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Beth Carvalho, Botafogo e Bolsonaro

Juca Kfouri

2001-05-20T19:20:01

01/05/2019 20h01

Por MARCELO TORRES*

"O sol… há de brilhar mais uma vez", diz a clássica canção de Nelson Cavaquinho. "A luz… há de chegar aos corações", ouço Beth Carvalho.

Na última terça, último dia de abril — este abril despedaçado — o Rio, o Brasil e o mundo perderam uma das vozes mais autênticas, uma das artistas mais engajadas: Elizabeth Santos Leal de Carvalho.

Torcedora símbolo do Botafogo, eterna rainha da Mangueira, carinhosamente chamada "a madrinha do samba", nasceu no Rio, em 5 de maio de 1946 — na próxima segunda-feira completaria 73 anos de idade.

Antes de cremado, seu corpo foi velado na sede do Botafogo. O alvinegro era uma de suas grandes paixões, como o Rio, o Brasil, a política, a música, o samba e as cores verde e rosa da Estação Primeira de Mangueira.

Beth gravou 34 discos em 50 anos de carreira, tendo recebido seis vezes o Prêmio Sharp, 17 vezes o Disco de Ouro, nove vezes o Discos de Platina e teve ainda mais de cem premiações no Brasil e no mundo.

A mãe: Maria Nair Santos Leal, tocava piano clássico, era funcionária da Casa da Moeda e fã de Godard e Truffaut. O pai: João Francisco Leal de Carvalho, funcionário da alfândega, conhecido como João das Guerrilhas, militante do Partido Comunista Brasileiro, em 1964 foi demitido, preso e perseguido pela ditadura militar.

Segundo o site oficial da cantora, desde criança ela foi incentivada pela família para a música. Com oito anos se emocionava ouvindo Aracy de Almeida, Elizeth Cardoso e Sílvio Caldas, entre outros bambas — que eram amigos do seu pai e frequentavam sua casa.

Amigos, parentes, artistas, músicos e fãs foram ao velório da cantora. "Obrigado, Beth, tudo que nos é caro faz falta", agradeceu Nelson Sargento, 94 anos. "Eu não seria o que sou se não fosse ela", disse Zeca Pagodinho. "Ela colocou a gente em outro patamar", falou outro bamba, Jorge Aragão. "É um momento de muita dor para todos nós", afirmou Dudu Nobre.

Quem não pôde ir mandou alguma mensagem de solidariedade ou prestou algum tipo de homenagem à cantora. Caetano Veloso, por exemplo: "Beth é uma das maravilhas do Brasil, uma das maiores expressões da nossa cultura". Gilberto Gil: "Madrinha do samba e referência para tantos artistas, fará muita falta nos palcos e na vida de todos nós".

Martinho da Vila: "Perdemos a 'madrinha do samba', Beth Carvalho deixa um enorme legado para música brasileira e nós só podemos agradecer por tanto!". Paulinho da Viola: "Beth Carvalho terá seu lugar entre aqueles que contribuíram para a construção do patrimônio musical brasileiro., sua importância se estende também aos compositores cujas obras ela deu voz".

Também publicaram mensagens em suas páginas nas redes sociais: Marisa Monte, Alcione, Lenine, Margareth Menezes, Diogo Nogueira, Djavan, Elza Soares, Gal Costa, Fátima Bernardes, Preta Gil, Hamilton de Holanda, Léo Jaime, Daniela Mercury, Regina Casé, Zélia Duncan e muitos outros artistas.

No mundo da política, dezenas de figuras públicas, até mesmo de linha ideológica diferente, divulgaram notas sobre a morte da cantora. O ex-jogador e hoje senador Romário (em quem Beth não votou), afirmou o seguinte: "Hoje se calou uma das vozes mais bonitas do samba, Beth Carvalho. Ela que deu emoção às mais lindas composições, vai continuar embalando nosso amor ao samba".

Já o prefeito do Rio, Marcelo Crivella (contra quem Beth fez campanha), falando em nome dos cariocas, disse o seguinte: "Beth Carvalho eternizou alguns dos momentos mais belos da música brasileira. Sua voz suave em mais de 50 anos de carreira, nos deixou interpretações inesquecíveis de Cartola, Nelson Cavaquinho e outros tantos mestres. Generosa, era chamada de Madrinha do Samba por incentivar jovens talentos que vieram a se consagrar. Hoje o Rio entardeceu triste, mas, como Beth ensinou, iremos achar o tom. Neste momento de tristeza, saudade e dor, peço a Deus que conforte sua família e legião de amigos e fãs".

