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E se... 7. Dario

Juca Kfouri

05/02/2019 00h00

Por ROBERTO VIEIRA

Pelé sentiu a fisgada. Não era tão forte como a de 1962, mas era contra a mesma Tchecoslováquia. A partida se encaminha para o final e o placar de 4 x 1 não mostra ao mundo a preocupação nos olhos da comissão técnica brasileira.

E agora, Zagalo?

Gerson está fora do encontro diante da Inglaterra. Paulo César joga em seu lugar. Mas quem vai jogar no lugar do Rei contra os campeões do mundo? Devemos recuar Rivelino e meter Edu na ponta? Isso não deu muito certo com Saldanha quando Edu era a mais valiosa promessa da seleção. Agora seria insensato. Ou não?

E agora, Zagalo?

O técnico brasileiro não trouxe Dirceu Lopes ou Ademir da Guia. Não foram feitos pra seleção na sua opinião. Zagalo decide botar Tostão no lugar de Pelé e deixar Roberto pra brigar contra Bobby Moore. Arma-se uma retranca e quem sabe numa bola a gente ganha o jogo que o calor está de rachar.

Roberto se machuca no treino. Uma de suas inúmeras contusões brigando incessantemente contra os zagueiros. Era o destino de Roberto.

Tostão olhou para Dario. O gigante estava sentado na tarde mexicana com o olhar distante. O segundo maior artilheiro do Brasil era um turista. Como Simonal. Pesa sobre o atacante do Galo a lembrança do general Médici, fã do seu futebol. Muitos dizem que Dario foi o motivo da queda de João Saldanha.

Bota Dario, Zagalo! O Homem vai gostar. Se der errado ele não pode reclamar!

Tostão sempre gostou de Dario. Tostão foi o único que lhe deu um aperto de mão, um sorriso e a amizade nos treinos da seleção. Dario não era Evaldo, porém dava uma dor de cabeça danada pra Raul e Piazza.

O Brasil ouviu a notícia estupefato. Os torcedores, não. A revista Placar número 1 do dia 20 de março de 1970 trazia a pesquisa sobre Tostão na Copa. O povo acreditava que Tostão iria superar o descolamento de retina jogando na Copa. E mais. Dario ganhava com folga na pesquisa realizada em São Paulo, Rio e Belo Horizonte como o substituto ideal de Tostão para jogar com Pelé.

Tostão deu a notícia a Dario. Uma lágrima caiu dos olhos negros. O jogador que não conseguia dominar uma bola de futebol, segundo os críticos, lembrou da mãe ardendo em chamas na infância. Por um instante, as lembranças da prisão se misturam em sua cabeça. A voz de Gentil Cardoso ressoou em seu inconsciente.

Vai procurar outra profissão!

Mas sempre havia um Gradim lembrou o consciente do artilheiro. Sempre existe uma solução para cada problema. Feio é não fazer gol

Longe dos olhos de todos, os adversários do Mineirão combinaram o que seria o jogo de suas vidas. Dario entre os zagueiros e caindo pela esquerda. Tostão buscando um espaço pra deixar ele cara a cara com Banks.

Brasil x Inglaterra foi o único jogo de Dario em Copas do Mundo. Um jogo no qual ele tocou na bola poucas vezes. Numa delas, em cruzamento de Jairzinho, Dario meteu de cabeça no canto direito de Gordon Banks que ainda chegou a tocar com a ponta dos dedos na bola. O inesperado grito de gol saiu da garganta de Dario e Tostão ao mesmo tempo. Como irmãos eles se abraçaram.

O craque que muitos julgavam inválido e o inválido que muitos julgavam perna de pau.

A Inglaterra empatou e teve chances de vencer. Zagalo já se preparava para tirar Dario de campo quando, no entanto, a mais bela jogada da Copa aconteceu. Tostão percebendo que o amigo iria ser substituído pegou a bola. E Tostão foi driblando ingleses e mais ingleses até girar e cruzar a bola com o pé direito na marca de pênalti.

Inesperadamente, Dario dominou a bola com a inteligência de quem superou a fome, a miséria, a criminalidade para ser um beija flor.

Por um momento, a imagem de Dona Metropolitana surgiu diante de si.

Jair gritou.

Dario tocou de lado.

Jair explodiu as redes britânicas com um torpedo e saiu pulando pelos ares astecas.

Enquanto a multidão ia ao delírio, enquanto seus companheiros entravam em êxtase, dois amigos se ajoelhavam e se abraçavam como se estivessem no velho e amado Mineirão de suas vidas.

Final da partida, Bobby Charlton fez questão de trocar sua camisa com aquele sujeito desengonçado, sorridente, bonachão, para deleite do atleticano Roberto Drummond que assistia a tudo nas asas da Embratel.

NOTA: Texto dedicado a Roberto Drummond que amava o Atlético sobre todas as coisas e que faleceu no dia 21 de junho de 2002, data em que o Brasil comemorava 32 anos da conquista da Copa de 70 batendo novamente os súditos de Sua Majestade por 2×1, desta vez na Copa do Japão e da Coréia.

Sobre o Autor

Juca Kfouri é formado em Ciências Sociais pela USP. Diretor das revistas Placar (de 1979 a 1995) e da Playboy (1991 a 1994). Comentarista esportivo do SBT (de 1984 a 1987) e da Rede Globo (de 1988 a 1994). Participou do programa Cartão Verde, da Rede Cultura, entre 1995 e 2000 e apresentou o Bola na Rede, na RedeTV, entre 2000 e 2002. Voltou ao Cartão Verde em 2003, onde ficou até 2005. Apresentou o programa de entrevistas na rede CNT, Juca Kfouri ao vivo, entre 1996 e 1999. Atualmente está também na ESPN-Brasil. Colunista de futebol de “O Globo” entre 1989 e 1991 e apresentador, de 2000 até 2010, do programa CBN EC, na rede CBN de rádio. Foi colunista da Folha de S.Paulo entre 1995 e 1999, quando foi para o diário Lance!, onde ficou até voltar, em 2005, para a Folha.

Colunas na Folha: https://blogdojuca.uol.com.br/lista-colunas-na-folha/

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