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70 anos de uma grande tragédia

Juca Kfouri

04/05/2019 00h00

Por Marcelo Torres*

Foi num 4 de maio, no ano de 1935, que nasceu Sanfilippo, o craque argentino José Francisco Sanfilippo, que até andou jogando aqui no Brasil, no Bangu e no Bahia.

Também foi num 4 de maio, em 1943, que nasceu Asparuhov, o maior jogador da Bulgária, ele que disputou três Copas do Mundo (1962/1966/1970) e faleceu em 1971.

Mas, no baú do esporte, o dia 4 de maio marca uma das maiores tragédias do futebol mundial.

Em 4 de maio de 1949, portanto há 70 anos, praticamente todo o elenco do Torino, da Itália, que talvez fosse melhor time do mundo à época, morreu em acidente aéreo.

Naquela década de 1940, o Torino era o grande time de Turim, da Itália e da Europa. Se já houvesse a Liga dos Campeões, seria o grande favorito.

Até aquele ano, só haviam sido disputadas três copas do mundo (1930, 1934 e 1938), e a Itália era a grande bicampeã, tendo vencido as duas últimas.

O Torino dos anos quarenta ganhou seis títulos nacionais, cinco vezes de forma consecutiva, batendo recorde atrás de recorde: número de pontos, número de vitórias, maiores goleadas.

A hegemonia do "Toro" era tamanha nos finais dos anos 1940 que, em alguns jogos da seleção italiana, todos os 10 jogadores de linha eram do Torino, apenas o goleiro não era do time de Turim.

A narrativa da tragédia começa dois meses e sete dias antes, no dia 27 de fevereiro, quando a seleção italiana jogou amistoso em Lisboa contra o selecionado português e venceu: 4 x 1.

Após a partida, o capitão da seleção lusa, Francisco Ferreira, que estava encerrando a carreira, pediu aos dirigentes italianos um amistoso do Torino com o Benfica, o clube que defendia.

O presidente do clube de Turim, de início, não queria o amistoso, porque o clube estava liderando o campeonato italiano e faltavam quatro rodadas para o final. Mas acabou cedendo e confirmando o jogo para o dia 3 de maio.

A peleja entre Benfica e Torino foi realizada na noite do dia 3 de maio e terminou com vitória dos anfitriões: 4 x 3, para um público de 40 mil pessoas.

No dia seguinte, de manhã, o avião, que tinha capacidade para 34 passageiros, decolou em Lisboa e fez escala para reabastecer em Barcelona.

Porém, da Espanha para a Itália, quando se aproximava para pousar em Turim, sob um forte nevoeiro, chocou-se com uma parte da Basílica de Superga.

Não houve sobreviventes.

Dos 31 passageiros, 18 eram atletas e cinco da comissão técnica do clube, os demais eram tripulantes e jornalistas que cobriam os jogos da equipe.

Cerca de 500 mil pessoas acompanharam os funerais.

O clube escalou sua equipe juvenil nas quatro últimas rodadas do campeonato italiano.

Seus rivais, na época, em solidariedade e justiça, também escalaram equipes juvenis.

O Torino venceu todos os jogos e sagrou-se pentacampeão.

Depois da tragédia, o clube até foi campeão na temporada 1975/1976, mas nunca mais recuperou a hegemonia do futebol no país e na própria cidade.

Seu arquirrival, a Juventus, conquistou Turim, a Itália, a Europa e o mundo.

Aliás, ontem (03/05), véspera da "data infeliz", os rivais se enfrentaram.

O Torino esteve na frente do campeão, mas cedeu o empate no final do jogo.

Em agosto do ano passado, irmanados por tragédias semelhantes, Chapecoense e Torino fizeram um jogo amistoso em Turim, com 2 a 0 para os anfitriões.

Neste sábado, nos gramados de todo o mundo, supõe-se que será respeitado um minuto de silêncio por essa triste página do futebol.

*Marcelo Torres, jornalista, baiano, mora em Brasília, é torcedor do Vitória.

Sobre o Autor

Juca Kfouri é formado em Ciências Sociais pela USP. Diretor das revistas Placar (de 1979 a 1995) e da Playboy (1991 a 1994). Comentarista esportivo do SBT (de 1984 a 1987) e da Rede Globo (de 1988 a 1994). Participou do programa Cartão Verde, da Rede Cultura, entre 1995 e 2000 e apresentou o Bola na Rede, na RedeTV, entre 2000 e 2002. Voltou ao Cartão Verde em 2003, onde ficou até 2005. Apresentou o programa de entrevistas na rede CNT, Juca Kfouri ao vivo, entre 1996 e 1999 e foi colaborador da ESPN-Brasil entre 2005 e 2019. Colunista de futebol de “O Globo” entre 1989 e 1991 e apresentador, de 2000 até 2010, do programa CBN EC, na rede CBN de rádio. Foi colunista da Folha de S.Paulo entre 1995 e 1999, quando foi para o diário Lance!, onde ficou até voltar, em 2005, para a Folha, onde permanece com sua coluna três vezes por semana. Apresenta, também, o programa Entre Vistas, na TVT, desde janeiro de 2018.

Colunas na Folha: https://blogdojuca.uol.com.br/lista-colunas-na-folha/

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