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Teu presente é uma lição (de má gestão)

Admin

23/07/2019 17h15

Por Pedro Paschoal e Marco Sirangelo*

Desde sua inauguração, em maio de 2014, a Arena Corinthians é tema de grandes e recorrentes discussões sobre a sua situação financeira. Publicada pelo Estadão no último dia 10 de maio, uma matéria de João Prata informa que apesar de já ter pago mais de R$ 300 milhões ao longo de 5 anos, o Corinthians ainda deve cerca de R$ 1,1 bilhão para quitar seu estádio. Recorrente, também, é a falta de transparência com que o assunto é tratado pelo clube.

Atual presidente corintiano e principal idealizador do projeto, Andrés Sanchez é taxativo ao dizer que os números frequentemente divulgados através da imprensa são incorretos, mas não há nenhum esforço para que a situação seja melhor esclarecida, uma vez que nada relativo ao Itaquerão é apontado nos demonstrativos financeiros do clube. Esse cenário incerto do estádio gera grande interesse, porém muitas vezes ocupa um espaço tão relevante que a restante situação financeira e gerencial do clube fica de lado. Nesse contexto, convém avaliar outros aspectos da gestão do Corinthians que também impactam de forma significativa as finanças do clube.

Segundo dados obtidos através dos demonstrativos financeiros disponíveis em seu site, a receita total (faturamento bruto, incluindo também as receitas do departamento social) do Corinthians manteve-se relativamente estável nos últimos três anos, saindo de R$ 485 milhões em 2016, para R$ 470 milhões em 2018. No mesmo período, porém, a despesa de salários do departamento de futebol saltou de R$ 124 milhões para R$ 179 milhões, um aumento representativo de R$ 55 milhões.

Ou seja, questão do estádio à parte, a despesa com os salários do futebol cresce 20% ao ano desde 2016, sem que exista um crescimento de receita compatível, tais como a venda de atletas ou novos acordos comerciais, para justificar tamanho aumento. Não há, também, qualquer redução correspondente de outras despesas, tais como o que é gasto com a manutenção das categorias de base por exemplo, fazendo com que esse aumento de despesa salarial não seja devidamente contrabalanceado.

Ainda sobre esses exemplos de despesa, dois casos chamam atenção. Primeiramente, apesar de deficitário, o Departamento Social corintiano manteve o mesmo patamar de déficit no período entre 2016 e 2018, saindo de R$ 22 milhões para R$ 23,5 milhões, um crescimento anual médio de 4%. Apesar de representar uma quantia financeira relevante e de ser motivo para calorosas discussões entre seus torcedores que desejam sua separação com a gestão do futebol, o impacto da deterioração desse prejuízo no departamento social é pouco representativo em comparação ao aumento das despesas de salários com o futebol observado no período. Além disso, em recente pesquisa realizada pela consultoria BDO, o Corinthians aparece, com folga, na liderança entre os times do Brasil que mais gastam com comissão de empresários em negociações, totalizando R$ 33 milhões somente em 2018. Em que pese eventuais diferenças de critérios na divulgação dessas informações pelos clubes, trata-se de um gasto muito acima da média.

Porém, o substancial aumento nos gastos com salários não ocasionou em melhora técnica proporcional para o time. Em 2017 os resultados esportivos foram melhores do que os de 2016, com a conquista de dois títulos (Paulista e Brasileiro), porém não foram realizadas contratações de impacto que justificassem um aumento tão grande na folha salarial de um ano para o outro. Pior foi o movimento ocorrido de 2017 para 2018, quando a despesa salarial também aumentou apesar de um menor êxito esportivo e com o elenco perdendo alguns dos seus principais nomes, tais como Jô, Arana, Balbuena e Rodriguinho.

Uma vez que não houve ganho de qualidade, o que podemos observar é que recentemente ocorreu um aumento expressivo na quantidade de jogadores sob contrato com o clube. Segundo dados do site Transfermarkt, enquanto o elenco profissional corintiano manteve uma média entre 31 e 32 jogadores por temporada, a quantidade de jogadores emprestados pelo clube cresceu ano após ano, conforme o gráfico abaixo:

A cada ano, o Corinthians acumula mais e mais jogadores sob contrato, fator que explica esse aumento em seus gastos com salários. O número de jogadores emprestados para outros clubes, por exemplo, saltou de 16, em 2017, para 33, em 2019. É um elenco inteiro formado somente por jogadores emprestados, muitos dos quais contam com parte de seus salários bancados pelo clube alvinegro.

