfera daquele lugar arrebate o seu coração antes dos amores da adolescência.

Essa é a cartilha obrigatória de quem pretende deixar o são-paulinismo incondicional como herança. Uma cartilha potente, mas vítima de ameaças seríssimas que colocam em risco sua eficácia: como meu primo vai justificar para os amigos a efetivação de André Jardine? Como vai gritar seu amor preto, vermelho e branco se o São Paulo não ganha um clássico há um ano?

Nos últimos tempos, é um ato de coragem ser um mini-tricolor.

Desde a última quinta-feira, não é mais.

A contratação de Daniel Alves não é apenas um recado para o resto do planeta sobre a grandeza desse clube. A contratação de Daniel Alves é a maior da história do São Paulo porque fala ao coração; a um sentimento.

Para os mais crescidos, um resgate.

Para os mais novos, uma novidade.

Meu primo já escalou o Daniel Alves no videogame jogando pelo Barcelona, Juventus, PSG e Seleção Brasileira. Há um mês o jogador foi eleito o craque da Copa América e, fatalmente, teve seu nome gritado a cada gol marcado na aula de educação física. Entre tantos times no Brasil e no mundo que o queriam ou o gostariam, ele escolheu o São Paulo. Na cabeça do meu primo, porém, é mais do que isso: o Daniel Alves escolheu ser do time dele.

E, quando se tem sete anos e o jogador mais vencedor da história do futebol veste a mesma camisa que você, porque sente por ela o mesmo que você, tudo muda na hora do recreio: agora o Derek ama o São Paulo e sabe por quê.

Hoje, então, velhos e novos são-paulinos e são-paulinas se unem por amor a um clube que lembrou de si.

E, sobretudo, lembrou dos seus.

*Lucca Bopp é publicitário.

Sobre o Autor

Juca Kfouri é formado em Ciências Sociais pela USP. Diretor das revistas Placar (de 1979 a 1995) e da Playboy (1991 a 1994). Comentarista esportivo do SBT (de 1984 a 1987) e da Rede Globo (de 1988 a 1994). Participou do programa Cartão Verde, da Rede Cultura, entre 1995 e 2000 e apresentou o Bola na Rede, na RedeTV, entre 2000 e 2002. Voltou ao Cartão Verde em 2003, onde ficou até 2005. Apresentou o programa de entrevistas na rede CNT, Juca Kfouri ao vivo, entre 1996 e 1999 e foi colaborador da ESPN-Brasil entre 2005 e 2019. Colunista de futebol de “O Globo” entre 1989 e 1991 e apresentador, de 2000 até 2010, do programa CBN EC, na rede CBN de rádio. Foi colunista da Folha de S.Paulo entre 1995 e 1999, quando foi para o diário Lance!, onde ficou até voltar, em 2005, para a Folha, onde permanece com sua coluna três vezes por semana. Apresenta, também, o programa Entre Vistas, na TVT, desde janeiro de 2018.

Colunas na Folha: https://blogdojuca.uol.com.br/lista-colunas-na-folha/

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