Topo
Blog do Juca Kfouri

Blog do Juca Kfouri

Categorias

Histórico

E se... 12. Chulapa

Juca Kfouri

10/02/2019 00h00

Por ROBERTO VIEIRA

12 de fevereiro de 1978. Telê Santana bota as duas mãos na cabeça. A imagem na televisão mostra Serginho correndo na direção do bandeirinha Vandevaldo Rangel e dando um chute na canela do auxiliar. O São Paulo perdia por 1 x 0 para o Botafogo de Ribeirão Preto Serginho acabava de ter um gol anulado no final da partida pelo árbitro Oscar Scolfaro após sinalização de Vandevaldo Rangel.

Duas semanas depois sai o resultado do julgamento. O vice artilheiro do Campeonato Brasileiro pega catorze meses de suspensão. Serginho está fora da Copa do Mundo de 1978.

Telê lembrou do menino alto e franzino que fora lançado por ele no dia 6 de junho de 1973, em um amistoso entre São Paulo e Bahia. Telê Santana fora trazido pelo São Paulo na tentativa de repetir o mesmo trabalho que fizera no Galo mineiro, sendo campeão nacional em 1971 e revelando pencas de craques nas divisões inferiores. Infelizmente, o São Paulo tinha pressa e alguns medalhões que não iriam largar a rapadura sem mais nem menos atrapalharam tudo.

Serginho foi para o Marília ganhar experiência e Telê voltou pro Galo que parecia sua casa definitiva.

Mas Telê guardava boas recordações do garoto que sabia fazer gols como Mirandinha, fruto das peneiras do clube na Casa Verde, menino da zona norte de São Paulo, garoto que carregava o Cruz de Esperança nas costas.

Pena que Telê não era Minelli. E o São Paulo foi campeão brasileiro de 1977 em 1978 sem Serginho – graças também a ausência de Reinaldo na final no ataque do Atlético-MG.

O que Telê Santana não imaginava é que a justiça brasileira era brasileira. Véspera da Copa de 78. Nunes ganha uma bota de gesso. Reinaldo está fora de forma e com mania de comemorar gol com o punho erguido. Roberto Dinamite é o sonho do Almirante Heleno Nunes, mas não significa garantia para o técnico Cláudio Coutinho.

Serginho é perdoado.

Por bom comportamento.

Marcado pela torcida. Olhado de lado pelos árbitros. Tomando umas com Jorge Mendonça. Serginho chega em Mar Del Plata como a esperança de gols em um grupo complicado. Suécia, Espanha e Áustria são ossos duros de roer. Pior mesmo só o gramado do Estádio José Maria Minella que se soltava a cada chute.

Pinguins passeiam pelas ruas de Mar Del Plata. Os cartolas se divertem no Cassino Central. Os jogadores se agasalham sem conhaque diante do frio polar.

Apenas Serginho Chulapa se sente em casa. Gramado por gramado, nada podia ser pior que a várzea da infância. Comparado com os campos da periferia paulistana, aquele estádio argentino era Wembley.

Chulapa olha de um lado e havia Zico. Do outro Rivelino. Ele preferia Muricy ou Pedro Rocha, mas não podemos ter tudo que a gente quer.

Tudo corria bem até aquele derradeiro momento da partida. Quando Nelinho demorou dez anos pra bater o escanteio e o árbitro galês Clive Thomas encerrou a partida no instante em que Zico cabeceava a bola para as redes de Hellstrom.

Zico botou as mãos na cabeça, incrédulo.

Como também fez Telê Santana e milhões de brasileiros em casa quando Serginho, a cores e em cadeia mundial, saiu em desabalada carreira na direção do árbitro Clive Thomas.

E quando todos imaginavam que Serginho 'Chulapa' Bernardino iria chutar o juiz com toda fúria na direção das Ilhas Britânicas, eis que o goleador passa direto na direção do banco brasileiro que já começava a arrancar os cabelos.

Clive Thomas não entende nada.

Mas Telê Santana começa a sorrir mineiramente na frente da televisão.

Parece que Serginho aprendeu alguma coisa nessa vida, afinal!

Quem sabe um dia, Telê não poderia convocar Chulapa pra sua própria seleção. Uma seleção bem diferente daquele jogo entediante no gramado de pinguins…

Serginho bem podia ser o centroavante dos seus sonhos numa Copa do Mundo.

Como aquele menino Paolo Rossi da Itália.

Sobre o Autor

Juca Kfouri é formado em Ciências Sociais pela USP. Diretor das revistas Placar (de 1979 a 1995) e da Playboy (1991 a 1994). Comentarista esportivo do SBT (de 1984 a 1987) e da Rede Globo (de 1988 a 1994). Participou do programa Cartão Verde, da Rede Cultura, entre 1995 e 2000 e apresentou o Bola na Rede, na RedeTV, entre 2000 e 2002. Voltou ao Cartão Verde em 2003, onde ficou até 2005. Apresentou o programa de entrevistas na rede CNT, Juca Kfouri ao vivo, entre 1996 e 1999. Atualmente está também na ESPN-Brasil. Colunista de futebol de “O Globo” entre 1989 e 1991 e apresentador, de 2000 até 2010, do programa CBN EC, na rede CBN de rádio. Foi colunista da Folha de S.Paulo entre 1995 e 1999, quando foi para o diário Lance!, onde ficou até voltar, em 2005, para a Folha.

Colunas na Folha: https://blogdojuca.uol.com.br/lista-colunas-na-folha/

Mais Blog do Juca Kfouri