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Juca Kfouri

2018-12-20T18:11:49

18/12/2018 11h49

Recomendo a quem ingresse na vida pública que tome uma vacina tríplice: contra o corporativismo, a soberba e acomodação

Por CHICO ALENCAR, em O Globo de hoje.

Minha geração, na resistência à ditadura implantada pelo golpe civil-militar de 1964, aprendeu a valorizar o Parlamento: ele, mesmo sendo um escritório dos interesses dominantes, podia reverberar também o clamor dos "de baixo".

Foram 16 anos na Câmara dos Deputados, marcados por muitas derrotas e algumas vitórias. Quatro mandatos de grande aprendizado, que me autorizam a fazer alguns alertas, às vésperas do novo e preocupante arranjo político nacional. Há um futuro carregado do que já passou.

Representar não é substituir! Mandato político eletivo não é pura delegação, e nenhuma representação é absoluta. Democracia participativa, de alta intensidade, exige permanente busca pela "presentação", a começar pelo controle popular dos representantes.

Mandato não é construção individual. É fato que a farta assessoria por vezes é mais dedicada às Excelências (herança da cultura nobiliárquica) do que à excelência da função pública. Mas trabalho de equipe é imprescindível na ação voltada para o bem comum. Como repetia nossa saudosa vereadora Marielle Franco, "eu sou porque nós somos".

Os partidos estão desacreditados. Só que todo mandato é partidário, realizado em bancadas. As legendas, com raras exceções, se tornaram ajuntamentos de interesses escusos, negociatas, instrumentos para o carreirismo. Iniciativas legislativas e ações de governo são compradas por grandes corporações. Aí estão as bancadas das empreiteiras, do boi, da bala, da Bíblia (fundamentalista), do banco. Com essa degradação, a população percebeu a inutilidade das siglas na melhoria de sua vida cotidiana.

O clientelismo é porta para a corrupção. Mandato republicano existe para legislar, fiscalizar os governos e estimular a organização popular. Em vez de fidelizar currais eleitorais para sua própria reprodução, os mandatos têm que contribuir para o ativismo cidadão autônomo. À cultura dos direitos é inerente a responsabilidade social, inimiga da postura egoísta e da indiferença em relação ao outro.

O individualismo é o tijolo do patrimonialismo. Mandato público, em qualquer instância de poder, precisa ter compromisso com a implementação de políticas que ajudem a superar nossa maior chaga: a desigualdade social. Isso pressupõe educação pública democrática de qualidade, saúde para todos, segurança, trabalho, teto, terra. E cuidado ambiental, mobilidade urbana, democratização da cultura e da informação. Objetivos a serem buscados sempre com ética e transparência.

Recomendo a quem ingresse na vida pública que tome uma vacina tríplice: contra o corporativismo, que reproduz uma casta onde prevalecem o cinismo e a hipocrisia; contra a soberba, filha da cultura autoritária e irmã do histórico mandonismo; contra a acomodação, induzida pela tentação do aburguesamento que o cotidiano sedutor nos palácios traz. Impõe-se só aceitar o que for necessário ao exercício do mandato, e publicamente defensável. É imperativo prestar contas nas praças, estar presente na vida diária do povo e nas lutas sociais, em suas inéditas e questionadoras formas. Ali onde estão o lamento e a esperança humana, deve estar a pessoa pública!

Há muitas maneiras de servir à população. Não aceitei a previdência parlamentar e retorno à minha vida de educador. Paulo apóstolo deixou, em carta escrita da prisão em Roma, aproximando-se seu martírio, uma frase valiosa para crentes e não crentes: "combati o bom combate, terminou minha jornada, guardei a fé" (2 Tim 4,7).

Nossa jornada ainda não terminou, mas acredito que, entre erros e acertos, travamos as boas batalhas e mantivemos as convicções, as ideias e causas como fundamento da nossa atuação. O plural não é majestático: sempre apostamos na construção coletiva. Estreitos nós. Gratidão.

Chico Alencar é deputado federal (PSOL-RJ)

Sobre o Autor

Juca Kfouri é formado em Ciências Sociais pela USP. Diretor das revistas Placar (de 1979 a 1995) e da Playboy (1991 a 1994). Comentarista esportivo do SBT (de 1984 a 1987) e da Rede Globo (de 1988 a 1994). Participou do programa Cartão Verde, da Rede Cultura, entre 1995 e 2000 e apresentou o Bola na Rede, na RedeTV, entre 2000 e 2002. Voltou ao Cartão Verde em 2003, onde ficou até 2005. Apresentou o programa de entrevistas na rede CNT, Juca Kfouri ao vivo, entre 1996 e 1999. Atualmente está também na ESPN-Brasil. Colunista de futebol de “O Globo” entre 1989 e 1991 e apresentador, de 2000 até 2010, do programa CBN EC, na rede CBN de rádio. Foi colunista da Folha de S.Paulo entre 1995 e 1999, quando foi para o diário Lance!, onde ficou até voltar, em 2005, para a Folha.

Colunas na Folha: https://blogdojuca.uol.com.br/lista-colunas-na-folha/

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