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Sem perdão

Juca Kfouri

2010-01-20T19:17:00

10/01/2019 17h00

POR LUIZ GUILHERME PIVA

Virada de ano é assim: jornais, sites, rádios, enfim, toda a mídia se enche de promessas de vida nova nos nossos times: craques sondados, quase contratados, assegurados ou até já vestindo a camisa em fotos nas redes sociais abrilhantarão o elenco que levantará todas as taças a serem disputadas no ano.

Há medalhões que vêm de fora, revelações que sobem, craques tirados dos rivais, valores milionários – e nós, quais crianças montando o time de botão, ou escalando a seleção no videogame, vibramos, felizes como quem completa o álbum de figurinhas.

Quase sempre tudo se frustra. Um ou outro mediano se confirma, os craques (modo de dizer) ficam onde estão ou seguem para o exterior, algumas trocas de seis por meia dúzia e umas poucas novidades – nos outros times -, quando dinheiro farto de origem estranha banca aquisições e contratos difíceis de explicar e de entender.

Eu há muito tempo deixei de seguir o noticiário dessas ilusões. Dedico mais tempo ao horóscopo (fortuna? amores?) e ao entretenimento (quem? com quem?), que fornecem sensações parecidas sem o pesar de não vermos cumpridas as expectativas, que eram sabidamente etéreas.

Na verdade, me agrada muito mais a perspectiva de que determinados jogadores deixem meu time. Como uma maldição que os astros vão esconjurar. Ou uma celebridade do mal que começa a ser desmascarada.

São falsos craques. Enganam, criam problemas, falham seguidamente e aparecem muito mais do que os outros.

Mas também aqui ocorre a desilusão: a maldição continua, a celebridade escapa e o tal jogador fica no elenco.

Este ano ocorreu de novo.

Encheu-me de esperança a notícia de que clubes brasileiros e sul-americanos pretendiam levar o estorvo do meu time.

Iludi-me. Criei mundos. Vi meu álbum de figurinhas e minhas seleções brilharem com sua ausência.

Mas nada.

Depois de todo o mal que ele tem feito, ao fim, lamentavelmente – num roteiro em tudo similar ao de Esther, do bolero "Perdónala", do genial grupo argentino Les Luthiers –, ninguém o levou.

Melhor mesmo ler o horóscopo e as fofocas das celebridades.

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Luiz Guilherme Piva publicou "Eram todos camisa dez" e "A vida pela bola" – ambos pela Editora Iluminuras

Ouça o bolero AQUI.

Sobre o Autor

Juca Kfouri é formado em Ciências Sociais pela USP. Diretor das revistas Placar (de 1979 a 1995) e da Playboy (1991 a 1994). Comentarista esportivo do SBT (de 1984 a 1987) e da Rede Globo (de 1988 a 1994). Participou do programa Cartão Verde, da Rede Cultura, entre 1995 e 2000 e apresentou o Bola na Rede, na RedeTV, entre 2000 e 2002. Voltou ao Cartão Verde em 2003, onde ficou até 2005. Apresentou o programa de entrevistas na rede CNT, Juca Kfouri ao vivo, entre 1996 e 1999. Atualmente está também na ESPN-Brasil. Colunista de futebol de “O Globo” entre 1989 e 1991 e apresentador, de 2000 até 2010, do programa CBN EC, na rede CBN de rádio. Foi colunista da Folha de S.Paulo entre 1995 e 1999, quando foi para o diário Lance!, onde ficou até voltar, em 2005, para a Folha.

Colunas na Folha: https://blogdojuca.uol.com.br/lista-colunas-na-folha/

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