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Figuras de linguagem do futebol

Juca Kfouri

08/08/2019 17h32

POR RAFA KLEIN

Se o futebol é capaz de explicar o mundo, também é capaz de explicar as dúvidas mais banais.

Figuras de linguagem, por exemplo. Vira e mexe, ficamos na dúvida de quando estamos diante de uma metáfora ou de uma hipérbole que – poucos sabem – foram criadas justamente para serem confundidas.

Por sorte temos o futebol, que não é apenas uma prática esportiva. Ele também é um experimento filosófico, teológico, sociológico e, agora, gramatical.

Vejamos: o didatismo ensina que metáfora é o uso de uma palavra com o sentido de outra, permitindo estabelecer uma analogia. E hipérbole é um exagero da significação.

Já o futebol deixa tudo mais fácil.

Por exemplo: "O Santos está com a mão na taça" é uma metáfora. Ninguém está tocando na taça e isso é uma forma de dizer que o título está perto.

Agora, "O Santos já é o campeão" é uma hipérbole. Uma forma de forçar um favoritismo, mesmo com o campeonato estando a 25 rodadas do fim.

"O Brasil ganhou a Copa América com um pé nas costas" é uma metáfora (e uma meia-verdade, vamos combinar). "O Brasil fez uma grande Copa América" é uma hipérbole (e menos verdade ainda).

Existem as restrições de uso: "O estádio está entupido de gente" é uma metáfora, que não pode se aplicar ao Botafogo. "A arbitragem classificou o Corinthians" nunca poderá ser considerado uma hipérbole.

"A CBF vai organizar o calendário brasileiro", é hipérbole, metáfora e mentira, tudo ao mesmo tempo.

Já "O Palmeiras não tem mundial" não é nenhuma coisa, nem outra. Só uma constatação.

"O Flamengo é o time do cheirinho" é a metáfora mais utilizada na língua portuguesa nos últimos anos.

"O futebol brasileiro não para de revelar craques" é uma hipérbole, que em breve pode cair em desuso.

Aliás, o termo "craque" tende a se tornar uma metáfora, já que hoje em dia qualquer jogador mediano é classificado dessa maneira.

Craque, craque mesmo, é Cristiano Ronaldo, Hazard, Neymar, De Bruyne, Mbapé. Aquele seleto grupo de jogadores que muda um jogo em um lance. Sem metáforas. Aí você pergunta: "e o Messi?"

Messi é hipérbole.

Sobre o Autor

Juca Kfouri é formado em Ciências Sociais pela USP. Diretor das revistas Placar (de 1979 a 1995) e da Playboy (1991 a 1994). Comentarista esportivo do SBT (de 1984 a 1987) e da Rede Globo (de 1988 a 1994). Participou do programa Cartão Verde, da Rede Cultura, entre 1995 e 2000 e apresentou o Bola na Rede, na RedeTV, entre 2000 e 2002. Voltou ao Cartão Verde em 2003, onde ficou até 2005. Apresentou o programa de entrevistas na rede CNT, Juca Kfouri ao vivo, entre 1996 e 1999 e foi colaborador da ESPN-Brasil entre 2005 e 2019. Colunista de futebol de “O Globo” entre 1989 e 1991 e apresentador, de 2000 até 2010, do programa CBN EC, na rede CBN de rádio. Foi colunista da Folha de S.Paulo entre 1995 e 1999, quando foi para o diário Lance!, onde ficou até voltar, em 2005, para a Folha, onde permanece com sua coluna três vezes por semana. Apresenta, também, o programa Entre Vistas, na TVT, desde janeiro de 2018.

Colunas na Folha: https://blogdojuca.uol.com.br/lista-colunas-na-folha/

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