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Bruna Marquezine e a pequenez do futebol brasileiro

Juca Kfouri

24/04/2019 08h36

POR RODRIGO R. MONTEIRO DE CASTRO*

 

Bruna Marquezine tem aproximadamente 34,6 milhões de seguidores nas mídias sociais. O número é mais expressivo do que o número de qualquer time brasileiro. Os cinco maiores, nesse quesito, são, respectivamente, Flamengo (22.373.172), Corinthians (21.536.382), São Paulo (13.939.721), Palmeiras (10.271.468) e Santos (7.814.694). 

A marca da atriz impressiona ainda mais quando comparada aos maiores times do planeta. Ela fica em um hipotético 12o lugar, atrás apenas de Real Madrid(242.984.560), Barcelona (240.008.793), Manchester United (137.054.693), Chelsea (90.100.111), Bayern (79.219.881), Arsenal (76.210.718), Manchester City (72.330.250), Juventus (69.481.168), Liverpool  (67.113.716), PSG (66.754.031) e Milan (44.419.893).

Ela é, portanto, um fenômeno. De que natureza? A resposta não é óbvia: futebolística. Sim, trata-se de um subproduto do futebol. 

Não se afirma, aqui, que ela não seja boa atriz ou que não tenha mérito próprio; ao contrário. Porém, sua ascensão ao estrelato nacional – e, de certa forma,mundial – está associada ao seu relacionamento (e aos seus afastamentos) com outro fenômeno, Neymar. 

Neymar é um dos principais produtos futebolísticos do planeta e, seguramente, o mais relevante produto exportado pelo Brasil nos últimos anos. Sua importância transcende a desmaterialização das mídias sociais.  

Ele valia, conforme números de sua última negociação, 222 milhões de euros, cifra que o colocou na primeira posição dos negócios mais vultosos da história do futebol. 

Desde então, pouco jogou por conta de sucessivas contusões. A expectativa de que liderasse seu time ao almejado título europeu ainda não se confirmou. Em duas oportunidades consecutivas, caíram – jogador e time –nas oitavas de final. 

Paralelamente, o projeto pessoal de ser reconhecido como o melhor do mundo também vem sendo adiado e começa a entrar numa zona de perigo, afinal, apesar de ainda jovem, não é mais um menino. 

Esse cenário poderia ter desvalorizado o produto Neymar no mercado. O efeito, porém, foi o inverso. Por se tratar de jogador (ou de ativo) único, ele vale, atualmente, mais. Nele ainda se identificam características transformacionais, nos planos do jogo e da comunicação.

Seu desempenho nas mídias sociais confirma essa afirmação: seguem-no aproximadamente 111 milhões de pessoas, número superior ao de todos os times do planeta, exceto Real Madrid, Barcelona e Manchester United.  

Aliás, em termos midiáticos, ele é muito maior do que todos os times brasileiros individualmente considerados, maior do que os 10 principais juntos (Flamengo, Corinthians, São Paulo, Palmeiras, Santos, Grêmio, Vasco, Atlético, Cruzeiro e Chapecoense) e 5,5 vezes maior do que a CBF (que contava, em maio de 2018, com 19.041.740 de seguidores). 

Apresentados esses números, não se pretende, adiante, investigar os motivos sociológicos da transformação de uma pessoa em ídolo global ou em símbolo midiático geracional, até porque não se trata de fenômeno restrito ao futebol e a jogadores brasileiros. Também não se especulará sobre o sucesso (ou insucesso) de Bruna Marquezine, caso não tivesse se afeiçoado a Neymar. 

A breve aventura investigativa tem outro propósito: confirmar a incapacidade atual do futebol brasileiro, em todos os níveis e sob todas as perspectivas, de se viabilizar no plano coletivo.

O caminho que se passou a trilhar foi o da individualidade: a CBF só pensa nela, os principais clubes não cuidam da coletividade (e se dedicam à obtenção debenefícios particulares, em detrimento da evolução sistêmica) e os jogadores bemsucedidos tendem a se tornar personagens de si próprios.

A aparente grandeza do futebol do Brasil está vinculada, nos dias atuais, ao surgimento de produtos – e subprodutos – isolados, eventualmente geniais, mas ainda assim individuais, sobre os quais se constrói a esperança de um futuro digno. 

O eventual enfraquecimento – ou a ausência  desses produtos fará desaparecer a mística da infindável geração espontânea de craques. Sim, pois, sem Neymar em campo ou em circulação nas mídias sociais, a seleção se torna material e virtualmente um time mediano.

Daí a relevância da perpetuação de novelas marquezineanas. 

Concluindo, a incapacidade de reação e de adaptação dos times brasileiros – e a falta de interesse da CBF – às evoluções tecnológicas e aos novos meios de financiamento da empresa futebolística aprisionaram e apequenaram o futebol, que passou a depender de produtos e subprodutos individuais e midiáticos para preservar a aparência de grandeza. 

Triste, muito triste. 

A história – se é que ela não se perderá na produção criminosa de fake news e de fake leaders  haverá de condenar os responsáveis pela destruição do verdadeiro sonho brasileiro.

 

*Rodrigo R. Monteiro de Castro é advogado.

Sobre o Autor

Juca Kfouri é formado em Ciências Sociais pela USP. Diretor das revistas Placar (de 1979 a 1995) e da Playboy (1991 a 1994). Comentarista esportivo do SBT (de 1984 a 1987) e da Rede Globo (de 1988 a 1994). Participou do programa Cartão Verde, da Rede Cultura, entre 1995 e 2000 e apresentou o Bola na Rede, na RedeTV, entre 2000 e 2002. Voltou ao Cartão Verde em 2003, onde ficou até 2005. Apresentou o programa de entrevistas na rede CNT, Juca Kfouri ao vivo, entre 1996 e 1999 e foi colaborador da ESPN-Brasil entre 2005 e 2019. Colunista de futebol de “O Globo” entre 1989 e 1991 e apresentador, de 2000 até 2010, do programa CBN EC, na rede CBN de rádio. Foi colunista da Folha de S.Paulo entre 1995 e 1999, quando foi para o diário Lance!, onde ficou até voltar, em 2005, para a Folha, onde permanece com sua coluna três vezes por semana. Apresenta, também, o programa Entre Vistas, na TVT, desde janeiro de 2018.

Colunas na Folha: https://blogdojuca.uol.com.br/lista-colunas-na-folha/

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