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Quaresma

Juca Kfouri

2019-04-20T19:19:10

19/04/2019 19h10

POR LUIZ GUILHERME PIVA

Jogava muito, mas guardava a Quaresma com fervor radical: nada de bebida, de cigarro, de namoro, nem de carne. A bem dizer, na verdade quase não comia. Uma aguinha, uns pedacinhos de pão, chá, no máximo uma canja rala quando a fraqueza o abalava. E as hóstias nas missas diárias.

Por ele, não jogaria no período. Mas era justamente a época do torneio regional, que começava bem no aniversário da vila. Bairros e roças do entorno se mobilizavam, punham banda na abertura, pintavam as traves, corrigiam um pouco os formigueiros e murundus, compravam troféus e medalhas douradas, deixavam uniformes limpos e mobilizavam suas respectivas torcidas.

Era o craque. O artilheiro. O que levava as moças pra assistir aos jogos.

Fizeram um acerto em dinheiro, buscavam, levavam, ele aceitou.

Por três anos, não houve problema. O calendário do torneio e a Quaresma coincidiram só parcialmente. Em dois domingos, praticamente. Num torneio de doze domingos, deu pra levar. Ele chegou fraco, mas se garantiu na reta final com toquinhos e alguns bons passes – mesmo sem aguentar o jogo inteiro. Conquistaram o tricampeonato.

Mas naquele ano a preocupação se instalou: os sete últimos domingos do torneio eram a Quaresma, incluindo a final, no Domingo de Páscoa.

Nos cinco primeiros domingos, tudo normal. Largaram na frente, venceram todas, ele ponteou a artilharia. Incluindo o jogaço do domingo de Carnaval, em que ele foi da farra direto pro campo e arrebentou: fez quatro gols, e os companheiros, nos abraços, sentiam forte o bafo de álcool.

Mas aí veio o jejum e o debilitamento. O primeiro jogo ainda deu pra levar, até com um golzinho dele, de pênalti, mas o time perdeu. No segundo, só meio tempo em campo, uns passes e mais nada. Derrota.

No terceiro, goleada. A classificação entrou em risco, a torcida, em pânico, os colegas, em desespero.

Ele cada vez mais fraco. Em geral, sem torneio, ele ficaria deitado o dia todo ("em penitência", dizia), sairia pra missa amparado pelos irmãos e voltaria pra cama. Mas agora tinha torneio, tinha jogo aos domingos, o time precisava dele. Faltavam quatro jogos e o quadro ("tá uma desgraceira que faz gosto", diagnosticou o farmacêutico que foi examiná-lo em casa) era de eliminação iminente.

Falaram com a mãe, com a madrinha, com a família inteira, levaram as moças da torcida pra implorar que ele comesse, que se recuperasse. "Se quiserem que eu jogue, eu jogo", balbuciou, "mas meu sacrifício eu levo até o final". E tossiu.

O dono do time, que era meio ateu, quis sacudi-lo na cama, chegou a pegá-lo pelos ombros, mas o pessoal o segurou enquanto ele berrava: "Você acha que vai jogar bola no céu, acha?". Saiu chutando a porta, mas deu pra ouvir o artilheiro assoprar: "Este é um período de arrependimentos: refleti, arrependei e mudai" – uma conjugação que a turma estranhou, mas que ele decorara nas tantas e tantas missas a que assistia.

Nono jogo. Buscaram-no, só que ele era um trapo, um fiapo, um saco vazio. Chegou a vestir a camisa e a tentar amarrar a chuteira. Mas desmaiou. O dono do time partiu pra cima pra, sabe-se lá, enchê-lo de tapas, tamanha a raiva. Seguraram-no. Não deu outra: perderam de novo.

Por sorte, o rival empatado em pontos perdeu também. Ficou tudo nivelado, mas, com três rodadas pela frente, com o craque naquele estado ("Na Sexta-Feira Santa eu vou crucificá-lo", berrava pela cidade o dono do time), a perspectiva era muito ruim ("Se não morrer, penduro ele no poste no Sábado de Aleluia e taco fogo"). E completava: "Quero ver ressuscitar no domingo, quero ver!".

Foram ao padre local – menos o dono, que não entrava em igreja. Explicaram tudo. O padre disse que nada poderia fazer. Era a fé, tinha que ser respeitada. "Deus admira seus fiéis mais ardorosos."

