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André Rizek abandonado pela Editora Abril

Juca Kfouri

18/07/2019 10h00

Trabalhei durante 25 anos na Editora Abril, entre 1970 e 1995.

Todas os processos movidos contra mim foram devidamente defendidos pela empresa, assim como acontece hoje aqui no UOL, na Folha de S.Paulo, na rádio CBN e na ESPN Brasil.

A Folha seguiu me defendendo até no período em que estive fora do jornal, entre 1999 e 2005, quando fui para o diário Lance, que também sempre foi solidário em todas as ações, assim como TV Globo quando por lá passei entre 1988 e 1995.

Daí ser estarrecedor o que você lerá daqui por diante.

A Editora Abril contratou o jornalista André Rizek, hoje no Sportv, em 2001, para a revista "Placar".

A primeira missão que lhe passaram era uma matéria cabeluda: cocaína no futebol.

Junior Baiano tinha acabado de ser pego no antidoping.

A pauta era excelente, mas tinha uma parte extremamente delicada.

A direção da revista recebera uma informação de dirigentes do Corinthians segundo a qual sete garotos haviam sido afastados por "envolvimento com drogas".

Eram usuários, eram traficantes?

A história era nebulosa e Rizek foi apurar.

O Corinthians não confirmava, em on…

"Placar" queria os nomes, fotos dos garotos etc. Eram menores de idade.

Olhando ficha técnica por ficha técnica, o repórter notou a ausência repentina de alguns atletas em um dos times da base.

Pela lista telefônica, conseguiu localizá-los, no último dia do fechamento.

O que já era confuso, ficou ainda mais. Eles confirmavam a expulsão, mas negavam serem culpados.

Relataram em detalhes do que eram acusados, rebatiam fazendo outras acusações bem graves contra os dirigentes da base do Corinthians e, enfim, pareciam inocentes.

Era necessário contar o ponto de vista deles, porque estava impossível saber, àquela altura, quem afinal falava a verdade.

A edição da matéria acabou sendo um desastre.

A começar pelo título: "A história dos aspirantes".

Rizek defendeu que não fossem publicados os nomes dos garotos, muito menos a foto. Eram menores e não deveriam ser expostos, opinou.

A direção entendeu o contrário e a reportagem foi publicada.

O jornalista assinou a matéria.

As famílias dos garotos ficaram revoltadas, com razão, e foram à Justiça, com ações criminais e cíveis.

Primeiro, veio o processo criminal.

Rizek foi inicialmente condenado, mas prescreveu.

Ou seja, sem pena aplicável na esfera criminal, ele ficou tranquilo porque a empresa sempre deixou claro que é ela quem paga as despesas de ações cíveis.

A cada vez que alugava um apartamento e os processos cíveis apareciam, a Abril lhe dava uma carta confirmando que a dívida era exclusivamente dela.

Importante salientar que Abril é signatária de uma convenção trabalhista de 2001 segundo a qual é a empresa quem paga as ações cíveis, mesmo quando o repórter é réu solidário – caso de Rizek e de tantos outros.

Em 2013, o jurídico da Abril mandou-lhe uma passagem para comparecer numa audiência em São Paulo.

Ao chegar ao tribunal o advogado o orientou a não falar, pois a empresa estava encaminhando acordo com as famílias e dizer qualquer coisa atrapalharia os entendimentos.

Leigo, o jornalista confiou na orientação e perdeu a chance de se defender.

São duas ações cíveis, nas quais Rizek está sendo condenado.

Elas começaram com um valor de 150 mil e 50 mil, respectivamente, impetradas por dois personagens citados na matéria.

A Abril impetrou tantos recursos ao longo desses anos, para defender apenas a si própria, e para protelar o pagamento das indenizações, que os valores agora estão em torno de 750 mil e 350 mil, respectivamente, e crescem a cada mês.

Total: 1,1 milhão!

