Blog do Juca Kfouri

A liberdade era azul

Juca Kfouri

POR ROBERTO VIEIRA

30 de julho de 1930, Estádio Centenário de Montevideo

Oitenta mil loucos se espremem no maior estádio do continente. Oitenta mil loucos imigrantes e exilados no fim do mundo. Uma multidão de operários, estancieiros, boiadeiros, açougueiros, milongueiros e funcionários públicos. O Uruguai está prestes a se tornar tricampeão mundial de futebol. Algo inacreditável. Algo inaceitável para os vizinhos argentinos.

O técnico uruguaio Alberto Suppici tem duas dúvidas. A primeira é resolvida na conversa. O craque Manco Castro vai jogar. As ameaças de morte feitas por telefone não deixaram cicatrizes no atacante. Genialmente aleijado, Castro faz pouco caso do destino.

Já a outra dúvida de Suppici é secreta. Será que ele deve escalar aquele defensor? Será que um jogador de futebol que se veste de rosa pra dormir terá raça pra jogar essa batalha?

A imprensa uruguaia desconhece as preferências do atleta. Entre os jogadores a conversa é silenciosa, ninguém se atreve a trazer o assunto a público. Mas a campanha celeste foi claudicante até a semifinal.

A Argentina está melhor.

Suppici se decide por escalar também esse outro atleta de exceção. Mesmo de rosa, joga quem está melhor. Mas o pescoço de Suppici está a perigo. O nome da rosa chega aos ouvidos dos dirigentes.

Bem, conta a história que o Uruguai foi campeão com um gol de Castro.

Suppici se tornou um técnico adolescente e campeão. Tinha a ousadia dos imberbes.

O atleta que gostava da cor rosa continuou dormindo de rosa… e ai de quem ousasse fazer gracinha com ele.

Para aquela seleção uruguaia, havia lugar para o negro Andrade, o aleijado Castro e até para o rosa xerifão.

Porque, naquele 1930, a liberdade era azul.

Azul celeste…