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Chernobyl e o futebol

Juca Kfouri

19/06/2019 10h00

POR RODRIGO R. MONTEIRO DE CASTRO

Monica de Bolle, economista e uma das mais lúcidas analistas da atual situação política do País, utilizou a minissérie Chernobyl, produzida pela HBO, para tratar de um tema que há décadas – ou melhor, séculos – corrói a sociedade brasileira: a mentira.

A referência é pertinente: os discursos oficiais – e mesmo os oposicionistas – contêm, historicamente, mentiras que se adaptam aos interesses de quem os profere. A alternância no poder vem servindo, aliás, para legitimar as novas inverdades, que se sustentam pelo antagonismo com as mentiras pretéritas.

Apesar de não se tratar de fenômeno exclusivamente brasileiro, aqui se atinge nível epidêmico.

E a epidemia abalou o futebol.

Para onde se olha, encontra-se catástrofe. Porém, como em Chernobyl, tenta-se construir um discurso oficial de que tudo está bem ou de que os eventuais problemas são insignificantes – ou conjunturais. Não são.

Algumas verdades devem ser resgatadas e enfrentadas para que, a partir delas, se (re)construa uma indústria que, como já se repetiu à exaustão nesta coluna, tem enorme potencial econômico e social.

Primeira mentira: o jogador brasileiro é o melhor do mundo. Já foi. Não é mais. Nos dias atuais, tornou-se commodity. Em sua maioria, sai do País despreparado e volta sem consagração. Os poucos jogadores que atingem o estrelato são transformados, por lá, em produto de ponta e, no final de suas carreiras, repatriados para iludir a massa torcedora.

Segunda: os times brasileiros (ainda) têm apelo mundial. Não é verdade. Tornaram-se, hoje, meros exportadores de commodities. Pior: estão, em sua maioria, tecnicamente quebrados, e são preservados por benesse de uma legislação anacrônica e pela leniência do Estado, que os financia com isenções fiscais, perdões de dívidas, parcelamentos e reparcelamentos de débitos tributários, patrocínios e outras formas de transferência de recursos.

Terceira: os campeonatos nacionais rivalizam com os organizados por países europeus. Mais uma inverdade. Os certames brasileiros foram rebaixados às divisões inferiores, em comparação com as principais ligas da Europa, e atraem, apenas, torcedores locais. A paixão clubística, ainda existente, cede espaço, em progressão geométrica, à oferta de produtos externos de altíssima qualidade – o que se prova, no cotidiano, pelo cada vez maior número de crianças e jovens que vestem camisas de times estrangeiros e idolatram craques de outros países.

Quarta: o modelo associativo, adotado desde o século XIX, protege o futebol brasileiro de invasores bárbaros, que pretendem se apoderar da cultura nacional. Ao contrário: esse modelo é responsável pela propagação da ineficiência e da improdutividade, bem como pela prevalência do amadorismo sobre o profissionalismo. Sim: enquanto os times europeus ostentam estruturas administrativas (e organizacionais) sofisticadas e tecnológicas, os brasileiros são governados por amadores, que se projetam por suas habilidades político-associativas.

Quinta: dinheiro, no futebol, não garante resultados. A ascensão de times antes inexpressivos – ou não tão relevantes historicamente –, como Manchester City e PSG, que, após o ingresso de vultosos recursos, passaram a figurar na lista dos 10 maiores do planeta em receitas e se tornaram os principais protagonistas de seus países e importantes competidores do futebol mundial, refuta a falácia. Em sentido contrário, times brasileiros tradicionais, como Vasco e Botafogo, atolados em dívidas, se apequenam a cada dia.

Sexta: a seleção brasileira continua a encantar o mundo. Definitivamente, não. Mesmo o torcedor brasileiro vem demonstrando dificuldade de identificar-se com o símbolo que, em outros momentos, unificava pessoas de origens tão díspares. Ela perdeu a legitimidade representativa.

Sétima: confederações e federações se preocupam com a sustentabilidade do esporte e o resgate de sua força. Na realidade, a máquina associativa se auto preserva e se apropria de técnicas e de conceitos de mercado, como governança e compliance, para reforçar o status quo. Nesse ambiente, o futebol e os futebolistas são apenas meios de sustentação de projetos de poder.

A combinação dessas mentiras é responsável pela implosão do futebol brasileiro.

Seu soerguimento depende do reconhecimento dessa realidade e da construção de um novo modelo, de um novo mercado, construído sobre os pilares (i) da sociedade anônima do futebol, (ii) de instrumentos de financiamento do futebol – a exemplo da debênture-fut –, (iii) de um programa de certificação de governança do futebol – outrora alcunhado de bovespafut –, (iv) de um regime tributário transitório e (v) de instrumentos de incentivo, por meio do futebol, à educação de estudantes da escola pública.

Sobre o Autor

Juca Kfouri é formado em Ciências Sociais pela USP. Diretor das revistas Placar (de 1979 a 1995) e da Playboy (1991 a 1994). Comentarista esportivo do SBT (de 1984 a 1987) e da Rede Globo (de 1988 a 1994). Participou do programa Cartão Verde, da Rede Cultura, entre 1995 e 2000 e apresentou o Bola na Rede, na RedeTV, entre 2000 e 2002. Voltou ao Cartão Verde em 2003, onde ficou até 2005. Apresentou o programa de entrevistas na rede CNT, Juca Kfouri ao vivo, entre 1996 e 1999 e foi colaborador da ESPN-Brasil entre 2005 e 2019. Colunista de futebol de “O Globo” entre 1989 e 1991 e apresentador, de 2000 até 2010, do programa CBN EC, na rede CBN de rádio. Foi colunista da Folha de S.Paulo entre 1995 e 1999, quando foi para o diário Lance!, onde ficou até voltar, em 2005, para a Folha, onde permanece com sua coluna três vezes por semana. Apresenta, também, o programa Entre Vistas, na TVT, desde janeiro de 2018.

Colunas na Folha: https://blogdojuca.uol.com.br/lista-colunas-na-folha/

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