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E se... 14. Dener

Juca Kfouri

2012-02-20T19:00:00

12/02/2019 00h00

Por ROBERTO VIEIRA

Em homenagem a Ricardo Boechat, torcedor da Portuguesa e do Flamengo.

O Mitsubishi Eclipse destruído deixa dúvidas no ar. Mas Dener sai ileso do veículo dos seus sonhos. Um pouco assustado, mas ileso. Para alegria do goleiro Edinho que conversara com ele por telefone na véspera. A perícia concluiu que Dener se salvara por milagre ao não usar o… cinto de segurança.

O milagre chegou como um aviso para o craque. Véspera da Copa do Mundo de 1994, Dener aparecia em todas as listas de favoritos para os 22 convocados por Parreira. Ninguém dava muita fé na seleção que não ganhava nada desde os anos 70, mas a volta de Romário acendia uma luz no fim do túnel, ainda mais se tivesse Bebeto em forma a seu lado. O meio campo com Raí também era garantia de qualidade. Apesar de rejeitar a base formada por atletas do bicampeão mundial São Paulo – seria dar colher de chá ao mítico Telê Santana – Parreira bem que poderia sonhar no sol abrasador dos EUA no verão.

Para completar o milagre, Dener é sondado pelo Sttutgart que também está atrás de Dunga, futuro capitão da seleção. O clube alemão acha que Dunga vai conseguir o mesmo sucesso no relacionamento com Dener que vem tendo na amizade com Romário, outro gênio rebelde.

Mas Dener já enxerga o mundo com outros olhos após o acidente. Recebe a convocação com a alegria dos muito jovens e se submete com tranquilidade à reserva formando uma dupla de ouro com o adolescente Ronaldo. Nos treinos, a habilidade de Dener e Ronaldo muitas vezes deixa Parreira e seu auxiliar Zagalo de calças curtas.

Só mesmo as atuações de gala de Romário e Bebeto impedem uma onda maior na imprensa. Mas a saída de Raí da equipe, substituído por Mazinho para dar mais segurança ao meio campo, balança a nave brasileira. Muito queriam a ofensividade de Dener na meia cancha. Um trio Dener, Bebeto e Romário seria garantia do tetra.

Mas Parreira ainda não enlouqueceu.

Isso é, não enlouqueceu até a prorrogação na final da Copa de 1994. O placar de 0x0 estampado no Rose Bowl. Zagalo cochichou com Parreira que mandou Dener entrar no lugar de Zinho. O Brasil tinha mais time, estava mais inteiro. Penalidades máximas eram terra de ninguém.

A bola demorou a chegar aos pés de Dener. Foram cinco minutos de solidão, até que ela veio sorrateira. A chuteira de Dener dominou a companheira e ele saiu pela Califórnia born to be wild. Passou por Donadoni, Mussi e Baresi. Quando Benarrivo chegava desesperado na cobertura, Dener tocou de lado para Bebeto, livre, solto, Carlos Alberto em 70.

Bebeto pediu desculpas a Gianluca Pagliuca e deu uma cavadinha digna de Romário. A bola subiu pelos ares e beijou as redes italianas com a simplicidade dos dribles de Dener.

No Brasil, o repórter Gil Gomes do telejornal Aqui e Agora do SBT, torcedor fanático da Lusa e crítico feroz do futebol de Dener, teve de se render ao vivo para todo o Brasil. Assim como ele, milhões de brasileiros que duvidavam do talento do craque aplaudiram de pé.

Dúvida mesmo só não tinham os demais torcedores do Grêmio, da Portuguesa e do Vasco da Gama que conheciam muito bem do que aquele azougue era capaz.

Quando as medalhas de campeão foram entregues, os jogadores brasileiros homenagearam um outro ídolo nacional que havia desaparecido nas curvas do circuito de Ímola, na Itália no dia primeiro de maio de 1994.

Dener não pôde deixar de lembrar que Senna morrera quinze dias depois do seu próprio acidente com aquele Mitsubishi Eclipse na Lagoa Rodrigo de Freitas.

E Dener beijou sua medalha e a própria vida com a humildade dos ressuscitados…

Sobre o Autor

Juca Kfouri é formado em Ciências Sociais pela USP. Diretor das revistas Placar (de 1979 a 1995) e da Playboy (1991 a 1994). Comentarista esportivo do SBT (de 1984 a 1987) e da Rede Globo (de 1988 a 1994). Participou do programa Cartão Verde, da Rede Cultura, entre 1995 e 2000 e apresentou o Bola na Rede, na RedeTV, entre 2000 e 2002. Voltou ao Cartão Verde em 2003, onde ficou até 2005. Apresentou o programa de entrevistas na rede CNT, Juca Kfouri ao vivo, entre 1996 e 1999. Atualmente está também na ESPN-Brasil. Colunista de futebol de “O Globo” entre 1989 e 1991 e apresentador, de 2000 até 2010, do programa CBN EC, na rede CBN de rádio. Foi colunista da Folha de S.Paulo entre 1995 e 1999, quando foi para o diário Lance!, onde ficou até voltar, em 2005, para a Folha.

Colunas na Folha: https://blogdojuca.uol.com.br/lista-colunas-na-folha/

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