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De onde vêm os jogadores das principais Ligas do mundo

Juca Kfouri

12/05/2019 00h00

Leia AQUI a matéria do jornal "Nexo".

POR HUMBERTO MIRANDA*

A interessante reportagem do "Nexo" faz pensar.

Temos muitos jogadores bons (e não jogadores muito bons), somos um celeiro ainda, mas, no futebol como na economia, somos periferia: mais fornecemos jogadores aos mercados do mundo do que aproveitamos todo nosso potencial.

São jogadores bons para negócio. O aproveitamento do potencial também está na forma como se vende, não se trata, portanto, de propor uma nacionalização forçada para os jogadores ficarem aqui e renderem títulos aos clubes.

O fato é que, se eles ficam, não renderiam muito dinheiro e a carreira acabaria prematuramente.

O potencial a que me refiro tem a ver com o fato de que só vendemos, mas não estruturamos nada ou muito pouco internamente com essas negociações.

Como diz a bela canção interpretada por Elza Soares: "a carne mais barata do mercado é a carne negra" ou a do jogador de futebol, quase todos pretos e quase brancos quase pretos.

Será que esse destino de transladar "pé de obra" além-mar é uma forma de empurrar com a barriga nosso problema social?

Dado o perfil de nosso jogador, creio que há evidências nesse sentido: vendemos para não estruturar nada permanente e que eleve o padrão de vida da sociedade.

A família do jogador bem vendido melhora consideravelmente, óbvio, mas a sociedade continua a reproduzir a desigualdade, uma espécie de meritocracia às avessas (ganhar individualmente para permanecer na mesma socialmente), porque a meritocracia, nesse caso, não parte de uma situação de equidade.

Uma análise dos 13 maiores clubes brasileiros bastaria para vermos porque são ainda tão precários material e imaterialmente.

Também no futebol (e no esporte em geral, que reproduz as mesmas situações) a América Latina é, inteira, periférica no sentido consagrado por Celso Furtado, ou seja, organizamos internamente em cada região e em cada estado da federação verdadeiros mercados cativos de jogadores, comandados por uma oligarquia interna, que se apropriam ainda de uma parte robusta das vendas externas, mas não a aplica produtivamente.

O fato é que, nem aumentando a colheita de dólares, euros, yenes e yuans, os clubes e os times decolam.

Para onde vai o dinheiro? Por que ele desaparece?

Não, não é simplesmente por roubalheira, mas por falta de canais de investimento.

O futebol nacional pouco se explora como negócio empresarial. No máximo, imitamos mal o que os europeus fazem, mas lá o torcedor tem renda, o que faz uma diferença enorme. O desafio aqui é gerar renda com o futebol não só para clubes e jogadores, e o resultado estamos cansados de ver: violência dentro do esporte.

Tanto é que a violência virou um mercado de entretenimento com as lutas de MMA e tais. Os clubes grandes não investem em escolas de futebol para a comunidade nas principais cidades de seu estado, por exemplo.

Por outro lado, os empresários dos jogadores brasileiros, uma espécie de agente do capital mercantil, tornaram-se parte intermediária poderosa, porque viabilizam a comercialização para o clube.

O próprio clube, apesar de fazer o trabalho mais importante de formar ou revelar o jogador, não tem controle sobre o seu próprio mercado.

Aí quando aparecem os clubes-empresa, sem lastro social (sem torcida), fazemos um modernização das transações, mas não do esporte.

O clube-empresa que temos tem como função valorizar o jogador contratado a baixo preço. Ele internaliza a lógica do capital mercantil, mas não muda efetivamente nada de mais estrutural e organizacional, torna-se apenas mais um negócio de vender jogador. Nesse sentido, ele revela a incapacidade dos clubes em aproveitar todo o potencial do negócio, especialmente desde a formação do jogador.

O que os clubes fazem hoje? Os grandes contratam especialistas (geralmente economistas) para sanear as contas.

Fazem muito pouco, embora achem muito.

Isso é necessário, mas serve para um momento e não para o longo prazo.

Volta e meia, os clubes voltam à mesma situação de penúria. Sem falar que esse tipo de economista é mais financista que economista, não têm capacidade de ir além da planilha de receitas e gastos do clube.