Mas o sacristão ouviu tudo. Acompanhava o drama do time, mesmo sem apreciar futebol. Pediu licença ao padre e mostrou no celular a pesquisa que fizera: "a Quaresma vai da Quarta-Feira de Cinzas até a Quinta-feira Santa".

"Então ele pode começar a comer na sexta, se recuperar e jogar no Domingo de Páscoa?", perguntaram.

O padre leu e assentiu:

"É verdade, ele pode jogar. Mas a tradição que se consolidou estende a Quaresma até o Sábado de Aleluia. Só na Páscoa é que se deve abandonar a penitência."

"Não dá, ele vai estar muito fraco ainda." "E também já seria tarde", lamentaram. "Na última rodada estaremos sem chances."

O sacristão:

"Mas vejam – com sua licença, padre –, se contarmos os dias, dá mais de quarenta na Quaresma!".

Contaram: quarenta e sete!

O sacristão: "Sabem por quê?".

O padre: "É verdade!". Lembrou-se dos ensinamentos e disse antes do sacristão:

"Os domingos não requerem a penitência porque eles simbolicamente celebram a Ressureição!"

E vibrou, porque, diferentemente do sacristão, era torcedor e acompanhava as partidas do time, além de fã do craque penitente.

Fizeram as contas: exatamente os sete domingos a mais! Se ele se alimentasse normalmente nos dias de jogos, já bastaria. O tetracampeonato passou a ser factível novamente! E todos os campeonatos dos anos seguintes!

Correram à casa dele, o padre e o sacristão junto, e contaram a brecha eclesiástica. Ele duvidou, mas a bênção do padre e os esguichos de água benta do sacristão o convenceram.

"Topo!", murmurou. "Domingo estarei lá com café da manhã e almoço reforçados!" E tossiu.

O rastilho de euforia correu a cidade, passou vielas, subiu morros, fez poeira nas roças, cruzou calçadas, balançou roupas estendidas, amontoou-se nos jardins e parecia a ponto de explodir em fogos brilhantes no céu – mas deu de cara com o dono do time sentado no alpendre.

E ali parou.

"Não joga!"

Bocas em O, braços em W, sobrancelhas em til!

"Não joga!"

"Mas vamos perder o campeonato!"

"Vamos. É isso o que eu quero!"

Interrogações encheram o ar como balões.

"É a nossa penitência. Refleti, me arrependi e mudei: a derrota vai salvar as almas de todos nós!"

Levantou-se e entrou.

Alguns juram que o viram fazer o sinal da cruz. Outros garantem que ele sorria, sarcástico.

Logo, voltou à varanda e disse: "Refleti, arrependei e mudai também todos vós".

Todos de ombros baixos, em silêncio, contritos.

E completou: "E digam ao nosso craque que vá para o quinto dos infernos!"

Acabaram-se ali o tetracampeonato, o time e os torneios.

E então saíram todos, em fúria, com o padre e o sacristão à frente, para a casa do craque.

Iam tirar satisfação a qualquer preço.

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Luiz Guilherme Piva publicou "Eram todos camisa dez" e "A vida pela bola" – ambos pela Editora Iluminuras.

Sobre o Autor

Juca Kfouri é formado em Ciências Sociais pela USP. Diretor das revistas Placar (de 1979 a 1995) e da Playboy (1991 a 1994). Comentarista esportivo do SBT (de 1984 a 1987) e da Rede Globo (de 1988 a 1994). Participou do programa Cartão Verde, da Rede Cultura, entre 1995 e 2000 e apresentou o Bola na Rede, na RedeTV, entre 2000 e 2002. Voltou ao Cartão Verde em 2003, onde ficou até 2005. Apresentou o programa de entrevistas na rede CNT, Juca Kfouri ao vivo, entre 1996 e 1999. Atualmente está também na ESPN-Brasil. Colunista de futebol de “O Globo” entre 1989 e 1991 e apresentador, de 2000 até 2010, do programa CBN EC, na rede CBN de rádio. Foi colunista da Folha de S.Paulo entre 1995 e 1999, quando foi para o diário Lance!, onde ficou até voltar, em 2005, para a Folha.

Colunas na Folha: https://blogdojuca.uol.com.br/lista-colunas-na-folha/

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