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E se... 8. Augusto

Juca Kfouri

06/02/2019 00h00

Por ROBERTO VIEIRA

Eu ainda era criança naquele domingo no Maracanã. Tinha sete para oito anos. Falo do famoso 16 de julho de 1950. Era criança, mas ainda lembro de tudo, como se fosse hoje, pois via meu pai João Ramos torcendo e gritando sem parar diante do rádio para terror de Dona Celeste.

Friaça abre o marcador. Somos campeões. A torcida exige a goleada, a tourada, a crucificação. O tempo passa e a goleada não vem. A tarde se vai no embalo sustenido da garra uruguaia. O tapa em Bigode hiperemiando a face de cada brasileiro presente – Bigode que foi muito macho pra não revidar e ser expulso.

Gigante Bigode.

De repente, tudo foi se sucedendo em ritmo vertiginoso, Schiaffino empatou a peleja num tiro que desafiou as leis da física. Logo depois, o ponta Gigghia invadiu a grande área como fizera diante dos espanhóis no Pacaembu e chutou no canto esquerdo do goleiro Barbosa. A mesma arrancada, o mesmo chute, o mesmo gol.

Barbosa em tarde de Ramallets.

O Maracanã se calou. O olhar de Barbosa ganhou os céus como perguntando se aquilo era mesmo verdade. Luiz Mendes repetia gol do Uruguai duzentas mil vezes. Um gol para cada torcedor presente.

Apenas o capitão Augusto correu para as redes e deu um basta na pasmaceira. Pegou a bola maldita e carregou para que o jogo continuasse. O empate era nosso. O melhor time também.

Varela faz falta em Ademir que estava desaparecido em campo. Meu ídolo Zizinho ajeita a bola com carinho.

Gol.

O gol que veio no instante exato antes que fosse tarde demais.

O Uruguai bate o centro e se lança ao ataque. A equipe sentira o gosto do triunfo e não entendia como ele podia durar tão pouco, ser tão veloz em aparecer e desaparecer como miragem.

Porém, o gol de empate de Zizinho foi mortal. Bauer recupera a bola no meio campo e estica para Chico. O ponta vascaíno cruza para a grande área, a defesa rebate assustada, só que a bola cai no genial Barra Mansa de canelas finas e definitivas. O chute sai preciso, sibilante, fatal. Maspoli não vê a bola passando por ele e furando as redes do maior do mundo.

Maspoli em dia de Swindin.

Em dois minutos, o Brasil vira o jogo e reescreve a história. O árbitro George Reader apita o final da Copa do Mundo de 1950. O prefeito, e futuro senador, Mendes de Morais entrega juntamente com Jules Rimet a taça ao capitão Augusto da Costa.

A imagem de Augusto de posse da taça se torna um ícone. Cada cidade brasileira deseja um monumento de Augusto. Cada atleta brasileiro é um herói que cumpriu o dever com sua pátria. A maioria deles irá se despedir em breve para jogar na Europa.

Bauer na Juventus. Zizinho no Milan. Jair para a Roma. Flávio Costa para o Benfica. Olhando em retrospectiva, nosso maior momento foi nossa maior tragédia. A Celeste mudou de técnico, de técnica e de métodos. Celeste que mudou até de camisa deixando de atuar com o belíssimo azul pois dava azar.

Os uruguaios padeceram na Copa de 54, mas foram campeões em 1962 com sua nova geração de meninos bons de bola. Varela terminou seus dias na miséria, embora confessasse que o título estava em boas mãos. Gigghia se envolveu num escândalo amoroso e sumiu na história. Schiaffino ainda brilhou a meia luz no futebol sendo comprado pelo Bangu no lugar de Zizinho.

O Brasil, enquanto isso, mantinha a mesma geração de ídolos. Intocáveis. Craques que se despediram na fria Gotemburgo, em 1958, levando um sonoro 4×0 da URSS de Kuznetsov.

Afinal de contas, como barrar Juvenal, Ademir, Zizinho, Friaça, Bigode? Só mesmo quando aposentassem suas chuteiras imortais – como dizia Nelson Rodrigues.

Flávio Costa, por exemplo, era a única unanimidade nacional, maior até mesmo que Getúlio, nosso eterno guia e líder. Quando Flavio voltava de Portugal era feriado nacional.

Muitas vezes na minha vida de jogador aqui em Bauru fiquei imaginando o que aconteceria se fossemos derrotados. O chute de Zizinho indo pra fora. Uma cabeçada de Ademir batendo na trave. No futebol, nem sempre sorri por último o melhor, mesmo jogando pelo empate. Talvez a tragédia fosse maior. Talvez o país inteiro riscasse o futebol das tardes de domingo. Explodissem o Maracanã.

Talvez eu nem mesmo estivesse ganhando um dinheirinho jogando bola em Bauru.

Pois quem sabe o Brasil mudasse de técnico, trocasse de camisa, achasse seu rumo?

Quando penso assim chego a acreditar que algumas derrotas são presente dos deuses do futebol.

Só não fico muito triste porque me lembro do coitado do Barbosa. Barbosa que chorava copiosamente no final daquele jogo. Barbosa que teria sido excomungado e enterrado vivo caso o jogo terminasse naquele 2 x 1 no chute do Gigghia.

E o Augusto, capitão que chegou a governador e coisa e tal. Talvez o Augusto continuasse pela polícia e acabasse um dia cumprindo seu destino fora dos campos, censurando livros, músicas e peças teatrais.

Quem sabe?

Sobre o Autor

Juca Kfouri é formado em Ciências Sociais pela USP. Diretor das revistas Placar (de 1979 a 1995) e da Playboy (1991 a 1994). Comentarista esportivo do SBT (de 1984 a 1987) e da Rede Globo (de 1988 a 1994). Participou do programa Cartão Verde, da Rede Cultura, entre 1995 e 2000 e apresentou o Bola na Rede, na RedeTV, entre 2000 e 2002. Voltou ao Cartão Verde em 2003, onde ficou até 2005. Apresentou o programa de entrevistas na rede CNT, Juca Kfouri ao vivo, entre 1996 e 1999 e foi colaborador da ESPN-Brasil entre 2005 e 2019. Colunista de futebol de “O Globo” entre 1989 e 1991 e apresentador, de 2000 até 2010, do programa CBN EC, na rede CBN de rádio. Foi colunista da Folha de S.Paulo entre 1995 e 1999, quando foi para o diário Lance!, onde ficou até voltar, em 2005, para a Folha, onde permanece com sua coluna três vezes por semana. Apresenta, também, o programa Entre Vistas, na TVT, desde janeiro de 2018.

Colunas na Folha: https://blogdojuca.uol.com.br/lista-colunas-na-folha/

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