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O baba na Bahia

Juca Kfouri

2015-04-20T19:15:00

15/04/2019 15h00

POR MARCELO TORRES*

João Ubaldo Ribeiro, escritor, imortal da Academia Brasileira de Letras, baiano de Itaparica e torcedor do Vitória, sempre colocou o "idioma baianês" na fala de seus personagens.

No romance "Sargento Getúlio", por exemplo, há um trecho em que o narrador reclama: "No meio daquele baba todo, o homem querendo fazer discurso". E lamenta: "Perdemos dois votos no baba".

Se você não é baiano, talvez esteja a estranhar a palavra baba no masculino. "No meio daquele baba", "perdemos dois votos no baba". Deve estar aí se perguntando: "Mas que diabo é esse baba?"

Na Bahia, amigo, a coisa mais comum do mundo é você chamar: "Bora bater um baba". De todo modo, vamos analisar esta frase a partir das três palavras começadas com a letra "b".

"Bora", outrora, era "vamo-nos em boa hora". Por corruptela, sofreu variações na fala coloquial em muitos lugares do país para vambora, rumbora, vamimbora e muitas outras.

Já o verbo "bater" nos oferece mil e um significados. No futebol, então, é que é uma festa: bater lateral, por exemplo, é fazer um arremesso manual; bater um pênalti é fazer a cobrança de um tiro penal; bater de primeira é chutar a bola assim que ela chega.

Tem mais: bater a carteira é roubar (tomar) a bola do adversário; bater roupa é quando o goleiro não segura a bola e esta escapa de suas mãos; bater na trave, dizem os narradores românticos, é quando a bola caprichosamente beija a baliza.

Tem vez que a bola bate na mão. Tem vez que é a mão que bate na bola. Bater canela é se atrapalhar. E tem outro uso muito comum: "São Paulo bate Palmeiras nos pênaltis". Há o bate-boca, o bate-bola, o bate-rebate — enfim, no futebol, bater é batata.

Agora vamos à palavra "baba".

Em consulta ao pai-dos-burros, este oferece pelo menos dez significados para o verbete: é a saliva que escorre — como baba de criança ou baba de cachorro; é aquela substância viscosa que há em certos vegetais — como a baba de quiabo.

Diz-se, também, que é algo muito fácil e barato. "Paguei uma baba", ou seja, pagou uma pequena quantia, uma bagatela, uma nonada, como diria Guimarães Rosa.

E outro dia, em Brasília, chamei uns amigos: "Bora bater um baba".

— "Bora bater" é "vamos comer" — disse o brasiliense, que lida com amigos de outros sotaques. — Você está nos convidando para comermos um prato típico da Boa Terra?

— Não — respondi a ele, que deve ter associado baba a quiabo, e este a caruru.

— Seria bater um tambor? — indagou um timorense. — Lá no Timor, baba é um

tambor. Estás a nos chamar para batermos um tambor?

— Não — tornei a dizer.

— É coisa de candomblé? — agora era a dúvida de um cidadão nascido no Rio de Janeiro, cidade onde há muitos terreiros. — Baba é pai de santo — emendou ele, misturando babalorixá, pai de terreiro, líder de centro de umbanda etc etc.

— Baba, na Bahia, é apenas uma partida de futebol entre amigos — expliquei. — É aquilo que vocês chamam de "pelada". É como se eu lhes chamasse: "Vamos jogar uma pelada".

— Bora — eles disseram sorrindo e já perguntando quando e como e por que surgiu o termo baba.

— Não se sabe como nem quando nasceu essa expressão — respondi, e passei a falar

diversas outras frases idiomáticas locais que trazem o baba pelo meio.

Quando, por exemplo, uma partida de futebol profissional está cheia de chutões, sem qualquer técnica, aí nós reclamamos: "Que baba é esse?" É como se disséssemos "que jogo feio da p…" (esse palavrão que é sagrado na Bahia de Todos os Santos).

E sempre estamos a falar coisas como "empatar o baba", "enterrar o baba".

Quando falamos "Lá vem você querer empatar meu baba", queremos dizer que a outra pessoa está querendo nos criar dificuldades, atrapalhar nossos planos.

Se falamos "Fulano enterrou meu baba" é porque Fulano teve atuação desastrada e pôs o jogo a perder: "O goleiro tomou um frango e enterrou nosso baba", ou seja, o frangueiro sepultou nossa chance de vitória.

E por falar em vitória, por falar em baba, lembro, com tristeza, que o meu Vitória vive a pior crise em 64 anos de futebol profissional, ficando de fora da Copa do Brasil, fora da Copa do Nordeste e fora do campeonato baiano.

Campeonato baiano que neste domingo, no estádio Joia da Princesa, em Feira de Santana, começou a ser decidido entre dois xarás: o Bahia e o Bahia de Feira. Ou seja, a final este ano não é o tradicional Ba-Vi — tão previsível como o Grenal, o Atletiba e o Galo contra a Raposa.

Na Bahia, este ano, a decisão do campeonato é um Ba-Ba — ou um Ba-Ba-fei — tendo em vista que é Bahia x Bahia de Feira.

E antes que os coirmãos tricolores digam que isso é intriga e inveja da minha parte, prometo que quando houver uma decisão entre os outros dois homônimos — Vitória x Vitória da Conquista — eu não terei problema algum em chamar o jogo de Vi-Vi. Ou um Vi-Vi da Bahia, para não confundir com o Vi-Vi de Portugal, o duelo entre o Vitória de Setúbal e o Vitória de Guimarães.

Ah, sim, o Ba-Ba deste domingo no Joia da Princesa terminou empatado em um a um.

*Marcelo Torres é jornalista, baiano, torcedor do Vitória, mora em Brasília

Sobre o Autor

Juca Kfouri é formado em Ciências Sociais pela USP. Diretor das revistas Placar (de 1979 a 1995) e da Playboy (1991 a 1994). Comentarista esportivo do SBT (de 1984 a 1987) e da Rede Globo (de 1988 a 1994). Participou do programa Cartão Verde, da Rede Cultura, entre 1995 e 2000 e apresentou o Bola na Rede, na RedeTV, entre 2000 e 2002. Voltou ao Cartão Verde em 2003, onde ficou até 2005. Apresentou o programa de entrevistas na rede CNT, Juca Kfouri ao vivo, entre 1996 e 1999. Atualmente está também na ESPN-Brasil. Colunista de futebol de “O Globo” entre 1989 e 1991 e apresentador, de 2000 até 2010, do programa CBN EC, na rede CBN de rádio. Foi colunista da Folha de S.Paulo entre 1995 e 1999, quando foi para o diário Lance!, onde ficou até voltar, em 2005, para a Folha.

Colunas na Folha: https://blogdojuca.uol.com.br/lista-colunas-na-folha/

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