Pelé é Tom. Messi é Edu
POR MARCEL PILATTI*
A vida tem dessas coisas.
Oito dias atrás, assisti à partida Betis x Barcelona e pude me impressionar com a magia de Messi – como no melhor dos discos, a faixa 1 do lado A foi daquelas de impactar à primeira audição, e a última canção do lado B foi a mais bela e, mais do que isso, completou um ciclo: Messi começou com uma falta precisamente batida, logo antes do intervalo marcou pela segunda vez como centroavante, e encerrou sendo aplaudido pela torcida adversária, após um gol por cobertura digno dos gênios, os que antecipam movimentações – e que possuem repertório distinto para realizar planos A, B, C e Z.

Naquela mesma noite, tive a oportunidade de, pela primeira vez, escutar inteiro o álbum "Tom e Edu, Edu e Tom", que uniu Eduardo Eduardo de Góes Lobo, ou simplesmente Edu Lobo, e Antônio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim, mais conhecido como Tom Jobim. Cobiço o LP até hoje – entre tempo, dinheiro e disposição –, mas as plataformas digitais já ajudam.
(O disco, lançado em 1981, tem uma história curiosa: seria um álbum solo de Edu Lobo, e Tom Jobim foi convidado a participar de uma das faixas, "Chovendo na Roseira", ao piano. Depois desta primeira gravação, Jobim – vejam só – pediu para participar de uma segunda canção, "Canção do amanhecer". O produtor, Aloysio de Oliveira, outrora parceiro de Tom, percebeu a sintonia dos dois e a rara oportunidade, e alterou a ideia original, transformando o disco num dueto único e inesquecível).
Mais tarde, revendo os lances da partida de Messi e lendo/ouvindo algumas análises (que, novamente, evocaram comparações com Pelé), e ainda cantarolando mentalmente o maravilhoso "Tom e Edu", me pus a pensar.

Explico.
Edu Lobo é um dos mais raros e precoces talentos da história da música brasileira: sua estreia em disco aconteceu em 1964, aos 21 anos, e dois anos depois lançaria o mítico "Edu e Bethânia", com a gravação definitiva de uma das mais lindas canções brasileiras de todos os tempos: "Pra dizer adeus", parceira de Edu Lobo e Torquato Neto.
O grande brilho de Edu, porém, se daria na famosa "Era dos Festivais". No primeiro deles, da TV Excelsior, Edu sai vencedor: "Arrastão", parceria de Lobo com Vinícius de Moraes, foi defendida por Elis Regina. Um ano depois, não conseguiria se classificar para a finalíssima, mas em 1967, no mais lendário dos festivais, Edu venceu novamente: a também lendária "Ponteio", defendida por Lobo e Marília Medalha, suplantou os outros 4 finalistas: Caetano Veloso, Chico Buarque, Gilberto Gil e Roberto Carlos.
Só isso. Uma verdadeira Champions League.
Em 1968, sua derradeira participação em festivais, Edu novamente superaria Chico (compositor e intérprete), Roberto (intérprete) e Gil & Caetano (compositores), mas seria superado por um surpreendente Tom Zé: "Memórias de Marta Saré", novamente defendida por Lobo e Medalha, ficaria atrás de "São, São Paulo Meu Amor", do bahiano.
Naquele mesmo ano, havia outro festival musical: O Festival Internacional da Canção, em sua segunda edição. Na etapa brasileira, as duas principais canções eram "Pra não dizer que não falei das flores", de Geraldo Vandré, e "Sabiá", de Tom Jobim e Chico Buarque. A primeira era a favorita do público, a segunda foi a vencedora. Sob vaias, Jobim e Buarque acompanham as intérpretes Cynara e Cybelle.
Foi a primeira e última participação de Tom Jobim em festivais. Àquela altura, ele já era um artista mais do que consagrado. Um ano antes, por exemplo, gravou um álbum em parceria com Frank Sinatra a pedido do americano. Sua estreia oficial para o público aconteceu lá atrás, em 1956, em parceria com Dolores Duran. À mesma época, iniciava-se a histórica dupla com Vinícius de Moraes.
Depois disso, a consagração internacional viria em 1962, com Garota de Ipanema – em 1964, o disco de João Gilberto seria vencedor mundial do Grammy, e a música se tornaria a mais conhecida e importante obra brasileira, em termos de referência do Brazil.
O encontro de Edu e Tom se dá no começo da década e ali Lobo já era reconhecidamente um dos maiores nomes da MPB, consagrado não apenas como compositor, mas como arranjador, letrista, regente, cantor e violonista. Em 1983, por exemplo, lançaria o fabuloso "Grande Circo Místico", em parceria com Chico Buarque – nesse disco, por exemplo, temos "Beatriz", outra obra-prima do cancioneiro nacional. Aliás, Edu se tornaria o maior parceiro de Chico em número de canções.
Tom Jobim, no entanto, já tinha outra estatura, tamanho esse que só aumentaria com o tempo, mesmo após sua morte. É o nosso Maestro Soberano.
Messi é Edu. Pelé é Tom.
*Marcel Pilatti tem 33 anos, é corinthiano, professor de línguas e fã de Lionel Messi.
Sobre o Autor
Colunas na Folha: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/jucakfouri/











