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O Boechat que conheci

Juca Kfouri

11/02/2019 18h04

Quando jovem, Ricardo Boechat, como eu, militou no glorioso "Partidão", o PCB.

Para orgulho do pai dele, comunista.

Já no exercício do jornalismo, ambos vimos a incompatibilidade e nunca mais nos filiamos a partido algum, ele ainda antes da legalização do PCB.

Trabalhar juntos não trabalhamos, apenas estivemos concomitantemente nas então chamadas Organizações Globo.

Os caminhos nos distanciaram, mas quando dirigi a revista Playboy encomendei uma reportagem dele sobre o Copacabana Palace que resultou em texto delicioso.

Daí por diante nos encontramos mais em coberturas de Copas do Mundo.

Na África do Sul, por exemplo, nos vimos perdidos na saída do estádio Soccer City após a final entre Espanha e Holanda, já de madrugada, sob um frio de rachar.

Não encontrávamos a condução que nos levaria ao hotel e Boechat, de sobretudo, luvas, cachecol e boina, apelou: "Ajude a tirar um velhinho daqui".

Ele era dois anos mais moço que eu e retruquei: "Você é que tem de ajudar".

Sei que repórter como poucos, Boechat não fazia a menor cerimônia em pedir o que fosse para se familiarizar com o mundo do futebol, do mesmo modo que, generoso ao extremo, jamais negou entregar suas fontes a quem as pedisse, dono de valiosa agenda telefônica.

Boechat tinha a sabedoria de trabalhar se divertindo, por mais estressado e viciado em trabalho que fosse.

Quando teve piripaque que o levou ao hospital liguei para seu quarto e Veruska, sua mulher, atendeu. Conversamos um pouco e ela passou o telefone a ele.

Pedi a ele que tirasse um pouco o pé do acelerador, de manhã à noite na Band.

Ele topou, mas impôs uma condição: "Desde que você faça o mesmo".

E me mandou à merda. "Você está se acumpliciando com a Veruska" decretou.

Crítico, ácido, leal, independente, incorruptível, viveu do jornalismo e morreu no helicóptero, na hora do almoço, porque tinha o jornal para botar no ar à noite.

Não podia perder tempo dentro de automóvel sujeito aos engarrafamentos de São Paulo.

O jornalismo brasileiro perdeu um de seus maiores craques.

Sem que possa ser substituído.

Sobre o Autor

Juca Kfouri é formado em Ciências Sociais pela USP. Diretor das revistas Placar (de 1979 a 1995) e da Playboy (1991 a 1994). Comentarista esportivo do SBT (de 1984 a 1987) e da Rede Globo (de 1988 a 1994). Participou do programa Cartão Verde, da Rede Cultura, entre 1995 e 2000 e apresentou o Bola na Rede, na RedeTV, entre 2000 e 2002. Voltou ao Cartão Verde em 2003, onde ficou até 2005. Apresentou o programa de entrevistas na rede CNT, Juca Kfouri ao vivo, entre 1996 e 1999 e foi colaborador da ESPN-Brasil entre 2005 e 2019. Colunista de futebol de “O Globo” entre 1989 e 1991 e apresentador, de 2000 até 2010, do programa CBN EC, na rede CBN de rádio. Foi colunista da Folha de S.Paulo entre 1995 e 1999, quando foi para o diário Lance!, onde ficou até voltar, em 2005, para a Folha, onde permanece com sua coluna três vezes por semana. Apresenta, também, o programa Entre Vistas, na TVT, desde janeiro de 2018.

Colunas na Folha: https://blogdojuca.uol.com.br/lista-colunas-na-folha/

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