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E se... 15. Dunga

Juca Kfouri

12/02/2019 14h00

Por ROBERTO VIEIRA

Dois diretores, três jornalistas, um cachorro, duas senhoras e uma criança esperam a chegada de Dunga no Aeroporto Salgado Filho, em Porto Alegre. Um dos comandantes e heróis do campeonato mundial de juniores jogado no México desce quase incógnito. Reconhecimento mesmo Dunga só recebe em Ijuí, sua terra natal, onde ganha presentes e homenagens do prefeito e dos estudantes.

Carlos Caetano Bledorn Verri, 19 anos, é um comandante sem exército. Pior. Um soldado sem comandante. O excepcional Dino Sani, mestre dos volantes brasileiros e professor de Paulo Roberto Falcão nos anos 70, afirma que Dunga é lento demais para jogar na cabeça de área. Dificilmente Dunga terá vaga na equipe.

Dino Sani que sente no jogador muito de Zito e pouco de Sani.

Dunga não acredita no que vê pela frente. Recebe um salário mínimo no clube, o dirigente Umberto Rimoli insiste em dizer que Dunga tem muitas mordomias no clube e parece que apenas o velho Abílio dos Reis bota fé nele.

O Corinthians acena com uma proposta. O Timão navegou nas águas da democracia, mas agora está apostando na juventude no poder após o timaço de Sócrates deixar escapar o Brasileirão entre os dedos tricolores.

Dunga quase se transfere para o Corinthians. Mas, num lance ousado, decide ir para a Itália se juntar a La Juve. Parece loucura sonhar jogar ao lado de Scirea e Cabrini, porém, o sobrenome italiano abre as portas da Bota. Dunga chega com fome numa esquadra que ainda possui o talento de Tardelli, Boniek e Platini. Tudo que Dino Sani aprendeu na Itália não chega a ser útil a Dunga que precisa aprender por si mesmo como é diferente a marcação no calcio.

Os anos dinamarqueses, holandeses e alemães ofuscam um pouco a passagem de Dunga pela Itália, mesmo assim, o volante é naturalizado e junto com Schilacci participa da campanha da Copa da Itália em 1990. Ele não consegue ser titular como o companheiro, mas assiste de camarote o Brasil ser eliminado pela Argentina numa oitava de final esquisita, quando os tempos do técnico Lazaroni na Canarinha entram para a história como a Era Alemão.

Quatro anos depois, entretanto, Dunga está na Azzurra ao lado de Baggio e Baresi. Para seu grande espanto, Dunga recebe a braçadeira de capitão e, no berro, deixa a Nigéria e a Bulgária para trás.

Na final diante do Brasil, Dunga que na Itália é por vezes conhecido como Verri, converte sua penalidade máxima e dá forças a Roberto Baggio o qual, budisticamente, acerta sua penalidade na gaveta de Taffarel.

Durante todos estes anos, Dunga jamais se referiu com palavras amargas ao Brasil. Sempre disse que aqueles dias em Porto Alegre, distante de todos os aplausos que julgava receber, recebendo conselhos do padrinho Emídio Perondi, meditando sobre quão transitória é a glória, forjaram seu caráter.

Ele compreendera que seu caminho seria de muitas críticas e de muito suor, apesar de saber bater bem na bola. Como nas comparações dos antigos entre Zito e Dino Sani que permeiam o livro OS 11 MAIORES VOLANTES DO FUTEBOL BRASILEIRO, de Sidney Garambone.

Dunga gostaria muito de estar no livro, mas compreende que sua vida de jogador é italiana.

Apesar de todos os contratempos no Internacional, o olhar de Dunga se trai em um momento apenas.

Ele gostaria de estar presente naquela noite de 1999 quando o Internacional foi derrotado pelo Palmeiras, sendo rebaixado para a Série B do Brasileirão.

Quem sabe Dunga não poderia salvar o velho Colorado?

Quem sabe?

Mas, logo, os pensamentos de Dunga se voltam para o trabalho de botar a seleção da Itália pra jogar. A Pentacampeã mundial não estava bem das pernas, e Dunga foi escalado para botar ordem na casa.

Casa italiana que canta em verso e prosa como era feliz na Era Dunga!

Sobre o Autor

Juca Kfouri é formado em Ciências Sociais pela USP. Diretor das revistas Placar (de 1979 a 1995) e da Playboy (1991 a 1994). Comentarista esportivo do SBT (de 1984 a 1987) e da Rede Globo (de 1988 a 1994). Participou do programa Cartão Verde, da Rede Cultura, entre 1995 e 2000 e apresentou o Bola na Rede, na RedeTV, entre 2000 e 2002. Voltou ao Cartão Verde em 2003, onde ficou até 2005. Apresentou o programa de entrevistas na rede CNT, Juca Kfouri ao vivo, entre 1996 e 1999 e foi colaborador da ESPN-Brasil entre 2005 e 2019. Colunista de futebol de “O Globo” entre 1989 e 1991 e apresentador, de 2000 até 2010, do programa CBN EC, na rede CBN de rádio. Foi colunista da Folha de S.Paulo entre 1995 e 1999, quando foi para o diário Lance!, onde ficou até voltar, em 2005, para a Folha, onde permanece com sua coluna três vezes por semana. Apresenta, também, o programa Entre Vistas, na TVT, desde janeiro de 2018.

Colunas na Folha: https://blogdojuca.uol.com.br/lista-colunas-na-folha/

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