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Devaneando o futebol

Juca Kfouri

01/07/2019 12h00

Para Gilmar Mascarenhas

Resenha de A Vida pela Bola de Luiz Guilherme Piva[1]

POR JORGE KNIJNIK

De repente – derrepentemente – o centroavante sentiu uma ausência. Não sabe de que, nem onde, tampouco quando. 'Só repete que foi uma ausência'. Até os amigos parecem ficar meio de saco cheio desta ausência insistente, recalcitrante. Foi gol? Chutou? Pênalti? Não sabe, ninguém sabe. O que há é uma ausência.

Assim como em seu livro anterior, o magistral Eram todos camisa dez (sobre o qual alias eu escrevi uma pequena nota nos antigos blogs do CEV, comentário que nos transformou em amigos virtuais – um dia apertaremos as mãos!), o destaque da nova e não menos magistral obra do Piva são as ausências. As quais se fazem tão presentes enquanto vemos – sim, literalmente vemos – as histórias futebolísticas saltarem das páginas maravilhadas de A Vida pela Bola , se infiltrarem nas nossas salas e ocuparem todos os espaços de nossos devaneios dominicais.

As ausências de Piva definem, melhor, fornecem uma essência ao jogo. Ao verdadeiro jogo de futebol. O qual se transforma em vida ali nas suas páginas– 'o resto, antes e depois, dentro e fora do botequim, sem o futebol, são derrotas – e sem ninguém para assistir', pois afinal, estamos perdendo…sempre. A verdadeira vida ausente apresentada por Piva é a vida dos pobres. Dos excluídos de tudo. Vida vero vida, não este fantoche futebolístico que nos vendem (e pior, que nos compramos!) pela TV. Estas ausências consagram os personagens do livro. Mas também nos desesperam. Sem o chamado ao constante devaneio da bola, estas faltas nos paralisariam.

As crônicas de Piva nos levam a um ambiente de sonhos. De lembranças. Aquele livro e suas histórias saíram de nossas próprias vidas – vividas? Reais? Não sabemos ao certo, mas poderiam ter sido. Vidas na neblina – mas não nebulosas. Vidas de memorias distantes. Aconteceram? Certamente. Tal como o centroavante da crônica 'Ausências', vivemos cotidianamente submersos – e imersos – em devaneios futebolísticos. Os quais são a matéria prima da obra-prima de Piva.

A Vida pela Bola é um livro-artilheiro. Um 9 purinho. Um romário feito apenas de bico de chuteiras. Um dadá maravilha pairando sobre todos os campos de beira de estrada do Brasil. Em ritmo de arquibancada-batucada de estádio antigo. E cheiro de vestiário de várzea, ao final da tarde. Ou talvez, da pré-varzea. Não existe, mas insiste. A sintaxe das crônicas, a sua pontuação, os seus entremeios, as palavras não ditas, tudo ali nos deixa resfolegantes. Quase que impedidos, em êxtase no meio do campo. Segue o jogo. Sem VAR. Com nossos mais primordiais temores, terrores e amores, desenhados letra por letra, esculpidos a cada palavra, à beira de despencar do abismo, um fosso tão grande que paradoxalmente é capaz de nos unir, assim como os devaneios de Piva (ou os meus? já nem sei…) reuniram – na mesma crônica, na mesma página, no mesmo parágrafo, na mesma área – o centroavante cuja ex virou a atual do goleiro adversário. Uma parodia perfeita do English Team, digo, Dream.

Como eu disse acima, a gente não lê A Vida pela Bola. Este é um livro que a gente vê. Cada crônica, um roteiro de filme. Ao manusear as folhas deste livro, se assiste a uma serie de curtas-metragens, ou talvez um longa com pequenas histórias ligadas pela linha invisível que une uma área a outra, cortando o campo verticalmente. Povoado com craques rejeitados, duelos amorosos, fantasmas e zumbis. Brigas e dinheiro. Chuvas torrenciais. Personagens sumidos e jogos inacabados. Enxofre, anjos e diabos. Pobres e filhos. Pais e derrotas.

E Kombis! As crônicas de Piva passeiam de Kombi por um mundo que, de tão fantástico, só pode ser verdadeiro. Ao ler o livro, a gente embarca numa Kombi beeeeem antiga, cheia de amigos cantando o que der na telha, e que não querem – ou talvez nem consigam mais – desembarcar…

Há novas ausências neste livro. Há palavras não ditas – aliás, quais são as palavras que nunca são ditas? pergunta o roqueiro. Piva anuncia que, de tão fortes, estas não podem mais ser ditas – mas sim devem ser jogadas e vividas – pela bola. Entretanto, nos devaneios de Piva – ou nos nossos? as palavras ausentes, nos encharcam de sentido. Nos transportam para o centro do redemoinho. Ensurdecedor em seu silencio. De onde brotam tesouros como um neologismo genial tipo 'antiacalanto'.

Para quem não sabe – mas existe alguém tão ruim da cabeça ou doente do pé que não saiba disso? – as crônicas do Piva são publicadas periodicamente no blog do Juca. Na contracapa do livro, Juca escreve que A Vida pela Bola 'vale pela vida e pela bola'. O Kfouri comenta que as crônicas ali escritas são tão cheias de vida que, mesmo que não as tenhamos vivido, gostaríamos de voltar no tempo para vive-las novamente.

O Mestre tem razão.

O futebol de Piva contem a memória de tudo.

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[1] Luiz Guilherme Piva escreveu o posfácio de The World Cup Chonicles: 31 days that Rocked Brazil e certamente vai adorar (!) meu jeito 'sutil' de usá-lo para fazer propaganda do meu livro! Seus livros sao pubicados pela editora Iluminuras.

Sobre o Autor

Juca Kfouri é formado em Ciências Sociais pela USP. Diretor das revistas Placar (de 1979 a 1995) e da Playboy (1991 a 1994). Comentarista esportivo do SBT (de 1984 a 1987) e da Rede Globo (de 1988 a 1994). Participou do programa Cartão Verde, da Rede Cultura, entre 1995 e 2000 e apresentou o Bola na Rede, na RedeTV, entre 2000 e 2002. Voltou ao Cartão Verde em 2003, onde ficou até 2005. Apresentou o programa de entrevistas na rede CNT, Juca Kfouri ao vivo, entre 1996 e 1999 e foi colaborador da ESPN-Brasil entre 2005 e 2019. Colunista de futebol de “O Globo” entre 1989 e 1991 e apresentador, de 2000 até 2010, do programa CBN EC, na rede CBN de rádio. Foi colunista da Folha de S.Paulo entre 1995 e 1999, quando foi para o diário Lance!, onde ficou até voltar, em 2005, para a Folha, onde permanece com sua coluna três vezes por semana. Apresenta, também, o programa Entre Vistas, na TVT, desde janeiro de 2018.

Colunas na Folha: https://blogdojuca.uol.com.br/lista-colunas-na-folha/

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