Desconhecem longo prazo como trabalho. Tratam apenas como algo que deriva de tudo que se faz a curto prazo. Obviamente, estes economista não leram e nem gostam de Celso Furtado.

As fontes de recursos dos clubes (Timemania, por exemplo) no Brasil são, por incrível que pareça, oficiais e servem de fundo para sustentar endividamento de clube de futebol.

Atenção: só tem sentido existir fundo público quando é para fazer investimento com retorno social.

E os clubes não sabem aproveitar isso. Apenas diluem o risco financeiro e contratam de forma perdulária. O risco, na prática, fica com o jogador. Esse então ignora seu papel.

Não, o jogador não nasceu só para jogar bola. Alguns só aprendem isso depois que se aposentam e/ou jogam várias temporadas no exterior em grandes clubes.

Chegam aqui e dizem que lá a cultura é diferente, mas nunca se perguntam por quê.

Caso o jogador tenha alguma lesão, a mercadoria se desvaloriza rapidamente e ele é substituído por outro (a fila anda). Ele não tem autonomia econômica sobre a própria carreira.

Sim, a meu ver, isso também é resultado, ainda segundo Furtado, de uma estrutura social cuja matriz é perversa.

No caso brasileiro, não é somente o fato de ter tido a escravidão (razão pela qual eu concordo só parcialmente com as teses de Jessé Souza), mas pela forma como o mercado de trabalho foi estruturado pós-Abolição.

Em resumo, esse mercado foi mais resultado do nosso tipo de modernização capitalista do que do passado escravista. Não adianta ficar justificando o presente no passado se não perguntar o por que, como sociedade moderna, não rompemos com isso?

A nossa incapacidade civilizatória de enfrentar os desafios da economia capitalista, criou um modelo socioeconômico que só avança com os 'de cima' e ignora os 'de baixo', e tira recorrentemente a possibilidade de 'os de baixo' superarem as amarras da desigualdade.

Quando conseguimos montar um projeto nacional ou ele é autoritário ou serve-se em grande medida de uma jogo de conciliação de classes que reproduz a lógica de não mexer na vida financeira 'dos que quem já tem muito', mas apenas melhorar um pouco a situação 'dos que não têm quase nada'.

Oliveira Viana, um intelectual conservador, chamava isso de "espírito insolidarista", privatista, fala de espírito público das elites nacionais.

Sim, sei. Tem gente que acha que isso que estou dizendo é exagero quando aplicado ao futebol.

Até porque acham que futebol é futebol, não tem nada a ver com tais questões.

Pode até ser, dado o insolidarismo reinante atualmente.

Todavia, essa é uma mentalidade historicamente construída e que, enquanto vigorar em parte da da classe média e da imprensa inclusive, só tenderá a beneficiar protótipos de Havelange e Teixeiras que continuam a surgir.

*Humberto Miranda é professor de Economia na UNICAMP.

Sobre o Autor

Juca Kfouri é formado em Ciências Sociais pela USP. Diretor das revistas Placar (de 1979 a 1995) e da Playboy (1991 a 1994). Comentarista esportivo do SBT (de 1984 a 1987) e da Rede Globo (de 1988 a 1994). Participou do programa Cartão Verde, da Rede Cultura, entre 1995 e 2000 e apresentou o Bola na Rede, na RedeTV, entre 2000 e 2002. Voltou ao Cartão Verde em 2003, onde ficou até 2005. Apresentou o programa de entrevistas na rede CNT, Juca Kfouri ao vivo, entre 1996 e 1999 e foi colaborador da ESPN-Brasil entre 2005 e 2019. Colunista de futebol de “O Globo” entre 1989 e 1991 e apresentador, de 2000 até 2010, do programa CBN EC, na rede CBN de rádio. Foi colunista da Folha de S.Paulo entre 1995 e 1999, quando foi para o diário Lance!, onde ficou até voltar, em 2005, para a Folha, onde permanece com sua coluna três vezes por semana. Apresenta, também, o programa Entre Vistas, na TVT, desde janeiro de 2018.

Colunas na Folha: https://blogdojuca.uol.com.br/lista-colunas-na-folha/

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