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A perigosa camisa do Madureira

Juca Kfouri

14/05/2019 08h17

POR RICARDO PORTO*

Depois perguntam por que o torcedor não vai ao estádio. Perguntam com respostas na cabeça: é por causa da violência, porque o futebol é ruim, porque não tem mais craque, porque tem mais o que fazer. Tudo isso pode ser verdade.

Melhor buscar a verdade entre os que vão. Esses sabem que a cultura de arquibancada está sendo assassinada lentamente, a cada quarta e domingo, até que não reste sobre o cimento um único resquício de amor ao futebol. Até que todos ali sejam "clientes" de mais um espetáculo. E apenas isso.

No último sábado, fui ao Maracanã ver Fluminense e Botafogo. Sou um torcedor antigo e das antigas: não gosto de vestir a camisa do time que torço em jogos. Por superstição ou hábito, raramente estou uniformizado. Camisa basta a que veste meu coração.

Fui então prestar homenagem ao futebol. Porque é esse o papel do torcedor. O torcedor compõe o universo dos jogos. Sem ele, nada daquilo teria sentido algum.

Vesti a camisa do Madureira, camisa dos 100 anos do tricolor suburbano, time pelo qual tenho enorme admiração e é o primo pobre do Fluminense no futebol carioca. Muitas vezes assisti a jogos na arquibancada com essa camisa, e sempre me senti acolhido pela torcida.

Na fila de entrada, a revista agressiva de sempre.

– Tô liberado?

– Não… peraí. – diz o funcionário. Vou ter que pedir uma autorização.

– Pra quê?, pergunto surpreso.

– Sua camisa… não pode entrar com essa camisa.

E ele grita para uma policial:

– Olha aqui, vai ter que tirar, né?

Chega uma PM irritada.

– Não pode entrar com essa camisa.

– Camisa do Madureira – argumento. Já vim ao estádio várias vezes com ela. Qual é o problema?

– Nossa orientação é não permitir a entrada.

– Baseada em quê?

– Segurança.

A essa altura, um grupo de torcedores já observava a cena. A maioria com olhares de incredulidade. Afinal, qual o perigo de uma camisa do Madureira?

– Vocês agora querem tomar conta do meu corpo? – reagi já perdendo a paciência.

– Chama o sargento! – gritou a moça PM para não sei quem enquanto se virava pra mim. – O Sr. fique calmo.

Chega o tal sargento, cara de poucos amigos.

– Isso aqui é uma camisa do Madureira, já entrei várias vezes no Maracanã assim. Qual é o problema hoje? – fui encurtando a história.

– Boa tarde, né! – vociferou o sargento.

– Boa tarde.

– O senhor sabe que isso é proibido.

– Eu? Não. Eu uso camisa de vários times. Essa é do Madureira…

– Mas nós estamos zelando pela sua segurança. Se alguém agride o senhor por causa da camisa. Temos que conter a violência.

– Bom. Só se vai começar agora. Nunca houve isso. Estou com amigos. Isso é futebol.

Sem saber o que fazer, ele se vira para a companheira de farda.

– E aí? Já decidiu?

– Eu chamei você pra decidir – responde a moça.

Fico olhando para os dois. Patéticos policiais tomando decisões para as quais não foram preparados. Pensando, refletindo, sem excludente de ilicitude. Difícil.

– Libera logo! – grita um torcedor.

– É… libera! – acode outro.

Na pressão, o PM está perdido.

– Tá bom. Pode ir.

– Isso aqui é futebol. – foi minha única reação antes de seguir em frente apressado.

Talvez ele nunca saiba que futebol é algo muito além do seu manual.

Viva a cultura de arquibancada!

*Ricardo Porto é jornalista.

Sobre o Autor

Juca Kfouri é formado em Ciências Sociais pela USP. Diretor das revistas Placar (de 1979 a 1995) e da Playboy (1991 a 1994). Comentarista esportivo do SBT (de 1984 a 1987) e da Rede Globo (de 1988 a 1994). Participou do programa Cartão Verde, da Rede Cultura, entre 1995 e 2000 e apresentou o Bola na Rede, na RedeTV, entre 2000 e 2002. Voltou ao Cartão Verde em 2003, onde ficou até 2005. Apresentou o programa de entrevistas na rede CNT, Juca Kfouri ao vivo, entre 1996 e 1999 e foi colaborador da ESPN-Brasil entre 2005 e 2019. Colunista de futebol de “O Globo” entre 1989 e 1991 e apresentador, de 2000 até 2010, do programa CBN EC, na rede CBN de rádio. Foi colunista da Folha de S.Paulo entre 1995 e 1999, quando foi para o diário Lance!, onde ficou até voltar, em 2005, para a Folha, onde permanece com sua coluna três vezes por semana. Apresenta, também, o programa Entre Vistas, na TVT, desde janeiro de 2018.

Colunas na Folha: https://blogdojuca.uol.com.br/lista-colunas-na-folha/

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