Os valores de uma ação têm como base, obviamente, o fato de as matérias terem sido publicadas em uma revista do outrora milionário Grupo Abril…

O que torna ainda mais cruel impor ao repórter pagar a conta, como pessoa física.

A decisão final da ação dos R$ 750 mil saiu dias, dias!, depois de a empresa decretar recuperação judicial, no ano passado.

Um advogado da Abril mandou-lhe e-mail: "Me ligue urgente". Mas o "urgente" já era tarde demais.

Sua conta foi bloqueada pouco tempo depois, em novembro – e a ação de R$ 350 mil vai chegar a esse ponto a qualquer momento.

A Abril, no processo, reconhece que a dívida é dela, pela convenção trabalhista.

E solicitou ao juiz para colocar a indenização na recuperação judicial.

O juiz preferiu, a pedido dos promotores da execução, executá-la integralmente.

A decisão traz um enorme risco ao exercício do jornalismo.

Hoje, há mais de 50 jornalistas da Abril respondendo a processos, todos com fatos anteriores à recuperação judicial.

Rizek é o primeiro a ser executado. Outros virão…

A Abril, junto com o sindicato dos jornalistas de São Paulo, conseguiu uma liminar impedindo a penhora/bloqueio dos bens de Rizek em novembro do ano passado.

A liminar foi derrubada em maio último e, caso não consiga uma decisão favorável no recurso, as chances do jornalista são pequenas.

Em breve ele será executado (na ação dos R$ 750 mil, depois virá a de R$ 350 mil).

A Abril, hoje, limita-se a dizer que o caso é "complexo", que NUNCA um jornalista teve de pagar indenização de matéria em revistas da editora e que estão "estudando a situação"…

O caso está com o novo dono da editora, Fábio Carvalho.

Na última reunião feita na empresa, ano passado, o repórter ouviu a seguinte frase: "Seu caso é complicado porque, para resolvê-lo, teríamos de fazer o mesmo com todos os jornalistas".

Assim que chegar o "não" oficial da Abril, a admissão de que abandonam seus jornalistas feridos na estrada, Rizek tentará reduzir o valor das sentenças, por meio de acordo com as famílias que o processaram.

Depois disso, estudará medidas para reaver o prejuízo.

Afinal, ele tem documento oficial da empresa reconhecendo que dívida é dela e não dele – como a Abril já faz publicamente no processo -, embora, na prática, graças à recuperação judicial, Rizek é que esteja sendo cobrado.

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De tudo, resta perguntar: há alguma segurança para assinar uma matéria em revistas da editora Abril?

E os playboys irmãos Tite e Gianca Civita, uma das 15 maiores fortunas do país, algo em torno de 10 bilhões de reais, seguem sorridentes em seus almoços na Adega Santiago, em São Paulo.

Victor Civita se revira no túmulo.

Sobre o Autor

Juca Kfouri é formado em Ciências Sociais pela USP. Diretor das revistas Placar (de 1979 a 1995) e da Playboy (1991 a 1994). Comentarista esportivo do SBT (de 1984 a 1987) e da Rede Globo (de 1988 a 1994). Participou do programa Cartão Verde, da Rede Cultura, entre 1995 e 2000 e apresentou o Bola na Rede, na RedeTV, entre 2000 e 2002. Voltou ao Cartão Verde em 2003, onde ficou até 2005. Apresentou o programa de entrevistas na rede CNT, Juca Kfouri ao vivo, entre 1996 e 1999. Atualmente está também na ESPN-Brasil. Colunista de futebol de “O Globo” entre 1989 e 1991 e apresentador, de 2000 até 2010, do programa CBN EC, na rede CBN de rádio. Foi colunista da Folha de S.Paulo entre 1995 e 1999, quando foi para o diário Lance!, onde ficou até voltar, em 2005, para a Folha.

Colunas na Folha: https://blogdojuca.uol.com.br/lista-colunas-na-folha/

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