A situação piorou ainda mais em 2019, com a criação da equipe sub-23. Formada sob a justificativa de abrigar jogadores das categorias de base que já completaram 21 anos, mas que ainda não possuem espaço no elenco profissional, a nova equipe não deveria contar com a contratações de jogadores — algo que foi assegurado pela diretoria corintiana em mais de uma oportunidade. Porém, segundo o jornalista Rodrigo Vessoni, do portal Meu Timão, o time sub-23 do Corinthians conta atualmente com 36 jogadores, dentre os quais 23 são provenientes de outros clubes, e não do terrão, como originalmente estava planejado.

Se somarmos esses 36 atletas sub-23 aos 32 jogadores do elenco atual e, ainda, aos 33 jogadores emprestados pelo clube, chegamos a um total impressionante de 101 atletas profissionais sob contrato com o Corinthians. Como consequência, o clube possui uma das maiores folhas salariais do país. De acordo com levantamento recente divulgado pelo jornalista Mauro Cezar Pereira em seu blog, o Corinthians encontra-se em um patamar próximo ao que Flamengo, Palmeiras e Cruzeiro gastam para manter aqueles que são considerados os melhores elencos do futebol brasileiro. Porém, diferentemente de seus rivais, o clube alvinegro aposta mais na quantidade do que na qualidade de seus atletas.

Outro ponto a ser considerado nessa discussão é o teto salarial imposto pelo clube. O presidente Andrés Sanchez reafirma, de maneira frequente, que o Corinthians "não faz loucuras" e que, desta forma, mantém um teto salarial mensal de R$ 500 mil. Ora, de que adianta ter um teto salarial em teoria "pés no chão" se a quantidade de jogadores é tamanha que, na prática, a despesa de salários anual — o total do bolo — atinge patamares que colocam o clube como um dos maiores pagadores de salários do país? Talvez seria melhor, tanto no aspecto financeiro, quanto esportivo, aumentar esse teto e, em contrapartida, reduzir drasticamente o número de jogadores sob contrato. Como podemos observar, o ato de estabelecer um teto de gastos, por si só, não é suficiente para garantir uma gestão financeira responsável do departamento de futebol.

Não é difícil perceber que a atual política de contratações corintiana é insustentável. Os gastos desenfreados com salários sem a prerrogativa da busca por melhores desempenhos esportivos só pioram a situação das finanças de um time que já possui em sua Arena uma conta bilionária a ser paga. Apesar de possuir um departamento social deficitário há anos, é no futebol que estão registrados os aumentos expressivos de despesas ano após ano. Diferentemente do que afirmam seus dirigentes, o futebol está longe de se pagar, e já é passada a hora de parar de contratar jogadores em baciada, inflando ao mesmo tempo o tamanho de seus elencos e de suas folhas salariais. Caso contrário, a dívida do estádio e os custos com o departamento social irão se tornar apenas mais dois itens de uma lista muito maior de problemas, que, assim como jogadores, parecem não parar de se acumular na atual gestão alvinegra.

*Pedro Paschoal é administrador de empresas pela FGV, especialista em planejamento financeiro e, principalmente, corintiano. Twitter: @days_pedro

*Marco Sirangelo é Mestre em Gestão Esportiva pela Universidade de Loughborough (Inglaterra) e Bacharel em Administração de Empresas pela FGV, foi Analista de Marketing do Palmeiras entre 2009 e 2010 e Gerente de Projetos da ISG, de 2011 a 2016. Atualmente reside em Nova York. Twitter: @MarcoSirangelo

Sobre o Autor

Juca Kfouri é formado em Ciências Sociais pela USP. Diretor das revistas Placar (de 1979 a 1995) e da Playboy (1991 a 1994). Comentarista esportivo do SBT (de 1984 a 1987) e da Rede Globo (de 1988 a 1994). Participou do programa Cartão Verde, da Rede Cultura, entre 1995 e 2000 e apresentou o Bola na Rede, na RedeTV, entre 2000 e 2002. Voltou ao Cartão Verde em 2003, onde ficou até 2005. Apresentou o programa de entrevistas na rede CNT, Juca Kfouri ao vivo, entre 1996 e 1999. Atualmente está também na ESPN-Brasil. Colunista de futebol de “O Globo” entre 1989 e 1991 e apresentador, de 2000 até 2010, do programa CBN EC, na rede CBN de rádio. Foi colunista da Folha de S.Paulo entre 1995 e 1999, quando foi para o diário Lance!, onde ficou até voltar, em 2005, para a Folha.

Colunas na Folha: https://blogdojuca.uol.com.br/lista-colunas-na-folha/

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