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E se... 13. Havelange

Juca Kfouri

10/02/2019 10h00

Por ROBERTO VIEIRA

O casarão da rua Hitzigweg, 11, em Zurique é guardado por um cão pastor alemão com cara de poucos amigos. Em dois andares, oito salas e uma discreta biblioteca se decide o futuro do futebol mundial. Ali ainda é o endereço da FIFA. Poucos lembram, mas no dia 11 de junho de 1974, um brasileiro com sangue belga sonhou ocupar o cargo de presidente, algo semelhante a imaginarmos um Papa argentino, acredite se quiser.

Jean-Marie Faustin Goedefroid Havelange concorreu ao cargo de presidente da FIFA como candidato da Confederação Sul-Americana de Futebol. João disputou contra o poderoso inglês Stanely Rous, de 75 anos, que sonhava morrer no cargo.

A FIFA em 1974 possuía 143 países filiados, dos quais apenas 140 tinham direito a voto. África do Sul, Chade e Rodésia estavam suspensos e não podiam votar.

Havelange que nunca curtiu muito futebol e preferia esportes aquáticos tinha o sonho de revolucionar o mundo. A FIFA era o mundo que Havelange sonhava revolucionar. Nada na FIFA era eletrônico. Resultados pelo mundo, eliminatórias, Copas, amistosos, tudo registrado a mão e afixado em painéis pelas paredes. Doze funcionários estavam muito felizes em compor o apostolado de Stanley Rous e não desejavam nenhuma mudança nas suas vidas.

Havelange queria mudar tudo isso. Quebrar o monopólio europeu e sul-americano sobre o jogo. Aumentar o número de participantes em Copas do Mundo. Vinte e quatro, vinte e seis, vinte e oito, trinta e dois, quarenta e oito. Quem sabe ter mais afiliados que a própria ONU. Botar as nações africanas e asiáticas pra votar em alguém que lhes desse possibilidades reais no universo da bola rolando.

Dinheiro, propaganda, merchandising, grana, poder. Havelange podia ser definido como o homem que ambicionava todas essas palavras e que desejava com elas dominar o futuro.

Havelange era uma espécie de Nova Ordem do futebol mundial.

Para o bem do futebol, os sonhos de Havelange começaram a ruir na Minicopa de 1972. Evento montado por Havelange e pelo governo militar brasileiro para comemorar o sesquicentenário da independência do Brasil, divulgar o sonho de uma pátria grande, moderna e, de quebra, colocar um brasileiro no topo do futebol. Logo Havelange que tinha tido sérios problemas com os militares no final dos anos 60.

Se tudo corresse bem, como na Copa de 70, o Brasil venderia a imagem de um país democrático, o governo faturava a Minicopa com festa no Maracanã e Havelange ganhava o voto de africanos, Concacaf e dos países asiáticos.

Uma parte dos planos deu certo. Os países africanos e da Concacaf vieram. Mas Eusébio e Jordão decidiram que a Minicopa não iria ficar no Brasil. Nove campeões do mundo em 1970 assistiram a vitória portuguesa em campo em dia de alguns milagres de José Henrique.

O presidente Médici com um sorriso sombrio entregou a rica taça de campeão aos portugueses em festa.

O capitão Eusébio recebeu a taça e fez de casa portuguesa a antiga casa do Rei do futebol.

Já Stanley Rous se reuniu com as grandes seleções europeias que boicotaram o torneio e mostrou os perigos da modernidade. Caso Havelange vencesse, a Copa do Mundo em breve iria se tornar um balcão de secos e molhados, um território onde jogariam Togo x Barbados em rede mundial.

Tudo regado a champanhe, caviar, tráfico de influências e corrupção.

Por baixo do pano, as negociatas e favores funcionaram contra Havelange. Com 75 votos, Stanley Rous ganhou mais quatro anos de mandato na FIFA.

O velho casarão ainda está lá, assim como a Copa do Mundo com dezesseis seleções, para alegria de quem ama o futebol jogado por quem sabe jogar futebol. Até hoje, nenhuma seleção asiática chegou na fase decisiva do torneio e nem deve chegar. A África está plenamente satisfeita com Marrocos ou Zaire brincando de saco de pancada da vez.

A derrota na Minicopa e o fiasco na Copa do Mundo de 1974 também encerraram de vez o reinado de João Havelange no futebol brasileiro.

Embora, de vez em quando, alguém escreva alguma ficção científica sobre o que teria acontecido na FIFA e no desporto mundial com a vitória do brasileiro naquela eleição do dia 11 de junho de 1974…

Sobre o Autor

Juca Kfouri é formado em Ciências Sociais pela USP. Diretor das revistas Placar (de 1979 a 1995) e da Playboy (1991 a 1994). Comentarista esportivo do SBT (de 1984 a 1987) e da Rede Globo (de 1988 a 1994). Participou do programa Cartão Verde, da Rede Cultura, entre 1995 e 2000 e apresentou o Bola na Rede, na RedeTV, entre 2000 e 2002. Voltou ao Cartão Verde em 2003, onde ficou até 2005. Apresentou o programa de entrevistas na rede CNT, Juca Kfouri ao vivo, entre 1996 e 1999. Atualmente está também na ESPN-Brasil. Colunista de futebol de “O Globo” entre 1989 e 1991 e apresentador, de 2000 até 2010, do programa CBN EC, na rede CBN de rádio. Foi colunista da Folha de S.Paulo entre 1995 e 1999, quando foi para o diário Lance!, onde ficou até voltar, em 2005, para a Folha.

Colunas na Folha: https://blogdojuca.uol.com.br/lista-colunas-na-folha/

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