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Os ventos de Cotia ainda não aquecem o Morumbi

Juca Kfouri

2023-05-20T19:18:28

23/05/2019 18h28

POR LUCCA BOPP*

Dizer que o São Paulo está em crise é tão novo quanto anunciar o lançamento do Tamagoshi. O clube do Morumbi é um barco à deriva, sem a menor ideia de onde saiu e com todas as bússolas disfuncionais para apontar algum destino. O problema é que o tricolor, personificado pelos seus presidentes, e diretores, e gerentes, e coordenadores, parece sempre seguir às que apontam diretamente para uma tempestade. Opa, essa daqui diz que temos que ir em direção àquele ICEBERG, vamos? Vamos! E assim ligam os motores rumo ao abismo.

Tal expediente virou hábito: o São Paulo está viciado em péssimas escolhas previsíveis. Tudo começou quando Juvenal Juvêncio se aboletou no poder depois de (dis)torcer o estatuto e estender seu mandato. De lá para cá, as decisões equivocadas se multiplicaram, em maior ou menor grau.

Desde as contratações de técnicos reconhecidamente MEDIANOS, como Adílson Batista, Ney Franco e Dorival Junior, até desmanches deliberados que MUTILAVAM qualquer chance de título de um clube carente deles. A falta de coerência foi o único aspecto estável nesses anos todos de estiagem esportiva. Quando sai um treinador vanguardista como Juan Carlos Osório e, para o seu lugar, trazem o inexplicável Doriva, tem-se a medida do CAOS instalado nas sinapses dos cartolas.

Se as escolhas desastradas estivessem restritas à comissão técnica, tudo bem, mas o São Paulo virou o território preferido de incapazes.

Carlos Miguel Aidar, um dos maiores desastres que já comandaram o Tricolor, meteu os pés pelas mãos sem qualquer pudor e colocou o clube em uma das maiores PINDAÍBAS da sua história. Além disso, é responsável direto pelo desastre que é a gestão Leco, que tem como discurso a tira-colo o fato de ter assumido um saldo devedor como nunca antes na história do Morumbi, se eximindo em alguma medida, portanto, dos vexames que estamos acumulando – a derrota contra o Bahia é só mais uma na prateleira de vergonhas que tem também Penalopense, Bragantino, Defensa Y Justicia e tantas outras.

Nos últimos anos, carbonizamos alguns ídolos e mandamos outros para o hospital, sempre os usando como escudo de tragédias anunciadas. Um amigo definiu a curta passagem de Rogério Ceni, O Maior de Todos, com precisão: foi a maior derrota institucional da história do São Paulo. Não podia tratar ele dessa forma. Não podia, não pode, nunca poderá. O símbolo maior de vinte milhões de torcedores foi vítima do maior crime hediondo do futebol: faltou gratidão.

Algumas linhas esotéricas diriam que hoje sofremos com o CARMA e me parece o palpite mais razoável: tantas injustiças, tantos erros, tanta incompetência não passariam impunes. E não passaram. Hoje viramos a maior chacota do futebol paulista, com aproveitamento inferior ao da Ponte Preta nos confrontoscom os outros grandes do estado. Um absurdo morumbiano.

Mas chega de fazermos essa retrospectiva que mais parece autoflagelo: voltemos a aos dias de hoje, tão doloridos para o são-paulino.

Ainda assim, o futebol é tão apaixonante por ser uma permanente obra do acaso, embora o VAR – e seus defensores – estejam em uma insistente cruzada para reduzir o maior esporte do mundo a um TRIBUNAL a céu aberto. Pois bem, foram o acaso e as surpresas e os ventos de Cotia que levaram o São Paulo a uma final do estadual, depois de DEZESSEIS anos.

A perna esquerda de Antony, a coragem de Igor Gomes, a onipresença de Luan.

Forças inesperadas que envergaram o clube a uma epifania de esperança, algo ENORME para uma torcida baleada. Mas o futebol ainda tem um aspecto matemático e a sucessão de PIADAS que a diretoria contou para torcida, travestidas de inovação e convicção, não passaria impune no Itaquerão. Tudo envelopado pelo departamento de comunicação mais alienado do planeta, representado por vídeos bem feitos, mas com doses cavalares de oba-oba. "Chapada do Nene" e "Kingnaldo" são criações nocivas e descoladas da realidade; estava na cara que ambos se tornariam desafetos da torcida em pouco tempo.