O governador do estado do Rio, Wilson Witzel (outro contra quem Beth fez campanha), de forma civilizada e em nome do povo fluminense, divulgou nota oficial: "Lamento profundamente a morte de Beth Carvalho, uma das melhores e mais importantes cantoras do nosso país. Seus sambas embalaram da minha infância até os dias de hoje. Na sua longa e bem-sucedida carreira musical, essa grande intérprete do samba carioca reuniu, ao longo de cinco décadas, fãs de todas as idades, unindo o país em torno da beleza da sua voz e das suas canções. O Estado do Rio de Janeiro hoje ficou mais triste. Compartilho a dor de todos os admiradores e me solidarizo com os familiares e amigos".

Mas… e o Presidente da República, o também botafoguense Jair Messias Bolsonaro, o que disse? O que fez? O que decretou?

Nada, ora! Necas.

O homem que foi colocado na Presidência da República por 57 milhões dos 149 milhões de eleitores, não fez nada, não disse um "a" nem um "b". Está em estúpido silêncio. Pelo simples fato de não gostar das ideias da artista.

Para o homem que, pela crueldade do destino, virou Chefe de Governo e, pior, Chefe de Estado, Beth Carvalho não existe.

Em sua carreira, a cantora ajudou a divulgar o Brasil em centenas de cidades, em diferentes países e continentes. Em Atenas, onde há um busto em sua homenagem, representou o nosso país na Olimpíada Mundial da Canção.

Apresentou-se também em Munique, Frankfurt e Berlim, na Alemanha; em Nice, Toulouse e Paris, na França; em Pádova e Milão, Itália; em Madrid, Espanha; em Espinho e Lisboa, Portugal (num show para 300 mil pessoas); em Viena, Áustria; Zurique e Montreux, Suíça; no Carneggie Hall, em Nova Iorque, na Universidade de Harvard, em Boston, Miami, São Francisco, Nova Jersey, Los Angeles, Chicago; em Soweto, Luanda e Johannesburgo, na África, além de Buenos Aires e Montevidéu, na América do Sul.

Só para se ter uma ideia da grandeza e do alcance da obra de Beth Carvalho, a canção Coisinha do Pai, interpretada por ela, foi tocada no espaço sideral em 1997, quando a NASA programou a música para 'acordar' o robô Sojourner, enviado em missão a Marte.

Ora, Marte não é "o planeta vermelho"? Então deve ser isto.

Quem nasceu apenas para ser militar, como ele admitiu em lapso de sinceridade (e mesmo assim sua carreira militar foi abreviada por um processo disciplinar, sendo jogado para a reserva), não deve ter vocação para estadista.

De um Chefe de Estado, o mínimo que se espera é que seja um estadista, com a grandeza, a postura e a civilidade que a nobre função requer e exige.

Mas sigamos. "Hoje você é quem manda/ Falou, tá falado/ Não tem discussão/ A minha gente hoje anda falando de lado/ E olhando pro chão, viu/ Você que inventou esse estado/ E inventou de inventar toda a escuridão…".

Talvez o melhor a fazer é parafrasear o Samba da Minha Terra, de Dorival Caymmi, que a cantora tão bem interpretou. "Quem não gosta da madrinha do samba/ Bom sujeito não é/ É ruim da cabeça/ Ou é doente do pé".

*Marcelo Torres é jornalista, baiano, mora em Brasília, torce pelo Vitória e em julho lança "Os nomes da rosa", coletânea de crônicas sobre futebol e literatura.

Sobre o Autor

Juca Kfouri é formado em Ciências Sociais pela USP. Diretor das revistas Placar (de 1979 a 1995) e da Playboy (1991 a 1994). Comentarista esportivo do SBT (de 1984 a 1987) e da Rede Globo (de 1988 a 1994). Participou do programa Cartão Verde, da Rede Cultura, entre 1995 e 2000 e apresentou o Bola na Rede, na RedeTV, entre 2000 e 2002. Voltou ao Cartão Verde em 2003, onde ficou até 2005. Apresentou o programa de entrevistas na rede CNT, Juca Kfouri ao vivo, entre 1996 e 1999. Atualmente está também na ESPN-Brasil. Colunista de futebol de “O Globo” entre 1989 e 1991 e apresentador, de 2000 até 2010, do programa CBN EC, na rede CBN de rádio. Foi colunista da Folha de S.Paulo entre 1995 e 1999, quando foi para o diário Lance!, onde ficou até voltar, em 2005, para a Folha.

Colunas na Folha: https://blogdojuca.uol.com.br/lista-colunas-na-folha/

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