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E se... 10. Careca

Juca Kfouri

2007-02-20T19:14:00

07/02/2019 14h00

Por ROBERTO VIEIRA

Era o dia 29 de junho de 1986, Estádio Azteca. Cento e quinze mil pessoas sob um sol de Zapata. Os mexicanos torciam sempre pelo Brasil, e achavam que jogador por jogador o Brasil era mesmo superior aos argentinos, mas havia Diego Maradona que imolara os ingleses com sua subversão, o qual vinha tornando sublimes e inesperados os caminhos da Copa.

Se a bola era brasileira, os destinos do futebol são sempre escritos pelos deuses cujos desígnios são incompreensíveis para os mortais. Assim pensavam os mexicanos. E o mundo pensava mais ou menos a mesma coisa.

Os argentinos estavam armados com a certeza de quem era dado como carta fora do baralho por 100% de sua mídia antes da Copa. Ninguém dava um peso furado pela seleção de Doutor Bilardo. A saída de Passarella aconteceu como símbolo. O adeus aos rapazes de 1978 e a chegada ao regime estudantil de Bilardo, herdeiro das tradições platenses dos anos 60. Haja alfinete!

O goleiro Carlos estava tranquilo. Tomar gol de Maradona seria fato normal numa Copa esquisita que vira dois gols antológicos de Josimar que dormia a sono solto na véspera dos jogos, como se fosse disputar uma partida diante do Olaria no Rio. Edinho e Júlio César eram mais sérios. Edinho sabendo que era tudo ou nada. Júlio se descobrindo Bellini em plena Copa. Branco completava a defesa com a velocidade e ímpeto de quem praticamente decidira a difícil partida contra a França.

Elzo e Alemão era o meio campo dos pesadelos brasileiros. Dois cães de guarda onde antes havia impressionismo. Mas Telê abdicara dos seus princípios em benefício da vitória. 1982 fora muito sofrido, e aquela parecia sua derradeira chance de não ser enterrado junto com o sapo de Arubinha.

Júnior e Zico. Júnior e Zico. Quatro anos faziam toda diferença deste mundo. Eles raciocinavam em technicolor. Muller e Careca em VHS. Quando Sócrates entrava no filme, o encontro de gerações podia ser sublime ou exótico. Tal qual Nilton Santos conversando com Amarildo nas noites cariocas.

O jogo foi muito mais que o encontro de Maradona e Zico. Ambos jogaram tudo que sabiam e algo mais. Foi a maior final de Copa do Mundo desde 1966. A mais equilibrada. A menos pitoresca e mais elaborada.

Durante alguns minutos, o inusitado José Burruchaga foi o herói num contra ataque mortal capitaneado por Dieguito. Burruchaga chegando cara a cara com Carlos.

Mas, desta vez, os deuses do futebol quiseram que a Copa do Mundo fosse conquistada por um cavaleiro de Araraquara, Antonio de Oliveira Filho. Aos 26 anos de idade, Careca deixou sua marca na final após o cruzamento de Zico, igualando o número de gols de Lineker na artilharia do torneio. O Azteca transformado num gigantesco Brinco de Ouro.

Muitos imaginando o que seria Sarriá com Careca em campo.

Pouco importa se na comemoração do gol, ele e Maradona tenham se envolvido num bate boca que terminou com a expulsão dos dois. A Copa terminava com briga num cenário que adorava uma confusão. Brasil e Argentina sem sangue seria um anticlímax para todos que julgavam que o futebol é guerra ao sol e a sombra.

Eduardo Galeano estava nas arquibancadas de sombrero, mendigando a beleza dos noventa minutos e teve a intuição de que Maradona e Careca ainda iriam se encontrar. E foi o que realmente aconteceu.

Pouco depois, a transação entre São Paulo e Napoli deu com os burros n'água. Maradona não quis nem saber de Careca em seu time. O moço de Araraquara não se importou. Arrumou as malas e foi para o Real Madrid.

Na sua primeira temporada europeia, Careca meteu dois gols no Napoli na primeira fase da Copa dos Campeões, deixando Maradona sem ter o que falar.

Pelo menos até 1990..

Sobre o Autor

Juca Kfouri é formado em Ciências Sociais pela USP. Diretor das revistas Placar (de 1979 a 1995) e da Playboy (1991 a 1994). Comentarista esportivo do SBT (de 1984 a 1987) e da Rede Globo (de 1988 a 1994). Participou do programa Cartão Verde, da Rede Cultura, entre 1995 e 2000 e apresentou o Bola na Rede, na RedeTV, entre 2000 e 2002. Voltou ao Cartão Verde em 2003, onde ficou até 2005. Apresentou o programa de entrevistas na rede CNT, Juca Kfouri ao vivo, entre 1996 e 1999. Atualmente está também na ESPN-Brasil. Colunista de futebol de “O Globo” entre 1989 e 1991 e apresentador, de 2000 até 2010, do programa CBN EC, na rede CBN de rádio. Foi colunista da Folha de S.Paulo entre 1995 e 1999, quando foi para o diário Lance!, onde ficou até voltar, em 2005, para a Folha.

Colunas na Folha: https://blogdojuca.uol.com.br/lista-colunas-na-folha/

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