Carta a um pai botafoguense
POR RONALDO GUIMARÃES*
Oi pai. Como está o céu?
"Aqui na terra tão jogando futebol, tem muito samba, muito choro e rock'n'roll. Um dia chove, noutros dias bate sol…"
Hoje faz uma bela noite, nem fria, nem quente e neste momento estou adentrando ao estádio Independência. Virou Arena. Lembra quando era o campo do Sete de Setembro com arquibancadas de cimento?
Lembro que conheci futebol ao vivo, no alto dos meus 10 anos, em 1964, no clássico Atlético e Cruzeiro. O Galo ganhou de um a zero. Se aquele ano é ruim de se lembrar, aquele gol ficou inesquecível.
Acho que o senhor me levou só por desencargo de consciência e o meu time ter as mesmas listras em preto e branco do seu Botafogo. Na verdade, acho que o senhor queria mesmo era estar no Maracanã vislumbrando Garrincha, Didi, Nilton Santos, Zagalo e Quarentinha. Com esse timaço, até eu que sou mais bobo.
O senhor se lembra da minha estripulia, em 1971? No alto dos meus 17 anos, fugi escondido para o Rio, num ônibus "Cometa" e fui ver a final do primeiro Brasileirão contra seu time. Eu não "conhecia Brigite Bardot" e fui campeão brasileiro. Depois disso, neca. Lembro que o senhor ficou num misto de orgulho e decepção.
Pois é, mais um "mata a mata" agora pela "Sul Americana" contra o Botafogo, nosso maior algoz, pedrinha na chuteira. Se ganhamos Libertadores e Copa do Brasil, perdemos pra vocês em competição eliminatória desde 1994, ano em que o senhor virou estrela solitária no céu. Parece até praga, me desculpe.
O Botafogo entrou todo de branco, como o Santos. Nós com as tradicionais listras. Então, faz o seguinte, pai: para de fazer figa aí, esparramado nessas nuvens macias e faz de conta que somos o Botafogo jogando contra o Santos, o maior clássico brasileiro da década de sessenta.
Torcer contra o vento quando uma camisa preta e branca estiver pendurada num varal pode até ser poético, mas dá nos nervos e causa úlcera. Já passei dos sessenta, pai, não sou mais aquele menino, meu coração oscila mais do que meu time.
Opa! E não é que ganhamos? 2 a 0. O senhor, seguramente, descruzou os dedos. Beth Carvalho, bem aí ao seu lado, botafoguense de sete costados e atleticana de uns bons tempos pra cá deve estar orgulhosa ouvindo "Vou festejar", hino dos dois clubes. Irmãos gêmeos.
Agora eu que vou festejar com amigos. Pode descansar em paz, pai, seu filho está feliz da vida.
E que ninguém nos ouça, muito menos sua nora: eu amo é o Galo, por ela eu torço.

*Ronaldo Guimarães é escritor, pedagogo e professor.
Sobre o Autor
Colunas na Folha: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/jucakfouri/











