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Os tantos Manuéis merecem

Juca Kfouri

2024-05-20T19:19:52

24/05/2019 19h52

POR IRENE MAESTRO, AVANÍLSON ARAÚJO e GABRIELA MONCAU*

As chuteiras coloridas e surradas secavam no telhado do barraco.

A cena, cotidiana nas periferias de todo o Brasil, foi registrada na nossa Ocupação Esperança – que reúne cerca de 500 famílias na zona norte de Osasco na luta por moradia – e circulou em comovente reportagem publicada pelo UOL Esporte no último dia 15/5. Leia AQUI e AQUI.

As chuteiras de Manuel Messias, o Merece, carregam um pedaço da história do jogador de 27 anos, nascido em Bom Conselho (Pernambuco) e criado nas favelas da região metropolitana de São Paulo.

O zagueiro passou pelas categorias de base do Botafogo (RJ), pelo Cassimiro de Abreu (MG), pelo Cotia (SP), Operário (MT), Peruíbe (SP) e tentou jogar o Campeonato Paulista pelo Bragantino mas acabou dispensado, como acontece com dezenas de milhares de jogadores que lutam para viver do futebol no Brasil.

Mais de 80% deles recebe até R$1 mil de salário, enquanto outros 13% tem sua faixa salaria entre R$1 mil e R$5 mil.

Morador da Esperança junto com a mulher e quatro filhos, Merece é a cara da periferia.

Ganhou o apelido porque dizem que ele é merecedor de uma vida melhor. O barraco de madeira, a peregrinação país afora em busca de melhores condições de vida, a batalha pra botar comida dentro de casa, a luta política pela transformação das desigualdades sociais. "Viver entre o sonho e a merda da realidade", já resumiu Edi Rock.

Merece perdeu o pai assassinado e a mãe vítima de um AVC. Violência urbana, desalento no acesso à saúde pública, salário mirrado atrasado dificultando as melhorias dentro de casa é a contação de vida de tantos outros negros, nordestinos, trabalhadores pobres que moram na Ocupação Esperança e nas quebradas das grandes cidades.

Na nossa Ocupação, organizada pelo Movimento Luta Popular, como o nome já diz, a auto-organização cotidiana alimenta a esperança de conquistar não só um teto digno, mas uma sociedade menos desigual.

No Brasil, são mais de 7 milhões de famílias que, como a de Merece, são sem teto; enquanto isso, milhões de imóveis desocupados enchem as cidades à serviço da especulação imobiliária.

Além da história de "Merece", quando damos uma volta pela Ocupação Esperança, descobrimos um sambista escondido, um menino com talento para o rap, um grafiteiro, um operário que sabe criar uma máquina de bloco artesanal para ajudar a comunidade a se construir, os meninos e meninas que fazem parte do projeto da Capoeira todos os sábados de manhã – entre eles um dos filhos do nosso morador ilustre.

São inúmeros os exemplos de potências que esse sistema perverso anula e destrói todos os dias. Ou melhor, destrói não: tenta destruir.

Merece foi fundamental pra ajudar o Penapolense a escapar do rebaixamento da série A2 do Paulista, fazendo até um gol no clássico contra o Linense.

Quando viram a história do atleta na matéria do UOL, os torcedores, jogadores e presidente do clube resolveram se mobilizar. Duas torcidas organizadas, a Fanáticos e a Jovem, anunciaram que vão fazer uma partida beneficente pra arrecadar dinheiro e mantimentos pra família de Merece. E o clube ofereceu um pré-contrato para a disputa do Paulista A2 do ano que vem.

Aqui na Ocupação ficamos todos muito felizes com a repercussão da matéria sobre o nosso estimado morador.

A história de Merece é retrato de um Brasil esquecido pelos de cima mas também de um Brasil que se levanta todos os dias na luta por sobrevivência, dignidade, com base na solidariedade. Afinal, os debaixo sabem: nosso povo merece muito mais.

*Irene Maestro e Avanílson Araújo, militantes do movimento Luta Popular/Ocupação Esperança, e Gabriela Moncau, que ajuda a organizar a Ocupação Esperança e constrói a Capoeira Nzinga de Angola na comunidade.

Sobre o Autor

Juca Kfouri é formado em Ciências Sociais pela USP. Diretor das revistas Placar (de 1979 a 1995) e da Playboy (1991 a 1994). Comentarista esportivo do SBT (de 1984 a 1987) e da Rede Globo (de 1988 a 1994). Participou do programa Cartão Verde, da Rede Cultura, entre 1995 e 2000 e apresentou o Bola na Rede, na RedeTV, entre 2000 e 2002. Voltou ao Cartão Verde em 2003, onde ficou até 2005. Apresentou o programa de entrevistas na rede CNT, Juca Kfouri ao vivo, entre 1996 e 1999. Atualmente está também na ESPN-Brasil. Colunista de futebol de “O Globo” entre 1989 e 1991 e apresentador, de 2000 até 2010, do programa CBN EC, na rede CBN de rádio. Foi colunista da Folha de S.Paulo entre 1995 e 1999, quando foi para o diário Lance!, onde ficou até voltar, em 2005, para a Folha.

Colunas na Folha: https://blogdojuca.uol.com.br/lista-colunas-na-folha/

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