Mas o início desse primeiro semestre estapafúrdio tem início na inaceitável efetivação de André Jardine, um profissional multicampeão nas categorias de base, ou seja, em campeonatos que têm o mesmo grau de competitividade de GINCANAS.

Desconfio que, em alguma noite de novembro do ano passado, a cúpula tricolor se reuniu nos gabinetes do Morumbi e, em vez de cafezinhos e biscoitos, tomou Daime.

Só isso explica a demissão de Aguirre e a esperança de que um VIRGEM conquistaria a América, pela quarta vez. Só dois homens foram capazes disso em oitenta e um anos de história: Mestre Telê Santana e Paulo Autuori – outra vítima do moedor de carne que se tornou o clube. Não seria, de jeito algum, em nenhuma hipótese, André Jardine o terceiro a conquistar tal façanha. Nunca. Resultado: zero gols e eliminação para um time de terceiro escalão argentino, com o interino colocando Araruna no segundo tempo para conseguir a classificação.

Foi nesse jogo, aliás, que acredito, arremessando a modéstia para a Giovanni Gronchi, ter encontrado a razão principal para a desolação permanente dos tricolores.

Há uma falência generalizada, em todos os níveis: uma diretoria que não entende coisa nenhuma de futebol; comissões técnicas com currículos duvidosíssimos; jogadores com o apetite de um vegano em churrascaria rodízio; uma torcida que se contenta com as migalhas das migalhas.

O perfil do São Paulo mudou, mas do são-paulino também.

Nos tornamos cúmplices da tragédia quando aplaudimos um time que vai para o intervalo empatando em 0 a 0, com o Talleres.

Temos culpa no cartório quando nos iludimos com vitórias sofridas contra ITUANO e Botafogo, com todo respeito. A falta de ambição dos jogadores está refletida em cada um dos cinquenta mil que empurram o time, na marra.

A nossa sorte é que, ao contrário dos que entram em campo, nós equilibramos essa equação com o ingrediente mais poderoso das relações humanas: o amor.

Se hoje nos falta inconformismo, compensamos com o coração. Toda vez que alguém que ganha um salário mínimo toma duas conduções, e paga cem reais num ingresso para assistir ao tricolor, teremos um gol no último minuto.

Para toda mãe ou pai que leva um mini são-paulino ao Morumbi, haverá uma combinação de resultado que nos salvará do rebaixamento. Enquanto houver esse amor do lado de cá, a bola vai entrar. Ou bater na trave. Só isso explica ainda não conhecermos a Série B mesmo tendo Sidão e Dênis no gol, nas últimas temporadas.

Vai ser o amor que nos trará de volta a dignidade. Mas não um amor passivo; pedinte. Já perdemos tempo, dinheiro e saúde demais nos apegando a um clube que não é mais: estamos todos presos à memória do São Paulo.

E, quem lembra demais, não vive. Não sente. E, como temos visto, não vibra.

*Lucca Bopp é publicitário e, não é preciso dizer, são-paulino doente. E sofredor.

Sobre o Autor

Juca Kfouri é formado em Ciências Sociais pela USP. Diretor das revistas Placar (de 1979 a 1995) e da Playboy (1991 a 1994). Comentarista esportivo do SBT (de 1984 a 1987) e da Rede Globo (de 1988 a 1994). Participou do programa Cartão Verde, da Rede Cultura, entre 1995 e 2000 e apresentou o Bola na Rede, na RedeTV, entre 2000 e 2002. Voltou ao Cartão Verde em 2003, onde ficou até 2005. Apresentou o programa de entrevistas na rede CNT, Juca Kfouri ao vivo, entre 1996 e 1999. Atualmente está também na ESPN-Brasil. Colunista de futebol de “O Globo” entre 1989 e 1991 e apresentador, de 2000 até 2010, do programa CBN EC, na rede CBN de rádio. Foi colunista da Folha de S.Paulo entre 1995 e 1999, quando foi para o diário Lance!, onde ficou até voltar, em 2005, para a Folha.

Colunas na Folha: https://blogdojuca.uol.com.br/lista-colunas-na-folha/

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